Crônica

6 anos ao lado do Professor... E ainda não estou pronto para dizer adeus!

Anakin e Luke Skywalker. Harry Potter, Ronnie Weasley e Hermione Granger. Frodo e Bilbo Bolseiro.... (por Hugo H. Pereira em 02/02/14, via Nintendo Blast)


Anakin e Luke Skywalker. Harry Potter, Ronnie Weasley e Hermione Granger. Frodo e Bilbo Bolseiro. Ross, Monica, Chandler, Rachel, Joey e Phoebe. Sherlock Holmes e Watson. Grandes personagens com os quais vários de nós crescemos. Alguns, como Harry ou o elenco de Friends, nós presenciamos desde seu simplório começo, acompanhamos sua glória e, eventualmente, tivemos de nos despedir quando chegaram ao fim. É estranho se apegar a algo que você tem plena consciência de que não é real… mas, ainda sim, não consegue evitar de se entristecer, de sentir falta quando eles se vão… Essa lista de nomes amados que eventualmente nos deixam cresce constantemente e varia de pessoa para pessoa. Hoje estou aqui para falar de mais um grande personagem e suas épicas histórias cujo nome, após o dia 28 de fevereiro de 2014, também irá entrar para essa minha lista. Estou falando do professor e arqueólogo Hershel Layton.
AVISO: como o texto relata vários acontecimentos da franquia que me marcaram, alguns spoilers estão espalhados ao longo da crônica. Pequenos em sua maioria, o que merece destaque são os comentários relacionados ao final de Unwound Future.

Uma revista extinta e uma franquia recém-nascida.

Eu me lembro bem a primeira vez que ouvi falar nesse tal de “Professor Leitão”: era março de 2008, eu ainda estava na sétima série do fundamental e havia acabado de receber meu Wii. Há alguns meses eu acompanhava uma nova publicação mensal dedicada à Big N que havia chegado ao mercado, a NGamer Brasil. Como de costume, passei na banca para adquirir meu exemplar daquele mês, a edição número nove, pelo qual eu estava muito ansioso. Era o mês do lançamento de Super Smash Bros Brawl e Bully, dois jogos que me interessavam muito, e eu mal esperava para ver a análise dos mesmos. Mas em meio àquela edição recheada de conteúdo, dos citados jogos a um detonado de No More Heroes e um especial sobre o WiiWare que estava prestes a estrear, a análise de um jogo que até então eu não conhecia chamou a minha atenção.

A primeira vez que me deparei com aquele
que se tornaria meu jogo preferido.
“Professor Layton and the Curious Village” era o seu nome. É engraçado pegar a revista agora e ver o Nelson Alves Jr. tentando explicar um conceito que, hoje, é tão natural para mim. Ainda sim, na época, descrito como uma coletânea das “típicas pegadinhas de vestibular, apresentadas ao jogador de uma maneira extremamente divertida”, o conceito do jogo me conquistou. Naquele período eu me encontrava viciado em sudoku, caça-palavras e enigmas de lógica, então aquela descrição foi um prato cheio para o jovem Hugo sedento de desafios cerebrais. Não fosse o bastante, a temática londrina intensificou meu interesse ainda mais, pois desde pequeno fui fascinado pela cultura inglesa e seus costumes.

Infelizmente, não foi até outubro do ano seguinte, quando ganhei meu DSi de presente de aniversário, que pude finalmente ver do que se tratava aquela empreitada da Level 5. Fazia anos que eu não jogava Pokémon, estava doido para experimentar a Blue Shell de New Super Mario Bros, mas o primeiro jogo a rodar no meu portátil foi Layton, e eu me lembro até hoje, nos mínimos detalhes, de como foi a nossa primeira aventura juntos.

Está aberta a temporada de quebra-cabeças.

Minha busca pelo tesouro da Maçã Dourada e pelos segredos que assolavam a cidade de St. Mystery começou num domingo chuvoso, no qual eu não tina muito o quê fazer a não ser testar meu mais novo portátil. Ao ligar o aparelho e encaixar o cartucho, a paixão foi instantânea. Ao ouvir aquele sotaque britânico no primeiro “Luke, my boy…” embalado ao som de acordeões; ao desvendar o primeiro enigma que valia mais de 50 picarats; ao perambular pela cidade só para observar o cenário; ao ouvir o tema do professor tocar pela primeira vez… ao fazer cada uma dessas coisas eu sentia uma completude e uma felicidade como nunca havia sentido com um jogo antes. Aquela semana não existiu para mim. Estivesse eu em aula, no carro ou em casa, se não estava jogando o jogo em si, eu estava matutando qual seria a resposta para aquele enigma que eu havia deixado passar.
Me lembro de decorar todos os enigmas envolvendo fósforos
e desafiar meus amigos a resolvê-los na vida real
"Sempre se deve colocar a
 necessidades de uma dama
a frente de qualquer coisa,
Luke. Afinal, é isso
que um cavalheiro faz!"
E foi na quarta-feira seguinte que finalmente consegui encontrar Flora e desvendar o segredo do barão Reinholds. No treme-treme do ônibus à caminho de casa, numa estrada não asfaltada, vi a sequência final do jogo e, já em casa, na sala de estar que estava em obras, ouvi pela primeira vez Layton dizer aquelas palavras que eu guardaria comigo e esperaria ansiosamente para que fossem ditas outra vez: “After all, that’s what a gentleman does!”

Com um vocabulário expandido imensamente, graças ao primeiro jogo e o contato com uma vertente do inglês com a qual eu não estava acostumado, não demorei muito mais para completar os extras e os malignos quebra-cabeças desbloqueáveis. Na sequência, mergulhei de cara no segundo jogo, que havia sido lançado não fazia muito tempo, e a sua busca pela caixa Elysiana - ou de Pandora, se preferir.
Lembro-me que foi nesse ponto em que comecei a importunar meus amigos para que jogassem, para que conhecessem a história e que assistissem - mesmo que contra a própria vontade - às animações do jogo. Se Curious Village consegui ter um final relativamente emotivo, o surpreendente e bonito final de Diabolical Box foi capaz de fazer escorrer duas singelas gotas de lágrima de um dos meus olhos - coisa que jogo algum jamais havia feito.

A cena da luta de espadas entre Anthony e Layton ainda é uma das minhas animações favoritas dentre todos os jogos do Professor.

O Primeiro Adeus num Futuro que não Aconteceu.

O cartucho estava
corrompido? nada tema,
pois todo enigma tem
uma solução!
E após finalizar Diabolical Box, durante o horário de recreio numa manhã de novembro, veio pela primeira vez aquela sensação de vazio: sem prazo para o lançamento do terceiro jogo nas Américas, eu tive que retornar aos enigmas de lógica e sudokus, agora não mais tão interessantes. Após me distanciar da franquia, devido à falta de títulos, passei um ano sem muitas surpresas no mundo dos games, sem nada me conquistar como Layton havia me conquistado. Foi só então em Novembro de 2010 que um amigo meu, vindo do Paraguai, me trouxe uma cópia de Unwound Future, que havia sido lançado há dois meses. Com o coração na mão, não pensei duas vezes e me pus a jogar o fim da primeira trilogia do verdadeiro gentleman… só para descobrir que havia algo de errado com a fita e, ao desligar o portátil, o save file era apagado. Tomado por frustração, deixei o cartucho engavetado na minha mesa de cabeceira.

Foi só na véspera da Proclamação da República, uma noite de domingo, que meu anseio pelos enigmas do Professor superaram a minha raiva pelo cartucho defeituoso que impedia meu progresso. Mas lembrei-me que não era a primeira vez que acontecia isso comigo: quando adquiri meu Luigi’s Mansion eu havia esquecido de comprar um Memory Card de Game Cube, o que me impediu de salvar meu progresso, me forçando a realizar um speedrun para completar o jogo. Então, como um bom cavalheiro, fui jogar o jogo despretensiosamente, apenas com o intuito de aproveitar os enigmas apresentados.
A única vez que Layton foi a capa de uma publicação brasileira dedicada à games.
Ler e reler aquela análise me fez ignorar o problema com o save e experimentar a Londres do futuro.
Liguei o DSi às oito horas da noite e pretendia jogar, no máximo, até meia noite. E passou-se uma hora… duas horas… três horas… quatro horas… O limite que eu havia estabelecido já havia estourado, mas eu não podia parar ali! Ciente do problema com o save file, eu me forcei a continuar jogando até o Professor confrontar a sua versão de dez anos no futuro. Mas por quê parar ali? Agora que finalmente acho que estou começando a entender o que está acontecendo… não, vamos investigar o centro de pesquisas de Dimitri! E agora? Já estou no capítulo 12 que, em sua introdução, conta com a arte de Layton apontando para alguém! É aquela animação clássica na qual o Professor desmascara o vilão por trás de tudo. Seria rude eu parar antes de presenciar tal fato.


Depois de assistir um trailer desses, com uma trilha sonora dessas, a paixão foi instantânea e o Hype, nas alturas. Felizmente, a realidade não encontrou as expectativas; ela excedeu!
E de desculpa em desculpa, fui prolongando as horas investidas no jogo: cinco horas… seis horas… sete horas… e, finalmente, oito horas. Depois de ter virado a noite, às quatro da manhã do dia 15 de novembro de 2010, começo o epílogo do jogo. O fim mais inesperado que já vi em um jogo - e também um dos mais tristes - fez partir o meu coração ao descobrir quem realmente era celeste. Ver Layton, que ao longo de três jogos inteiros, sempre foi tão calmo e composto, mesmo sob as piores situações, se desmanchar daquela forma ao ter que dizer adeus novamente ao amor de sua vida… foi demais para mim. Durante aquela sequência final de diálogos e animações, que durou cerca de quinze minutos, eu tive que me trancar no banheiro pois eu me emocionei a ponto de cair nos prantos e chorar soluçando tão alto que quase acordei meus pais.
O final mais triste que já ví em um jogo. E sim, eu vi a morte de Aerith
Arte by: Spiccan
Depois daquela emoção jorrar de forma tão pura e, ao mesmo tempo, brutal, eu sabia que Professor Layton não era mais “um jogo qualquer”. Eu jamais havia chegado àquele estado de conexão com algo produzido pelo homem: seja jogo, filme, livro, teatro ou qualquer outra manifestação artística. Mas, novamente, assim como Layton disse adeus à Clair, foi minha vez de dizer adeus ao professor, pela primeira vez. E como se aquilo nunca tivesse ocorrido, pois ao desligar meu DSi e ir para cama, todas as memórias daquela intensa aventura foram apagadas dos bytes de armazenamento daquele cartucho.
Após um final tão rico e emotivo, minha criatividade explodia de inspiração, então comecei a ilustrar as cenas narradas mas que não apareceram no jogo, principalmente as de 15 anos antes dos acontecimentos de Unwound Future.

O quê um Cavalheiro Faz Nessa Situação?

Em pensar que só veremos esta cena mais uma vez...
O tempo passou, descobri como Luke conheceu o Professor e o que motivou Layton a se tornar um arqueólogo… E aqui estou eu, há 26 dias do meu último encontro com o Professor - ao menos da forma em que o conhecemos. Com suas frases celébres, seus jargões e histórias comoventes, Professor Layton conseguiu se tornar uma das mais felizes lembranças que tenho relacionadas a algum meio de entrerimento… e em breve serão tudo o que vai restar. Assim que Professor Layton: Azran Legacies chegar, eu estarei participando da minha ultima aventura ao lado daquele cavalheiro de cartola. Estarei saboreando meus últimos quebra cabeças, assistindo minhas últimas animações e me preparando para um segundo adeus…

Sim, teremos Phoenix Wright Vs Professor Layton vindo ao ocidente (finalmente), o quê dará mais um leve sopro ao legado com o qual Layton nos deixará, mas é inegável que a presença do professor não será mais a mesma. Com Layton 7 já anunciado e mudando completamente os paradigmas da franquia, conforme a chegada de Azran se aproxima fico cada vez mais feliz e ansioso: tantos mistérios para serem resolvidos, há tanto tempo que não resolvo um bom puzzle… Até que me dou conta de se tratar do último título do personagem, e sou tomado por uma tsunami de nostalgia e saudade antecipada. Tal qual o diálogo na animação final de Unwound Future, “eu não quero dizer adeus novamente. Eu não posso, eu não vou!” E parando para pensar, nenhum de nós vai. Com o legado que esse personagem vai nos deixar, as suas aventuras permanecerão eternamente vívidas em nossas memórias. E se fraquejarmos nesse futuro pós-Azran, imaginemos que as últimas palavras de Clair tivessem saído da boca da Level5 e sido direcionadas à nós:

“Eu lhe conheço, e sei que você irá se manter forte. Afinal… Não é isso que um cavalheiro faz?”
Ainda sim... nas palavras de Claire:
"Eu sentirei falta de você... e do nosso 'futuro que não aconteceu '... Adeus, Layton."

Capa e Ilustrações: Hugo Henriques Pereira
Revisão: Ramon de Oliveira Souza e Bruno Grisci
Hugo H. Pereira cursa artes conceituais nos EUA e atua como ilustrador e redator no Blast. Quando não está colocando seus desenhos no Facebook, está gritando "Objection" por ai ou resolvendo enigmas com o Professor Layton.

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