Jogamos

Análise: Shovel Knight traz ao Wii U a glória das plataformas 8-bits

O aguardado projeto do Kickstarter enfim chega no eShop, trazendo alta dificuldade, elementos de RPG, fases excelentes e muitas surpresas.


Nostalgia. Uma palavrinha mágica, que faz com que boa parte dos gamers levantem as cabeças e arregalem os olhos. Poder se lembrar dos primeiros jogos que jogamos, ter aquela sensação novamente de experimentar o seu primeiro título para o NES... Isso é uma sensação que uma grande parcela dos jogadores tenta buscar e, a cada jogo que promete lhe ajudar nessa empreitada, na maioria das vezes nos vemos com menos grana e mais saudosismo, mas sem cumprir nosso desejo de revisitar a era dourada dos videogames. Entretanto, eis que de tempos em tempos surge uma pérola que consegue trazer essa sensação dos jogos de outrora para os consoles atuais, e a peróla da vez tem nome: Shovel Knight.




O projeto fundado há mais de um ano e contando com diversos atrasos (o jogo era pra estar completo em setembro de 2013), Shovel Knight se tornou um ícone do Kickstarter para desenvolvedores indies que tentavam publicar seus jogos. A empreitada da Yacht Club Games prometeu aos colaboradores e gamers do mundo inteiro um jogo inspirado nos clássicos do NES, com jogabilidade simples, flúida, paleta de cores limitadas, sprites de pixel art com poucas animações e muitos sons de chiptune. Em outras palavras: nostalgia pura em forma de jogo. Entretanto, o que os colaboradores, bem como qualquer jogador que decida comprar essa pérola, receberam, foi muito mais além do que foi prometido.

Mostrando que menos é mais

O enredo do jogo é simples, tal qual era de se esperar de um jogo de plataforma da década de 80, mas não deixa de ser interessante: o guerreiro Shovel Knight defendia o reino junto com sua amada Shield Knight até que, devido a uma emboscada na Torre do Destino, a guerreira do escudo ficou presa em seu interior. Com o aprisionamento de seu amor por vários anos, Shovel Knight perde a sua gana de viver e se muda para o interior, vivendo pacificamente. Entretanto, sem nenhum guerreiro para defender o local, um grupo de guerreiros maquiavélicos, a Order of no Quarter, sob o comando da Enchantress, tomam os castelos do mundo. Quando a torre na qual Shield Knight está selada se abre, cabe a Shovel Knight correr e derrotar os outros oito guerreiros, além da Encantriz e o Dark Knight, para salvar sua companheira.



Embalado nessa história, o jogador navega por um pequeno mapa que lembra o mini-mapa remanescente de Super Mario Bros. 3 podendo, até certo ponto, escolher a ordem em que deseja enfrentar os guerreiros. Lembrando fortemente o estilo frenético de Mega Man, o jogo remete ao protagonista com diversos poderes, inimigos que precisam levar várias pancadas e chefes em ambientes fechados. O jogador deve atravessar as diversas fases temáticas juntando o máximo de ouro o possível e encontrar itens e coletáveis, até, por fim, enfrentar o guerreiro que usurpou o castelo de seu dono original. A busca por dinheiro, em conjunto com a habilidade de usar a pá como uma espécie de pula-pula, ainda faz referência a outro grande clássico do NES: o Tio Patinhas em DuckTales. É evidente que o pessoal da Yacht Club Games fez sua lição de casa. Ainda assim, embora as diversas referências e homenagens, o jogo tem sua própria atmosfera e personalidade.


Com uma excelente ambientação, embora conte com poucas fases (mas ei, os jogos de antigamente não eram tão grandes como os de hoje em dia!), cada um dos estágios é extremamente distinto um do outro e todos de qualidade ímpar. O platformer 2D ainda conta com alguns elementos de RPG, ao poder realizar upgrades em sua vida e mana (esta gasta para utilizar as relíquias mágicas encontradas ao longo das fases), novos ataques com a pá, melhores armaduras e até mesmo algumas missões paralelas, como a coleta de partituras para um bardo. Eventos especiais também tomam conta de fases já concluidas e interseções do mapa, possibilitando revisitar locais sob uma nova ótica, compensando a falta de mais níveis.
Com a pá em uma mão e o diário na outra
O pessoal da Yacht Club fez questão de que cada plataforma que recebesse Shovel Knight não somente tivesse um jogo que fosse propriamente adaptado, como também que tirasse proveito de todas as suas funcionalidades. Tanto o 3DS quanto o Wii U aproveitam da tela de toque para poder selecionar rapidamente as relíquias (poderes especiais) e consultar inventário, mas enquanto o portátil conta com efeitos 3D e funcionalidades StreetPass, o console possui diversas opções de controle, Off-TV Playoff-TV play e o Digger’s Diary. Esse “Diário do Escavador”, é a implementação do Miiverse dentro do jogo. Escolhendo um avatar, o jogador pode fazer posts referentes ao conteúdo da sala na qual se encontra. É hilário quando nos deparamos com posts nos quais as pessoas incorporam o personagem que escolheram de avatar e utilizam-se de seus maneirismos e jargões.

Uma pá de conteúdo

O guerreiro que empue uma pá conta com muito mais do que somente a escavadora de trincheiras em seu arsenal. Como mencionado, em cada fase, encontra-se um baú especial contendo uma relíquia. Ou melhor, um vendedor trancado, que vai querer te vender uma relíquia. Geralmente muito úteis nas fases na qual são encontradas, algumas são úteis para o combate, outras para locomoção entre os vários perigos do jogo. Já certas relíquias ajudam até mesmo em ambos os casos. Interessantes são as fases especiais focadas em relíquias específicas, como o Phase Locket, que te deixa invencível por cerca de três ou quatro segundos, e que testam sua habilidade em usar a mesma sobre dificílimas condições.

Dose extra de dificuldade
Ao completar a história pela primeira vez, o jogador é recompensado com a possibilidade de repetir o jogo no modo "New Game+". A versão Plus do jogo é ainda mais desafiante, e, embora deixe o jogador manter os itens e upgrades do save anterior, os inimigos são mais fortes e as fases contam com apenas dois checkpoints: um na metade da fase e um logo antes de se enfrentar o chefão do estágio.
Além da trama e fases principais, o jogo ainda possui bastante conteúdo para entreter o jogador. Desde uma fase que homenageia os colaboradores do Kickstarter (que inclui uma excelente piada com meta-referência) e guerreiros andarilhos que cruzam o caminho de Shovel Knight e atuam como chefes especiais, o jogo surpreende ao apresentar mais e mais conteúdo inesperado. Com vários achievements, ou "Feitos", como são chamados no jogo, os complecionistas terão uma lista de 45 árduas tarefas para realizar. Já os casuais, irão se divertir muito com o viciante minigame de uma alquimista que se encontra escondido no subsolo do primeiro vilarejo.

Feitos heroicos
Como mencionado, o sistema de Feats, como é conhecido dentro do jogo, promete aumentar a longevidade do mesmo. Os desafios, todos listados em uma tela para que você possa correr atrás de completá-los, são dos mais diversos. Enquanto alguns são cumpridos conforme você progride naturalmente na história (como derrotar quatro chefões), outros requerem ações específicas, maestria do uso das relíquias e até mesmo nervos de aço por parte do jogador na busca dos feitos mais difíceis (como passar o jogo inteiro sem morrer ou completar uma fase sem pegar nenhum ouro ou levar dano). Considere-se um cavaleiro e tanto se conseguir realizar todos os 45 feitos!
A direção de arte e os conceitos aplicados no jogo são de se aplaudir de pé. Com personagens hiper-carismáticos, mesmo formados por poquíssimos pixels, desde o protagonista quanto os aldeões e enimigos caem na graça do povo. O bode mágico (vulgo "Goatician"), a dançarina de can-can, o cozinheiro, os habitantes antropozoomórficos... todos com animações super divertidas. O que dizer então do conceito de pá e escavação? Desde o começo temi que fosse parecer algo muito randômico o protagonista usar uma pá, mas o meu medo se dissipou e transformou-se em risos ao ver outros guerreiros com instrumentos similares , como o escavador Mole Knight ou até mesmo o Polar Knight, cuja pá parece mais a escavadeira de um trator de demolição.
Espere que logo vem mais!
Caso seja familiar com o projeto do Kickstarter, é capaz de achar que comprou gato por lebre: não estão presentes todas as funcionalidades prometidas através das metas excedentes atingidas pela campanha. Isso foi feito para que todos pudessem aproveitar o enredo central do jogo o quanto antes. Em breve, o modo Boss Rush, batalha multiplayer (podendo selecionar cada um dos chefes), herói do sexo feminino e três campanhas completamente novas focadas em três dos chefes (Plague, King e Specter Knight) estarão disponíveis através de updates grátis para o jogo. Quem sabe, se essas campanhas com os três chefes façam sucesso, o pessoal da Yacht Club não resolva fazer, através de DLC pago, outras histórias com os cavaleiros restantes? 

Transcendendo a nostalgia

É evidente que uma das principais atrações de Shovel Knight é o seu fator nostálgico, agindo como era de se esperar de um grande jogo da época dos 8-bits, mas ele não se limita em viver do passado. Como uma espécie de exemplo de como seriam os jogos hoje em dia, caso ainda nos limitássemos aos 8 bits, embora os gráficos e trilha sonora sejam limitados (embora estejam longe de ser simplórios), os olhos atentos percebem que o jogo oferece muito que não poderia ser visto na década de 80. Com vários elementos simultâneos na tela, batalhas frenéticas, animações complexas, sprites com várias paletas de cor misturadas e uma imensa quantidade de informação, coisas impossíveis no NES, o jogo é não só uma ode aos clássicos, como também uma lição de game design até para a geração atual.


Com excelentes doses de dificuldade na medida certa, diversos extras, direção de arte linda, conceitos hilários e trilha sonora empolgante e grudenta feito chiclete, Shovel Knight é um título absurdamente divertido e faz valer os quinze dólares gastos no eShop muito facilmente. Embora conte com poucas fases, o alto fator replay e o sistema de "feitos" –- além da pura diversão que o título proporciona –- são garantias de que o jogador vai continuar retornando ao game constantemente. Shovel Knight consegue absorver o melhor de dois mundos: tudo o que a indústria dos jogos aprendeu ao longo desses anos e todo o contexto nostálgiconostágico da geração 8-bits que tanto amamos, e é justamente por isso que posso afirmar que o título é um dos melhores jogos de plataforma já feitos.

Prós:


  • Personagens, chefes e níveis diversos e carismáticos;
  • Dose de dificuldade na medida exata;
  • Level design inteligente e cheio de segredos;
  • DLCs grátis com novos modos aumentarão a longevidade do título;
  • Ótima direção artística e homenagem àa pixel art;
  • Trilha sonora empolgante e envolvente;
  • Excelente tributo aos clássicos da era 8-bits;
  • Eficiente uso dos recursos do Wii U;
  • Sistema de “Feats” é desafiador e viciante.

Contras:


  • Jogo curto para os padrões atuais;
  • Nem todas as funcionalidades previstas estão disponíveis no lançamento.

Shovel Knight — Wii U (eShop) — Nota: 10

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Daniel Silva

Hugo H. Pereira cursa artes conceituais nos EUA e atua como ilustrador e redator no Blast. Quando não está colocando seus desenhos no Facebook, está gritando "Objection" por ai ou resolvendo enigmas com o Professor Layton.

Comentários

Fórum
Google+
Facebook


Últimas do Fórum

Ver mais

No Facebook

Ver mais