Blast from the Trash

Regular Show: Mordecai and Rigby in 8-Bit Land (3DS) é apenas um jogo

Uma das mais famosas séries animadas da atualidade recebe uma adaptação para o portátil da Nintendo que não é lá grande coisa…

A WayForward, estúdio conhecido, dentre outros trabalhos, pelos jogos da série Shantae e pela belíssima “resmasterização” do consagrado DuckTales (NES), tropeçou feio e ralou os joelhos na tentativa de transportar para o mundo dos videogames a série animada Apenas um Show, exibida diariamente no Brasil pelo canal de TV por assinatura Cartoon Network. Regular Show: Mordecai and Rigby in 8-Bit Land, exclusivo para o 3DS, nada mais é do que um jogo de plataforma genérico que em nada lembra o desenho animado a não ser, é claro, pela presença dos protagonistas do desenho. Vamos tentar entender aonde foi que os desenvolvedores erraram.

Alguém pode me explicar isso?

Para quem não conhece ou nunca assistiu o desenho em questão, vou tentar passar um breve resumo sobre a história. O canal televisivo Cartoon Network conta atualmente com três carros-chefes em sua grade de programação: Ben 10, Hora de Aventura e Apenas um Show, sendo que estes dois últimos são reprisados a níveis de exaustão durante a programação diária da emissora, tal como o Chaves é reprisado pelo SBT. Apenas um Show, criado por J. G. Quintel, gira em torno da vida e da rotina de Mordecai, um azulão, e Rigby, um guaxinim, em um mundo onde animais e objetos antropomorfizados vivem normalmente ao lado dos humanos, trabalhando, estudando, namorando e etc.

Mordecai e Rigby “trabalham” na manutenção do parque municipal, juntamente de Saltitão, um Abominável Homem das Neves que se locomove saltitando na ponta dos pés, Musculoso, um cara chato, atarracado, de pele esverdeada, que vive para atazanar seus colegas de trabalho fazendo pegadinhas nocivas e além, é claro, de Fantasmão, um fantasma com uma mão saindo pela cabeça. Toda essa trupe é chefiada por Benson, uma máquina de chicletes com sérios problemas de estresse, que por sua vez recebe ordens do ingênuo Pairulito, um pirulito humanóide que se veste como um elegante cavalheiro do século XIX. A cada episódio, a dupla inventa novas maneiras de cabular o serviço para jogar videogame, passear com o carrinho do parque ou simplesmente em nome da procrastinação.


No desenho, situações normais e cotidianas adquirem grandezas epopeicas que chegam a beirar o nonsense. Por exemplo, em um determinado episódio, Mordecai e Rigby são incumbidos por Benson a jogar uma poltrona velha no lixo. Acontece que os amigos acabam gostando do móvel e decidem jogar pedra, papel e tesoura para ver quem deveria ficar com ela. No entanto, a cada rodada, inexplicavelmente, a dupla acabava selecionando os mesmos lances, acumulando empate atrás de empate. Na centésima rodada, porém, por não conseguirem chegar a um consenso, uma entidade interdimensional na forma de um buraco negro surge nos céus para arrebatar a mobília e destruir o parque.

Só mais um dia normal no parque

Assim como muitos jogos baseados em filmes ou desenhos, o título possui uma história superficial que é explicada brevemente por algumas cenas ilustradas, com diálogos legendados, apresentados em slides no início e no final da campanha. E só. Ora, estamos falando de um jogo para o 3DS, o que custava para os desenvolvedores fazerem uma animação resumida, de um ou dois minutos, com os dubladores originais do desenho para explicarem a história? Enfim, de volta ao enredo: é um dia normal no parque, Mordecai e Rigby estão recebendo uma bronca do Benson para voltarem ao trabalho e logo em seguida eles se deparam com uma encomenda misteriosa na porta de casa. Trata-se de nada mais, nada menos do que “O Melhor Jogo do Mundo” (ironia, não?). É obvio que os rapazes decidem deixar de lado seus afazeres para brincar com seu jogo novo, mas ao ligarem o console ambos são sugados pelo monitor da TV e acabam parando dentro do jogo. Então o jogo começa, sem maiores esclarecimentos.

Fuga da Terra dos 8-Bits

O game tem a premissa de ser uma paródia dos antigos jogos de plataforma em 2D da era NES, mas acaba misturando tantos elementos de outros títulos que acaba perdendo sua identidade própria. O surgimento do personagem no início das fases é o mesmo do Mega Man, a divisão das fases é a mesma da franquia Super Mario (Mundo 1 - 1, Mundo 2 - 1) e a jogabilidade é a mesma já manjada dos jogos de plataforma genéricos: caminhe da esquerda para a direita, pule sobre os obstáculos e derrote os inimigos pelo caminho, enquanto coleta dinheiro e power-ups.
No decorrer da campanha, podemos controlar ambos os personagens alternando de um para o outro com o apertar de um botão, sendo que cada um possui habilidades próprias. Mordecai pode realizar um pulo duplo, podendo assim alcançar lugares altos, enquanto que Rigby pode correr sobre quatro patas, passando por lugares estreitos, inacessíveis para Mordecai.


Adiante, procedendo na jogatina, Mordecai e Rigby adquirem o poder de alterar a jogabilidade, dependendo do cenário de fundo no qual estão. Mordecai pode se transformar numa nave espacial, uma vez que o cenário de fundo é o espaço sideral. O jogo então se transforma em um daqueles saudosos jogos de tiro de progressão lateral para fliperamas, tal como R-Type (Arcade). Já o Rigby, uma vez que se depara com um labirinto cinzento, adquire uma arma e altera a perspectiva do jogo para uma visão aérea do cenário e uma movimentação vertical pela fase, lembrando muito clássicos como Gauntlet (Atari) e os primeiros The Legend of Zelda (NES). Apesar de parecer inovadora, essa mecânica acaba quebrando o ritmo do jogo, uma vez que é preciso ficar a todo o momento trocando as transformações dos personagens devido às mudanças repentinas dos cenários de fundo. Isto sem falar que as versões nave espacial de Mordecai e franco-atirador de Rigby deixam os controles confusos e desajeitados. Só para citar um exemplo, em determinada área, enquanto jogava com Rigby, ao voltar para a forma normal enquanto ainda estava dentro do labirinto, acabei caindo em um glitch que fez o personagem ficar preso dentro de uma parede, o que me obrigou a resetar o jogo.

Uma coleção de falhas

O jogo é extremamente curto. É possível zerá-lo em menos de uma hora. São apenas quatro mundos, divididos entre quatro fases e uma luta contra um chefe de fase. Tudo isso em troca de um encerramento tão sem graça quanto a abertura. É possível continuar o jogo depois que se zera, para tentar encontrar alguns colecionáveis espalhados pelas fases, mas não passa de uma repetição maçante e sem nenhum desafio. Soma-se isso ao baixo fator replay, porque o jogo não empolga e enjoa muito fácil, dificilmente você volta a pôr as mãos nele depois o que finaliza.

Ao jogar este título, você se sentirá jogando um jogo para Game Boy Advance. Em nada ele utiliza as funcionalidades do 3DS, pois a tela tátil inferior do console se torna dispensável. Uma ideia bacana que poderia ter dado certo seria colocar o jogador para controlar os protagonistas simultaneamente, ou seja, Mordecai na tela superior e Rigby na tela inferior, ou vice-versa, em um esquema semelhante a The World Ends With You (DS/iOS). Infelizmente, a WayForward desperdiçou a oportunidade de fazer um jogo interessante, sustentado em uma série de sucesso que possui uma grande leva de fãs. Até parece aquele joguinho das Meninas Superpoderosas, lançado em 2001 para o GBA.

Regular Show: Mordecai and Rigby in 8-Bit Land é uma adaptação fraca feita às pressas na tentativa de surfar na onda do sucesso do desenho. É curto, enjoativo e desperdiça um universo rico em personagens cativantes e referências à cultura pop. Se você é fã do desenho e procura por um jogo bom de verdade, procure pelo tower defense A Grande Guerra das Pegadinhas, disponível no site do Cartoon Network.  Eu garanto: é mais divertido e é de graça.


Revisão: Alan Murilo
Capa: Stefano Genachi
Alan Kottwitz é formado em Administração de Empresas e seu primeiro videogame foi um Dynavision Radical com 64 games. Adora escrever, é fã de carteirinha de Neil Gaiman e se amarra em coisas Nerds. Para trocar uma ideia com ele, basta procurá-lo no Facebook.

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