Discussão

O que há de errado com o Virtual Console do 3DS e Wii U?

Falta de variedade, ritmo de lançamento fraco, desorganização, pouca ousadia... vamos destrinchar problemas do Virtual Console

Quando ouvi as primeiras notícias de que o Wii teria uma porção de sua loja online dedicada exclusivamente a jogos retrô, fiquei bem animado. Comprei o meu Wii em 2006, e me deparei com dezenas de jogos para NES, SNES, N64 e, para a minha surpresa, até consoles de outras empresas, como o Genesis e o Commodore 64. No 3DS e no Wii U, era de se esperar que a Nintendo expandisse a excelente experiência do Wii, certo? Bom, até agora, temos nos decepcionados com um ritmo lento de lançamento dos jogos, muitos títulos obrigatórios ainda não disponíveis, falta de um recurso cross-buy e poucas funcionalidades extras no jogos...


Dando nomes aos bois

Acredito que todo mundo já tenha percebido que a variedade, organização, periodicidade e ousadia do Virtual Console da Nintendo nessa oitava geração está bem aquém do esperado. Algo incompreensível para um serviço que teve um resultado positivo no Wii, ainda mais se pensarmos que, no geral, o 3DS e Wii U elevaram a um nível muito superior a interação online e lojas virtuais da Big N. Infelizmente, o Virtual Console não acompanhou os mesmos avanços que a eShop experimentou. Vamos analisar e tentar entender o vários problemas da biblioteca retrô da Nintendo!

Variedade

O 3DS já tem quatro anos de vida e o Wii U ruma para o terceiro. É sério que vamos continuar com essa variedade fraquíssima de títulos no Virtual Console? Os dois sistemas já não estão mais no início de seus ciclos de vida e nem mesmo tiveram o trabalho de igualar suas bibliotecas retrô à do Wii, algo que exigiria um esforço mínimo. Onde estão os jogos de N64 no Wii U? E os tíulos para consoles da Sega? Por que motivo games de GBA ainda não estão no Virtual Console do 3DS se os embaixadores os receberam em 2012?

Se formos comparar o Wii com o Wii U, por exemplo, vimos que a Wii Shop americana "terminou" seu ciclo de vida com quase 400 jogos. Já o Wii U, até agora, tem 148. E a situação fica ainda pior para a plataforma da oitava geração quando lembramos que nem todos os consoles retrô contemplados pelo Virtual Console do Wii estão na eShop. O TurboGrafX-16 tem apenas quatro jogos no 3DS e até agora só chegou ao Wii U pela eShop japonesa . Continuamos sem ver jogos para MSX nas eShops ocidentais e, por enquanto, o único novo console third-party a ser contemplado pelo Virtual Console nessa oitava geração foi o Sega Game Gear.

Ritmo de lançamento

Os jogos de Virtual Console não são system sellers, nem mesmo jogos que merecem uma posição estratégica no calendário de lançamentos da Nintendo. Ok, foi estratégico disponibilizar Zelda: A Link to the Past (SNES) próximo ao lançamento de Zelda: A Link Between Worlds (3DS), mas, na maioria dos casos, é melhor que os jogos cheguem simplesmente o quanto antes no Virtual Console. Não é uma loja para a qual as pessoas criam hype, mas sim uma loja para ter a maior oferta possível de jogos nostálgicos durante toda a vida do aparelho.

Lançado num momento fraco do Wii U e por menos de um dólar, Super Metroid é um exemplo de título retrô que se destacou
E nem mesmo para ajudar no calendário de lançamentos os jogos de Virtual Console têm servido. Afinal, quantas lacunas e períodos mornos do Wii U e 3DS não poderiam ser preenchidos com uma leva de jogos retrô? Seria uma maneira razoável de cobrir falhas no ritmo de lançamento dos jogos originais usando títulos com custo praticamente zero de produção. Claro que lançar Super Mario World (SNES) não iria acalmar a ansiedade por Super Mario 3D World (Wii U), mas atende à demanda e satisfaz por algum tempo e em alguma medida.

Duas lojas ou uma só unificada?

Quando o 3DS começou a lançar jogos em seu Virtual Console, eles eram todos de Game Boy e Game Boy Color. À primeira vista, isso dava indícios de que o 3DS inauguraria o relançamento digital de jogos para portáteis, enquanto o Virtual Console do Wii e do Wii U seriam o lar de mais e mais jogos retrô para consoles de mesa. Trataria-se de uma divisão interessante da loja online da Nintendo, afinal, games originalmente lançados para portáteis de fato são melhor usufruídos num portátil  e o mesmo vale para os consoles de mesa e seus próprios jogos.

Seria digno um Virtual Console especializado em portáteis
No entanto, não foi bem isso o que aconteceu. Em vez de o Wii U trazer jogos de NES, SNES, N64 e GC, enquanto o 3DS esbanjaria os de GB, GBC, GBA, a coisa toda se misturou. Jogos de NES chegaram ao 3DS e títulos de GBA ao Wii U. Em vez dos jogos de DS chegarem ao 3DS, foram anunciados (e posteriormente esquecidos) para o Wii U, que, por sua vez, recebeu alguns poucos jogos de Wii antes mesmo de vermos a sombra de um título para GC em sua loja. Ou seja, não há um princípio lógico para entender a oferta de consoles retrô para cada plataforma atual.

E, mesmo se considerarmos que a ideia seja ter, tanto no 3DS quanto no Wii U, jogos retrô de todos os consoles que puderem suportar, ambas as plataformas em questão estão longe de fazerem isso. Afinal, se tem jogos de NES e GBA (este último apenas para embaixadores), por que não de SNES também na eShop do 3DS? E os de N64 e GC não poderiam ser portados facilmente para o Wii U?

Organização

O eShop avançou muito em relação à Wii Shop e DSi Shop no que diz respeito à dinamicidade, visual e funcionalidades. Em vez daquelas lojas com cara de hospital, temos mercados digitais coloridos e repletos de ofertas e novidades. Essa evolução, no entanto, não relegou ao Virtual Console um cantinho organizado e estruturado para quem quer navegar por sua oferta de títulos. Em vez disso, temos jogos retrô espalhados pelas outras categorias do eShop.

O Wii Shop tinha vários problemas, mas seu Virtual Console era muito mais organizado
Por um lado, essa manobra ajuda a mostrar aos jogadores mais novos a existência dos títulos retrô. Por exemplo, quem nunca jogou SNES dificilmente pesquisará por jogos 16-bits, mas ver Castlevania ou Mega Man na aba "Grandes Aventuras" junto a games contemporâneos poderá fazê-lo dar uma chance a esse tipo de jogo. Mas por que isso precisa anular uma aba para o Virtual Console semelhante à do Wii? 

O que há é apenas uma lista geral (com poucas páginas) de jogos retrô, sem poder pesquisar por console. As poucas opções de filtro para a listagem atrapalham a vida de quem tem interesses específicos por jogos retrô. E os games de Wii e DS podem ser considerados como do Virtual Console do Wii U? Se sim, seria bom que a Nintendo já colocasse os de Wii disponíveis da lista com os demais retrô.

Ousadia

O último ponto em que o Virtual Console do 3DS e Wii U fraqueja é na ousadia. No Wii, o Virtual Console havia se superado algumas vezes, trazendo, por exemplo, jogos de fliperama, games lançados apenas no Japão (como Sin and Punishment) e a adição de um modo online em Super Street Fighter II (SNES). O 3DS até começou um pouco mais ousado, oferecendo pela primeira vez jogos para portáteis retrô, incluindo o Sega Game Gear na sua lista e remasterizando alguns títulos como 3D Classics. Hoje, no entanto, o Virtual Console do 3DS se limita a ser uma versão reduzida da de Wii U. Esta, por sua vez, fez bem trazendo jogos de GBA e Wii, mas ainda tem dificuldades para oferecer uma biblioteca extensa.

3D Classics são um aposta interessante,
mas lançados muito raramente
O que queria ver de fato era um Virtual Console que sempre nos impressionasse no que diz respeito à nostalgia. Por que não usar a possibilidade de ter jogos de GBA no Wii para lançar Mother 3 pela primeira vez no Ocidente? Por que não experimentar no Virtual Console do 3DS outros portáteis como WonderSwan, Game & Watch ou mesmo o Virtual Boy? Por que não criar uma estante digital com a possibilidade de ver as caixas dos jogos, ler seus manuais e movimentar seus cartuchos/discos? E a maior de todas as perguntas... por que não há o recurso cross-buy no Virtual Console?


Como havia dito, as lojas retrô do Wii U e 3DS têm o NES e, no Japão, o TurboGrapx-16 como pontos em comum — embora a ausência de uma separação clara entre qual console retrô cabe a qual loja disponibilizar dê a entender que haverá mais pontos de encontro entre ambas. Então qual o sentido de precisar comprar duas vezes um jogo de NES para poder jogá-lo em casa na televisão e fora de casa no portátil?

Recursos extras são muito bem vindos
A Sony já trouxe o recurso cross-buy há anos com o PS Vita e o PS3 e PS4, então qual a demora para isso acontecer nas plataformas Nintendo? Mais ousado ainda seria poder compartilhar o progresso nos jogos, como acontece em Monster Hunter 3 Ultimate (3DS/Wii U), permitindo continuar no ônibus o progresso feito em casa.
Lançar EarthBound no Virtual Console foi realmente ousado, mas por que não ir além e disponibilizar Mother 3 também?

O desafio de trazer nostalgia aos atuais consoles

Partindo do pressuposto de que o 3DS está no fim de seu ciclo de vida e o Wii U proximo à metade, é improvável que o Virtual Console consiga se reestrututar ainda nessa geração. Um futuro triste, afinal, a Sony já está muito à frente nesse tipo de serviço, oferecendo uma biblioteca extensa de PS3 pela nuvem. A ideia é ter também títulos de PS, PS2, PSP e até PS4 no futuro. E o serviço é compatível não apenas com as plataformas mais recentes da Sony, como também com televisões da Bravia.


Enquanto a Sony cria uma espécie de "Netflix" de seus jogos, a Nintendo só agora veio a experimentar o recurso cross-buy entre 3DS e Wii U em um jogo seu (Mario vs. Donkey Kong: Tipping Stars). E quem mais perde com isso é a própria Big N, uma vez que, dada a importância e a paixão dos fãs por seu catálogo de jogos retrô, um serviço similar ao PlayStation Now que trouxesse games do NES ao Wii seria extremamente lucrativo. Afinal, jogadores pelo mundo todo já se viram com emuladores em diversos aparelhos. Controlar a distribuição desses jogos de maneira unificada, organizada e a preços baixos seria uma maneira mais efetiva de combater a pirataria e disputar os "piratas".

O recente anúncio da entrada da Nintendo no mercado de jogos para tablets e smartphones trouxe a informação de que essa nova estratégia não se trataria do relançamentos de seus jogos clássicos. De fato, é melhor ter o Virtual Console em plataformas Nintendo do que em celulares, uma vez que a ausência de botões dificulta muito a precisão nesses jogos. No entanto, a Big N também "anunciou" sua próxima plataforma: o NX. E se esse novo aparelho trouxer algo semelhante ao PS Now ou o PS TV, algum tipo de assinatura para Virtual Console ou nativamente o recurso cross-buy? Embora a Nintendo tenha atualmente problemas autorais com a marca "Virtual Console", o futuro pode nos reservar melhores decisões e estratégias da empresa.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Angelo Gustavo
Rafael Neves é estudante de psicologia na UFBA e planeja ingressar no mundo da literatura como escritor. A paixão por videogames e a vontade de escrever unem-se na experiência como jornalista do ramo. Também trabalha em sua HQ virtual. Encontre-o no Facebook.

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