Satoru Iwata: um jogador, um desenvolvedor, um presidente

Nossa singela homenagem relatando a trajetória e a história do presidente da Nintendo.


"No meu cartão de visita, eu sou o presidente corporativo. Na minha mente, eu sou um desenvolvedor de jogos. Mas em meu coração, eu sou um jogador."
Satoru Iwata
Jogos são sinônimos de entretenimento, de lazer e de diversão. Eu cresci lendo revistas de games que traziam informação com bom humor. Eu aprendi lendo, eu me diverti lendo. Foi isso que me motivou a escrever sobre jogos, a estar aqui hoje, informar, entreter e divertir leitores como você, mas nem sempre é assim. Quero dizer, temos que estar preparados para críticas e dar notícias nada agradáveis, mas certamente falar sobre a morte inesperada de alguém que você acompanhou incessantemente nos últimos anos e de uma empresa pela qual há um carinho especial seja mais difícil.


Você deve estar se perguntando o porquê de tanta comoção nas redes sociais de fãs da Nintendo e de nomes da indústria sobre o falecimento de Satoru Iwata, presidente da Big N. Mensagens, fotos e artes de agradecimento e de despedida estão por toda a parte, inclusive no Miiverse. E sabe por quê? Porque Satoru Iwata não era só um presidente, Iwata era mais do que isso.

Mais que um presidente


Iwata era um jogador


Iwata jogava e amava jogos. Isso foi primordial para sua formação. Filho do prefeito da cidade de Sapporo, no Japão, sua terra natal, Iwata se interessou por jogos ainda no colégio. Ele criava games de números simples em sua casa, nas horas vagas, usando calculadora eletrônica. Então, a levava para seus amigos jogarem na escola.


Seu interesse o levou a cursar Ciência da Computação no Instituto de Tecnologia de Tóquio. Enquanto estudava, Iwata começou a trabalhar como programador freelancer na HAL Laboratory. Como a empresa colaborava com a Nintendo, atuou nesse cargo até se formar e ser admitido em tempo integral na HAL.



Iwata era um desenvolvedor


O sucesso de Iwata como presidente deve-se, em boa parte, pelo fato de ter sido um desenvolvedor de jogos. Iwata entendia como os jogos funcionavam, como eram feitos. Iniciou seus trabalhos na HAL Laboratory como coordenador de produção de software em 1983.

Trabalhou no desenvolvimento de jogos como Balloon Fight, sendo um dos responsáveis pela física do título (posteriormente emprestada para a Nintendo simular fases aquáticas nos jogos do Mario), EarthBound e na série Kirby. Em 1993, Iwata foi promovido a presidente da HAL em um momento complicado. Prestes a fechar as portas, Iwata organizou a empresa e estabilizou as finanças.

O sucesso da franquia Pokémon também teve participação de Iwata. Juntamente com Tsunekazu Ishihara, ele fundou a Creatures Inc. em 1995, empresa filiada à Nintendo e responsável pelos brinquedos e card game de Pokémon. Mesmo na posição de presidente da HAL, atuou como programador no desenvolvimento e na criação de sistema de compressão em Pokémon Gold & Silver em 1999. Reescreveu toda a codificação original de Pokémon Red & Green para funcionar no Pokémon Stadium em, acredite, uma semana.

Anos depois na Nintendo, Iwata passou três semanas com a equipe de Super Smash Bros. Melee corrigindo falhas no jogo para lançá-lo no prazo. Masahiro Sakurai, diretor de Super Smash Bros. e que trabalhou com Iwata na HAL Laboratory, comentou que ele era o melhor líder possível. Segundo Sakurai, Iwata propunha soluções equilibradas, era trabalhador e virtuoso, sendo a pessoa que mais o compreendeu quando ele trocou de empresa.



Iwata era um líder.


Sabe aquele estereótipo de presidente engravatado, que fica sentado na cadeira no escritório apenas dando ordens? Iwata não era assim. Ele assumiu a presidência da Nintendo em 2002, aos 42 anos. Iwata era diretor da divisão de planejamento corporativo da Nintendo antes de se tornar presidente. Sabia que assumiria a posição principal de uma das maiores empresas de jogos do mundo, Hiroshi Yamauchi avisara Iwata anos antes. Sabia também que enfrentaria resistências.

Iwata era presidente de uma empresa centenária, típica de Japão, "fechada" e com filosofias próprias, algumas antiquadas. Iwata era o primeiro presidente da Nintendo, uma empresa até então familiar, a não ter sangue dos Yamauchi. Recebeu críticas e ouviu que não conseguiria seguir a filosofia da Nintendo. Mas ele provaria isso não só com palavras, mas com atitudes. Ele precisava virar o jogo.



A Nintendo passava por um momento conturbado quando Iwata foi promovido. O GameCube não ia bem e a Big N estava atrás das concorrentes. Ele tinha que mudar a situação e decidiu sair da zona de conforto. Por dentro das paredes da Nintendo, Iwata liderou novos projetos e objetivos da gigante japonesa. Foi um dos responsáveis pela revitalização da linha portátil da empresa trazendo o Nintendo DS, um sistema de bolso de duas telas e touchscreen que não carregava o nome Game Boy. Era a mudança de Iwata, a nova Nintendo: atrair o público não acostumado com jogos como mulheres, adultos e idosos. O Nintendo DS não era só um "jogo para garotos", era para todos, para a família. Era a nova filosofia de Iwata e com velha filosofia da Nintendo de sempre inovar. Iwata arriscou e acertou.

Repetiu a dose com o novo console da Nintendo. Decidiu não apostar em poderio gráfico como seus concorrentes, mas em inovação. Trouxe então o Nintendo Wii, pioneiro no uso de controles por movimento. A estratégia de "revolução" provou ser um sucesso, Iwata colocou a Nintendo no topo novamente. Era a volta da Big N aos holofotes, como na era NES e SNES/GameBoy. Mas ele não se contentava em liderar, Iwata queria participar, mostrar que entendia do assunto. E entendia mesmo. Participava de eventos de eletrônicos, encarava e falava com o público, com os fãs, com os jornalistas, com acionistas. Mas ele queria mais.

Nós vimos um presidente de uma das empresas mais respeitadas do mundo jogar tênis em Wii Sports. Assistimos esse presidente ser garoto propaganda do Nintendo 3DS, correndo e pulando com um bigode. Também vimos Iwata e seu Vitality Sensor, aquele "coiso" estranho no qual deveríamos colocar o dedo para transformar batimentos cardíacos em ações nos jogos (e que preferimos esquecer). Rimos com ele lutando contra Reggie Fils-Aime para promover Super Smash Bros. for Wii U & 3DS. Onde mais você viu isso na sua vida!?


Iwata queria estar mais próximo dos fãs e decidiu arriscar seu inglês enrolado em Nintendo Directs, mostrando as novidades da empresa diretamente para nós. Era como se estivéssemos na casa de um velho amigo, ouvindo ele contando histórias ou novidades. Iwata vestiu capacetes, chapéus, segurou bananas, fez unboxing do Wii U, sempre com carisma e sorriso no rosto. Virou memes em redes sociais. Também pediu desculpas e para que entendêssemos quando teve que anunciar adiamentos de jogos. Entrevistou criadores e desenvolvedores de jogos em Iwata Asks, contando fatos, bastidores, problemas e histórias curiosas sobre a produção de jogos que tanto amamos.

Iwata jogou games enquanto criança, enquanto desenvolvedor, enquanto presidente. Não era só a figura de um presidente, mas sim de uma pessoa carismática que gostava e entendia de jogos. Que gostava, entendia e amava a Nintendo.

Bandeira na sede da Nintendo a meio mastro em luto pelo falecimento de Iwata

We don't understand...

Nos últimos anos, Iwata enfrentou vários problemas. O lançamento do Nintendo 3DS em 2011 coincidiu com desastres naturais assolando o Japão e a desvalorização do iene, a moeda do país. Para a crise não afetar fortemente a Nintendo, Iwata cortou o preço do portátil e seu próprio salário pela metade. Após recuperar a situação com o portátil, veio o Wii U. O console não emplacou como o antecessor, ficou meses sem títulos expressivos. Foram três anos consecutivos com resultados financeiros ruins.

Iwata teve a humildade de se desculpar pela ausência de jogos e dificuldade no desenvolvimento em HD. Não escondeu a situação, assumiu os erros e prometeu virar o jogo. Ouviu que a Nintendo deveria desistir do mercado de portáteis, desistir consoles, se tornar uma empresa exclusiva de software e lançar suas séries para celulares. Resistiu e manteve a filosofia da Nintendo de que "hardware vende software e vice-versa" e recuperou a empresa. É verdade que, diferentemente do 3DS, o Wii U não é um sucesso absoluto, mas Iwata fez a Nintendo voltar a lucrar com as vendas do console e fechou o último ano fiscal com lucros.


Mas a vida é um jogo implacável e ainda havia um Boss para Iwata enfrentar. No ano passado, Iwata descobriu um tumor no ducto biliar. Pelo agravamento de seu estado de saúde, o presidente passou por cirurgia e ficou fora da E3 2014. Iwata sumiu por algum tempo para se recuperar, mas voltou mais magro e abatido para contar novidades no Nintendo Direct. Seguiu forte e não foi para a E3 2015 para cuidar de assuntos administrativos. Há duas semanas, participou da conferência sobre resultados financeiros com acionistas. Mas aquele chefe voltou mais forte e, desta vez, Iwata perdeu a batalha e na vida real não há Continues...

Iwata não apresentou um dos últimos Nintendo Directs, dizendo que "um velho de 55 anos de idade não apresentaria o tempo todo". Lembra do que escrevi no começo desse texto? Então, esse senhor presidente me ensinou e me divertiu, assim como as saudosas e velhas revistas impressas.

Senhor Iwata, entenda que você não será esquecido, somos gratos por suas contribuições na indústria de jogos. Entenda que seu legado será visto nos próximos anos da Nintendo, com o NX, o projeto de Qualidade de Vida, a parceria com a DeNA para games em smartphones, o licenciamento de IPs para outras mídias e futuros jogos. Entenda que nós sentiremos sua falta nos Nintendo Directs, do "directly to you" e de seu carisma. Entenda que queríamos esse "velho de 55 anos de idade" apresentando novidades o tempo todo. Entenda que nós não entenderemos porque você partiu tão cedo... Por favor entenda.





Alex Sandro de Mattos é formado em Gestão de TI. Entre se aventurar por Hyrule e se perder em Silent Hill, gosta de publicar fatos interessantes e bobagens no Nintendo Blast. Pode ser encontrado jogando games 2D e também no Facebook.

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