Super Mario World 2: Yoshi's Island: 20 anos de beleza poética no SNES

20 anos da mais bela, sensível e tocante jornada de amizade no Super Nintendo


Em 1995, quando o mundo dos jogos eletrônicos já se deleitava com a modernidade dos polígonos, a Nintendo produz uma das mais belas obras de arte da história dos videogames: Super Mario World 2: Yoshi’s Island. Graciosamente pincelado com cores vivas e magistralmente orquestrado com delicadas canções, a jornada de amizade e coragem de Yoshi e Baby Mario marcou história no Super Nintendo, tornando-se um dos títulos mais aclamados de todos os tempos. Difícil não pensar nos jogos como arte após apreciar esta maravilha, que mesmo 20 anos após seu despertar ainda causa as mais lindas sensações em quem lhe direciona um olhar sensível, semelhante ao que separamos para as belas pinturas ou nos fantásticos contos de fadas.

A sequência de um clássico

Título de lançamento do Super Nintendo, em 1990, Super Mario World foi um marco na história dos videogames. Trazendo um mundo imenso, vivo e repleto de segredos, a aventura de Mario e Luigi em busca da princesa sequestrada na Dinosaur Land rendeu bons frutos para a Nintendo, vendendo milhões e moldando o mercado. Consequentemente, uma sequência parecia inevitável.
Um clássico eterno.
Como nas selvas
Enquanto produziam a sequência de Super Mario World, a Nintendo pressionou a equipe de desenvolvimento a fazer uso de gráficos 3D pré-renderizados, como a Rare fez com Donkey Kong Country. Contudo, o próprio Miyamoto bancou a ideia de ter sprites 2D que adquirissem aspecto de giz de cera. Uma provável amostra de como poderia ter sido o jogo é a introdução que mostra os personagens modelados de forma renderizada. Embora não tenha sido utilizado em Yoshi’s Island, sua sequência, Yoshi’s Story (N64) apresentou os visuais sonhados para o primeiro jogo. 
Cinco anos mais tarde, quando os primeiros jogos em 3D começavam a surgir e os sprites eram ridicularizados frente à aparente superioridade dos modernos e “realistas” polígonos, a Nintendo surpreendia com o anúncio da tão esperada continuação do seu primeiro grande jogo em 16-bits. Super Mario World 2 estava a caminho. 
Capa americana do jogo.
Desenvolvido pela Nintendo EAD, com nomes como Shigeru Miyamoto (produtor) e Kōji Kondō (trilha sonora), Super Mario World 2 chegava às prateleiras em 5 de agosto de 1995 no Japão e dois meses depois foi lançado nos Estados Unidos. Embora o “2” no título não represente o real conteúdo do jogo — tanto é, que no Japão o jogo foi lançado como Super Mario: Yossy Island —, o jogo faz jus ao legado do bigodudo, tornando -se, como o tempo provaria, algo original e inovador, inclusive, dando origem a um novo universo a ser explorado pela casa do Mario.
Chocando o jogo
Em 5 de outubro de 1995, na cidade de Culver City, na Califórnia, a Nintendo promoveu o lançamento norte-americano de Super Mario World 2: Yoshi’s Island em um evento no mínimo exótico. De baixo de um sol de rachar, a Nintendo colou no chão um ovo gigantesco, forrado com feno. A ideia era chocar o ovo e dar vida ao tão aguardado jogo. Enquanto dois corajosos fantasiados de Mario e Yoshi dividiam o topo do ovo com o diretor de uma escola local — vale salientar que o cidadão recebeu U$ 500,00 para sua escola por este feito — , crianças receberam martelos de borracha para arrombar uma pequena área do ovo que guardava uma surpresa. Após várias tentativas, foi revelado um cartucho do título em tamanho família, anunciando, com isso, o seu lançamento. Após as brincadeiras, a Nintendo sorteou, entre os participantes, um Super Nintendo acompanhando de uma cópia de Yoshi’s Island. Continuando com a divulgação, foi distribuído, para lojistas e jornalistas, um VHS promocional de seis minutos intitulado Super Mario World 2: Yoshi's Island: A Magical Tour of Yoshi's Island. Para completar a propaganda, cards promocionais baseados no jogo foram distribuídos juntos da Revista Nintendo Power e mangás temáticos foram vendidos como complemento da história principal. 
Assim, celebrando os dez anos de Mario nos videogames e com a responsabilidade de suceder um dos jogos de maior sucesso na história do entretenimento eletrônico, Super Mario World 2: Yoshi’s Island chegava ao mercado, surpreendendo jogadores e críticos com sua beleza poética ímpar.
Passado em comum
Um prequel, assim é denominado Super Mario World 2. Embora a língua portuguesa não tenha uma tradução oficial para este termo inglês, ele é utilizado para se referir a uma obra artística que contém elementos passados no mesmo universo ficcional, ou paralelo, segundo o contexto que uma narrativa prévia completa, desde que esses elementos ocorram anteriormente aos narrados no primeiro trabalho — o termo foi popularizado com o lançamento de Star Wars: A Ameaça Fantasma, em 1999. O título se debruça sobre o mesmo universo do arrasador Super Mario World, passando-se num passado no qual Mario e Luigi são apenas bebês, mesmo sem maiores explicações sobre as conexões. Mas, é aí que as semelhanças com seu antecessor acabam e somos levados à belíssima Yoshi’s Island.

Como nos contos de fadas

Diferente da maioria dos jogos do encanador, nos quais a única explicação para sairmos feito loucos por perigosos mundos é o resgate da princesa sequestrada pelo vilão, em Yoshi’s Island a trama ganha contornos de contos de fadas, revelando a nobreza dos pequenos dinossauros através da fidelidade e coragem, tão características nos títulos seguintes. E como uma boa história deve ser, aqui temos ação, aventura e muitos desafios na jornada dos nossos queridos heróis.

Encantador até hoje.
A missão não será das mais fáceis, já que Kamek é um mago bastante poderoso, capaz de transformar criaturas fofas em inimigos terríveis. Além disso, o caminho até o castelo onde Luigi estava era cheio de desafios, exigindo bastante coragem, destreza e determinação por parte dos vários e coloridos Yoshis. Por sorte, nosso querido companheiro conta com habilidades dignas dos heróis mais icônicos dos videogames.. Até mesmo Mario ficaria surpreso com tamanha desenvoltura. 

Os poderes da ferinha

Não, a estrela do jogo não é o bigodudo, como sugere o título do jogo — pode chorar à vontade, bebê Mario. Em Yoshi’s Island, o verdadeiro protagonista e herói é Yoshi,  nosso fiel companheiro em Dinossaur Land. O dinossauro que já tinha feito bonito em sua participação em Super Mario World, dessa vez supera as expectativas e não mede esforços e habilidades para superar todos os obstáculos para reunir os irmãos e fazer uma família feliz. 
Força, Yoshi.
Seguindo a premissa dos tradicionais jogos de plataforma bidimensional side-scrolling, Yoshi é capaz de correr, saltar, acertar inimigos e adquirir novas formas. Todavia, a grande diferença para os outros heróis das plataformas é a forma como ele realiza suas proezas. 
Chorando de desespero
Mesmo com tantas habilidades, Yoshi ainda é uma criatura frágil. Qualquer encontro com outro inimigo lhe causa dano, derrubando o bebê imediatamente. Aí é um Deus nos acuda. Mario voa numa bolha enquanto chora desesperadamente. É simplesmente ensurdecedor ouvir o choro do moleque — é tão alto que Kamek consegue ouvir no último castelo. Se não bastasse o barulho, é neste momento que um contador regressivo dispara. E para piorar, quando esse marcador zera, os capangas de Kamek aparecem para levar o bebê Mario, fazendo o jogador perder uma vida e retomar o último checkpoint.  
Os saltos são seguidos de um movimento desesperado, no qual Yoshi esperneia freneticamente alcançar lugares mais distantes. A corrida é completamente desesperada, inclinando a cabeça para frente e movendo os pés com enorme velocidade. Já os ataques podem ser linguadas capazes de engolir os inimigos, transformando-os em ovos que podem ser arremessados como projéteis, com direito até a mira, ou “bundadas” que destroem barreiras e estacas.
Nada pode pará-lo.
Para completar o poder de fogo dos Yoshis, uma série de itens estão disponíveis para auxiliar na jornada. Obtidos ao longo das fases — no caso dos ovos coloridos — ou em bônus e minigames — no caso dos itens selecionáveis no menu de pause —, cada item produz um efeito específico, como recarregar o contador de tempo e os ovos, e deve ser exaustivamente explorado para conseguir a pontuação máxima em todas as fases, superando seus obstáculos e revelando seus segredos. 

Desafio camuflado 

Não pense que a temática colorida e fofa do jogo significa um caminho mais suave a seguir. Muito pelo contrário. Yoshi’s Island é tão desafiante quanto Super Mario World. Não falo de simplesmente concluir o jogo. Se esse for seu real objetivo, realmente encontrará pouca dificuldade. Mas se quiser “detonar”, conseguindo 100% em todas as fases, não espere por moleza.
Enfrentar monstros, coletar moedas e ainda cuidar de um bebê. Esse Yoshi é fera.
O objetivo de cada nível é simples: basta chegar até o final e passar entre o círculo de flores — torcendo para que a roleta pare em uma das flores. O level designe é magistral, aumentando gradativamente o desafio, mas nunca exigindo técnicas muito avançadas para vencer. A forma instintiva e ágil de controlar Yoshi também ajuda no desenrolar da ação.

Contudo, tudo muda quando o objetivo é coletar todos os itens do jogo e descobrir os inúmeros segredos. Exigindo controle absoluto do personagem, reflexos e estratégia perfeitos, o jogo ganha contornos hardcore. Além de lugares de difícil acesso e itens muito bem escondidos, tudo isso precisa ser superado enquanto administra o tempo gasto quando Mario sai de controle. E é justamente essa a parte mais complicada de atingir os 100%.
Muitos são os desafios ao longo das fases.
A conta para os 100% em cada fase é fácil de ser feita. Cada uma das cinco flores traz 10%, totalizando 50%. Mais 30% vêm dos 30 segundos advindos das estrelas que aumentam o tempo do bebê Mario fora do Yoshi. Os 20% restantes são das 20 moedas vermelhas espalhadas em pontos estratégicos ao longo da fase.

Chegando ao final com tudo isso você conseguirá os 100% necessários para completar o jogo. Conseguindo a pontuação perfeita em todas as oito fases do mundo você desbloqueia duas novas fases: um desafio extra e um novo nível. 
Poochy é um fiel companheiro em SMW2.
Por falar em níveis, o jogo é dividido em seis mundos com oito fases cada, mais dois níveis bônus. Para concluir cada mundo, é preciso superar cada uma das fases, sem liberdade de movimentação como em Super Mario World. Aqui, o mapa do jogo é, literalmente, um mapa, no qual a cada nova fase um Yoshi de cor diferente está esperando, pronto para levar o bebê Mario pelos perigosos a caminho da Ilha dos Yoshis, povoada por criaturas perigosas, como os chefes que guardam as fortalezas do jogo.

A vida selvagem 

Assim como nas melhores histórias infantis, a vida em Yoshi’s Island é repleta de criaturas mágicas e únicas, trazendo uma ambientação especial para o jogo. Neste ponto, podemos considerar que a Nintendo foi ainda mais além do que foi visto em Super Mario World, criando inimigos e aliados carismáticos e divertidos.

Ao lado da turma dos Yoshis, temos uma variedade de amigos prontos para ajudar no resgate do bebê Luigi e devolver os gêmeos aos pais, como Huffin' Puffin, Melon Bug, Muddy Buddy e Poochy. Já do outro lado, Kamek e Bowser possuem um time de respeito, com 116 variações de inimigos, como Bandit, Cactus Jack, Dizzy Dandy, Zeus Guy, Tap-Tap, Hot Lips, Hootie the Blue Fish e Fuzzy — responsável por deixar Yoshi, digamos, um pouco mais “feliz” —, e mais 12 chefes de fase. 


Combater os guardiões dos castelos é um show à parte. Com mecânicas criativas e originais, nunca foi tão divertido e prazeroso enfrentar os chefões — principalmente se lembrarmos das infinitas repetições em Super Mario World. Presentes no quarto e no oitavo níveis de cada mundo, os chefões são inimigos comuns encontrados nas fases, mas turbinados pela magia de Kamek — com exceção de Prince Froggy. Mas é a forma de derrotá-los que os torna únicos. 
Batalha dentro de prince Froggy.
Se os aliados são em número reduzido em comparação com os inimigos, pelo menos Yoshi compensa isso com suas habilidades de transformação. Ao tocar uma das bolhas especiais, Yoshi assume a forma de um dos cinco tipos de veículos do jogo: Carro, Helicóptero, Tanque, Submarino e Trem, deixando o chorão Mario por um instante. 

Escondido
Por pouco não tivemos novas transformações, itens e personagens em Yoshi’s Island. Analisando o código do jogo, foi possível encontrar sprites escondidos que foram cortados da versão final. Entre os que se destacam, temos um cogumelo verde, uma árvore com rosto de Yoshi e uma transformação de Yoshi em avião — possivelmente substituído pelo helicóptero. 
Capaz de correr velozmente, voar, cavar, nadar e navegar por trilhos nas paredes, Yoshi se mostra incrivelmente versátil, trazendo variedade e diversão ao jogo, quebrando um pouco a rotina de correr, pular, atirar ovos e resgatar o bebê.
As batalhas contra chefes são uma atração a parte.
E por falar no pequeno Mario, ele também tem seus momentos de herói. Mesmo de fraudas, ele é capaz de se transformar no Superstar Mario. Tocado por uma estrela especial, Mario é capaz de correr — inclusive pelas paredes —, saltar, fazer pequenos voos com sua capa e destruir inimigos com sua invencibilidade. 

Música para a flores

Assim como seus lindos visuais, a trilha sonora encanta ao primeiro acorde. Produzida pelo lendário compositor Kōji Kondō, cada canção remete ao que é visto em jogo, alternando entre momentos calmos, frenéticos e aterrorizantes. Basta ouvir os primeiros minutos da canção de abertura “Story Music Box”, que mais parece um canção de ninar, para viajar em memórias felizes e sentir toda a atmosfera carinhosa do jogo.

As canções do jogo são memoráveis. E nada melhor do que eternizar essas belas melodias do que publicá-las em disco. Lançado em 25 de novembro de 1995 no Japão, The Super Mario: Yoshi Island Original Sound Version é o CD que trazia todas as 26 canções compostas por Kōji Kondō em um único CD. Publicado pela NTT Publishing Co., Ltd. e distribuído pela Datum Polystar Co., Ltd., a peça é um item raro de colecionador, custando centenas de dólares no mercado japonês. 

Nas páginas da história

Antes da internet ser acessada pelos celulares e as informações chegarem em tempo real, como hoje, era nas revistas especializadas que os principais capítulos da história dos videogames eram escritos. Nessas publicações, principalmente durantes as décadas de 1990 e 2000, ficávamos informados sobre as novidades do mundo dos jogos. A influência dessas revistas, inclusive, poderia determinar se um título faria, ou não, sucesso entre a garotada nas locadoras.

Sendo assim, abrimos o nosso baú de tesouros e revisitamos nossas antigas revistas para ver como a mídia especializada recebeu Super Mario World 2: Yoshi’s Island na época do seu lançamento. 

Infelizmente, folheando as edições da época, podemos perceber que o mercado vivia um momento de transição entre gerações. O Super Nintendo e o Mega Drive estavam em seus últimos suspiros, enquanto que o PlayStation já demonstrava seu poder contra o Sega Saturn e todos aguardavam ansiosos por informações do Nintendo 64. Talvez por isso Yoshi’s Island não tenha conseguido o espaço que merecia — dividiu capa com Earthworm Jim na Super Game Power nº 20. Mas nem por isso deixou de brilhar nas páginas das nossas edições favoritas.
Destaques da revista Super Game Power #20.
Na edição 94 da Revista Ação Games, Super Mario World 2: Yoshi's Island era anunciado como grande celebração aos dez anos da primeira aventura de Mario no NES. Com o título de "Protegendo um bebê chorão”, a matéria trouxe uma breve análise, explicando os comandos, a história e o funcionamento dos itens, além de um pequeno detonado do primeiro mundo — estranhamente o detonado não continuaria nas edições seguintes. 

Destacando os gráficos e a jogabilidade, a publicação concluiu dizendo, "o game é enorme e exige muita curiosidade e atenção para a coleta completa de itens. O desafio vale a pena, pois as fases extras e de bônus são muito legais”. 

Se a Ação Games foi um pouco superficial, a Super Game Power, na edição 20, tratou do jogo com o carinho de uma babá. Com um texto simpático e divertido, a musa gamer da época, Marjorie Bros., tratou de detalhar as principais caraterísticas do jogo. Segundo a Marjorie, "Super Mario World 2 não é apenas um jogo, é uma verdadeira obra de arte". 

Com dicas valiosas em cada uma das belíssimas imagens, a musa explica as mecânicas do jogo e prepara o jogador para o que virá. Por fim, ela conclui: "com choro ou sem choro o game é obrigatório para os fãs de Mario e uma supernovidade para os simples mortais”, deixando a galera com um gostinho do que seria se aventurar pela ilha dos Yoshis.

A fofura tem que continuar 

Sucesso de crítica e vendas — foram mais de quatro milhões de cópias vendidas — o título daria origem a uma nova série, com foco no fiel amigo dinossauro, além de ganhar um remake. A fofura teve sequência com Yoshi’s Story (1988, N64) e seus visuais pré-renderizados. Em seguida vieram os spin-offs Yoshi Topsy-Turvy (2004, GBA) e Yoshi Touch & Go (2005, NDS). Por fim, as sequências diretas, Yoshi's Island DS (2006, NDS), Yoshi's New Island (2013, 3DS) e o belíssimo Yoshi's Woolly World (2015, Wii U).

Não restam dúvidas de que Miyamoto fez a escolha certa em transformar Yoshi em protagonista e usar da arte em vez da tecnologia para colorir um universo tão distinto. Que a vida continue florescendo magicamente na Ilha dos Yoshis.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Diego Migueis
Ítalo Chianca escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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