Jogamos

Análise: The Legend of Zelda- Tri Force Heroes e o puzzle da cooperação

A simples e divertida aventura cooperativa de Link.


Quando o primeiro The Legend of Zelda foi lançado em 1986, a sua não lineraridade foi o grande trunfo que conquistou milhares de fãs pelo mundo inteiro. Durante o período que Shigeru Miyamoto foi o principal designer e diretor da série, o que mais se notava era a evolução da exploração, com lugares mais vivos que despertavam a curiosidade e a vontade de explorar com mais facilidade. Em 1998, quando Ocarina of Time foi lançado, esse desbravamento do mundo se uniu aos famosos puzzles de forma genial e bem implementada. A série, pouco a pouco, começaria a ser conhecida por essas duas características. Os puzzles foram ganhando mais destaque, ao ponto de que podemos considerar Majora’s Mask integralmente um enorme quebra-cabeças. Cada vez mais essas mecânicas se tornariam parte da identidade de Zelda, com o sucessor de Miyamoto na direção da série, Eiji Aonuma, chegando a dizer que o mundo do jogo deveria ser um puzzle.


Lançado no final de 2013, A Link Between Worlds mudou um pouco a abordagem dessa não linearidade. Não existia mais sequência para fazer as dungeons; bastava saber qual arma alugar e como chegar ao lugar escolhido. O mundo, que começava a ser um puzzle, era eficaz em desafiar o jogador. Só que, ao mesmo tempo, uma questão começou a aparecer entre os que acompanhavam a série: a antiga abordagem, de procurar o próximo lugar a visitar, pesquisar e descobrir detalhes até liberar a próxima dungeon, já não era um puzzle? O quebra-cabeças que ia se juntando pouco a pouco com cada avanço da história já não em si um enigma a ser desvendado?

E agora, dois anos depois, somos apresentados a The Legend of Zelda: Tri Force Heroes. Um jogo com foco em multiplayer que remete muito a Four Swords Adventures, um Zelda com temática parecida lançado em 2004 para o GameCube (e, por sua vez, uma versão mais completa e ampla de Four Swords, lançado para o Game Boy Advance em 2003 junto do port de A Link to the Past). A pergunta que fica é: teria Tri Force Heroes algum esclarecimento sobre a direção que a série está tomando? A resposta, talvez, não seja agradável para todos.

Humor leve, visual lindo

Tri Force Heroes não se passa em Hyrule, mas sim em Hytopia, o continente da moda. A princesa do reino de Hytopia, Styla, é idolatrada por todos, menos Lady Maud, que vive nas Drablands. Maud enviaum presente para Styla que, quando aberto, prende a princesa num macacão preto que acaba com todo o estilo fashion dela. Sem a beleza de sua monarca para admirar, o reino entra em caos, quase como se o seu governante tivesse sumido. A única esperança é que a lenda dos Tri Force Heroes seja verdadeira. É nesse momento que Link entra na história, com as caracteristicas que se encaixam na tal lenda e recebendo a tarefa de explorar as Drablands.
O visual do jogo lembra demais The Wind Waker.
Embora seja uma história bem básica, sem grandes reviravoltas ou desenvolvimentos impressionantes (muito provavelmente pelo tom mais casual do jogo, se comparado a outros títulos da série), ela serve como boa ambientação, só não conseguindo passar um senso de urgência. Tanto a lenda onde Link se encaixa quanto o efeito do plano contra a princesa são coisas que, em um olhar superficial, não conseguem passar nada além de um certo tom cômico.

Tom cômico, alias, que está presente durante todo o jogo. Seja em Hytopia e suas lojas ou na interação entre os três Links durante o multiplayer, o jogo consegue te deixar com um sorriso bobo na cara por ser engraçado de uma formToon Link como o protagonista.
a não forçada. A razão para isso acontecer de forma tão simples e fluída pode ser explicada pelo visual do game, que traz de volta

Todos os personagens, inimigos e locações do jogo tem um charme gritante graças à arte. Embora eles pareçam bizarros a primeira vista, o jogo consegue nos transmitir uma sensação de vida e alegria imensuráveis ao colocá-los em movimento, de forma somente compáravel à sensação passada por The Wind Waker. Por mais que Tri Force Heroes não consiga transmitir o senso de heroísmo de todos os outros jogos da série (até mesmo Four Swords), o visual e a forma que o game parece encarar sua própria situação deixam claro que tudo é intencional, não um erro.

Divisão incomum

Em 2004, quando Four Swords Adventure foi lançado, ele introduziu um estilo diferente de progressão para a série: O mundo só contava com um hub, um ponto comum que conectava todas as áreas do jogo. Nele, era só escolher qual lugar ir. Feito isso, havia a opção de, dentro dele, escolher uma “fase” em especifico, cortando completamente o fator exploração que é sinônimo de Zelda.

Tri Force Heroes faz uso do mesmo mecanismo, mas ainda mais simplificado: Hytopia é o hub e nela você pode escolher qual área das Drablands visitar. Dentro de cada uma, encontram-se quatro fases, que por sua vez são divididas em quatro pedaços que duram de cinco a seis minutos no máximo. Enquanto em Four Swords Adventures cada pedaço ainda contava com um pouco de exploração para revelar segredos, aqui as áreas não têm nada. Tudo está jogado na sua cara; não é necessária nenhuma intervenção criativa do jogador para você saber onde se encontram as coisas.
Um desafio típico dentro de uma área.
É uma adaptação um tanto dificil de ser engolida para quem conhece a série. É como se removessem um dos principais e mais interessantes fatores da essência do que é um Zelda para deixar o jogo mais simples. Fica clara a intenção: TFH é para ser um jogo no qual pode-se jogar uma fase durante uns cinco minutos de folga, sem ter de se preocupar em desafios muito complexos nem nada; é só se divertir. Não existir segredo algum acaba sendo um incômodo, no entanto, já que Zelda sempre teve como aspecto marcante recompensar quem quisesse explorar. Aqui, esse tipo de jogador não vai encontrar nada que incentive seu estilo de jogar.

Triforce Heroes incentiva o retorno as fases, para pegar materiais necessários para confecção de novas roupas ou para completar os Drablands Challenges, mas isso trata-se simplesmente de um replay de fases que você já jogou.

Link finalmente lava sua roupa

Junto com o multiplayer, a característica  mais anunciada do jogo era a possibilidade de nosso herói usar várias roupas diferentes. A forma como os anúncios tratavam disso dava a entender que o foco do jogo seria essa mudança de roupas, assim como Ocarina of Time tem o instrumento musical do título como sua grande mecânica. Inesperadamente, no entanto, as roupas não são muito importantes.

Sempre que você muda a roupa de Link, uma pequena animação acontece.
Todo o sistema de finanças e recompensas do jogo é voltado para a confecção das roupas, com o jogador ganhando materiais que fazem parte dos itens necessários para as confeccionar e dinheiro para pagar o custo operacional, mas o impacto delas na gameplay em si é pequeno. A escolha estratégica de “qual roupa usar em tal fase” pode facilitar muito a vida do jogador, mas, caso ele queira passar a aventura inteira com seu Link usando seu traje clássico, não há nada que o impeça.

As roupas são muito mais facilitadores do que peças de progressão. Embora sejam bem legais de usar e cada uma tenha poderes diferentes e únicos, não existe real razão para usá-las além da consciência de que estão ali.

Singleplayer sofrivel, Multiplayer genial

Tri Force Heroes é um jogo focado em Multiplayer, e a forma que ele o executa é genial, beirando a perfeição. Tudo, desde o design das fases até a luta contra os chefes, é criado de forma que a cooperação seja o grande puzzle do jogo.

Junto da mecânica de Totem, onde um Link ergue outro, fazendo uma pequena torre, o jogo obriga o jogador a planejar cada passo, não aceitando que um deles vá loucamente matar inimigos sem analisar a situação. É estratégico, bem aplicado e, já que barra de vida sendo compartilhada entre todos, provoca um grande senso de responsabilidade para cada um.
Mecânica do Totem em ação.
Claro que, para isso funcionar, um bom sistema de comunicação se faz necessário. No multiplayer local isso não é um problema, mas no online a situação obviamente se torna mais complicada, principalmente considerando o histórico da Nintendo em não colocar chat de voz em seus jogos. Tri Force Heroes não foge á regra e não conta com esse componente, mas tem uma solução quase tão intuitiva quanto ele: os Stickers.

Presentes na tela de toque do 3DS, os Stickers são variadas ilustrações de Toon Link com vários significados que, quando tocados, são transmitidos a todos presentes na sala. Você está num topo do totem mas acha que deve ser jogado? Use o Sticker com a ilustração de um Link jogando o outro e os seus companheiros entenderão. É um jeito intuitivo de se comunicar que é um trunfo do jogo, eliminando a necessidade do chat de voz.

Os stickers servem para denotar emoções também.
Enquanto o multiplayer triunfa, porém, não se pode falar o mesmo do singleplayer. que, além de diminuir intensamente a dificuldade do jogo, também consegue deixá-lo arrastado. Com uma mecânica de mudança de Links que lembra muito os jogos Lego, o jogo se torna pouco intuitivo, perdendo boa parte da sua jogabilidade afiada. Uma pena.

A aventura bizarra de Link

Tri Force Heroes não pode ser levado em consideraçãocomo indicador do futuro da série Zelda. É um bom jogo, embora com defeitos aparentes, mas não implica uma mudança de direção da franquia ou que a simplificação é o seu futuro. Quando Four Swords saiu, não passava de um pequeno agrado aos fãs, sempre deixando claro que era mais um spin-off que qualquer outra coisa (embora esteja presente na linha do tempo oficial apresentada em Hyrule Historia), e Tri Force Heroes não deve ser encarado de outra forma.

O game é divertido e bem construído, mas carrega bastante peso por ser um The Legend of Zelda lançado no meio do turbilhão de hype que está presente na franquia pela espera por Zelda U. Ainda sim, colocando tudo no papel, Triforce Heroes é um ótimo jogo para 3DS e poderá facilmente aparecer em listas de “melhores jogos” da plataforma. Recomendado.

Prós

  • Multiplayer Incrível;
  • Visualmente perfeito;
  • Humor leve e de boa condução;
  • Jogabilidade afiada e confortável;
  • Stickers são intuitivos.

Contras

  • Roupas são mais facilitadores que caracteristicas marcantes do jogo;
  • Nenhuma exploração;
  • Singleplayer transforma o jogo em fácil e arrastado.

The Legend Of Zelda:Tri Force Heroes- 3DS- Nota: 7.5/10


Essa matéria foi possível graças a Big Boy Games, que gentilmente nos cedeu uma cópia de The Legend of Zelda Triforce Heroes. Para adquiri-lo, visite a página do jogo na loja!



Revisão: Bruno Alves
Capa: Felipe Fabricio
Dácio Augusto é estudante de Gestão Financeira na Fatec e redator no Nintendo Blast. Cercado de jogos desde pequeno, foi crescendo e aprendendo a fazer avaliações mais lúdicas do que objetivas.

Comentários

Fórum
Google+
Facebook


Últimas do Fórum

Ver mais

No Facebook

Ver mais