Pokémon Blast

Pokémon têm em Pulseman (Mega Drive) eletrizantes referências

É um Rotom? Não, é um Ledian. Não, é um NetNavi. Nada disso, é o Pulseman.


Quando a Game Freak era tão conhecida nos games quanto Van Gogh foi em vida, Satoshi Tajiri, o cara que idealizou a série, estava com problemas financeiros e voltou a ser sustentado pelos pais. Convenhamos, isso é bem deprimente. Alguns funcionários da empresa tiveram que ser realocados para outros projetos para conseguir tirá-la do vermelho. Outros simplesmente se demitiram.

Sem grana pro busão

Os primeiros personagens da Game Freak.

Graças a isso, o desenvolvimento daquilo que seria conhecido como Pokémon foi adiado por seis longos anos. O problema é que a Nintendo não quis aceitar esses outros projetos de jogos. O jeito foi correr por debaixo do fogo-cruzado da Guerra dos Consoles e apelar para que a Sega os lançasse para o Mega Drive. Funcionou, e, com isso, a empresa conseguiu dar andamento ao projeto dos monstros de bolso com os trocados que arrecadou com Magical Taruruto-Kun (1992) e Pulseman (1994); esse último é o tema da nossa coluna de hoje.

Sem fundos para uma localização de Pulseman, a Game Freak nunca lançou o jogo fisicamente no ocidente. Entretanto, uma versão digital saiu para o Sega Channel, o inovador serviço de assinaturas de jogos via TV, durante os anos 90. O Virtual Console do Wii também o receberia, mas só em 2009. Na trama, um cientista cria uma inteligência artificial feminina e a prende dentro de um computador junto com a sua própria consciência, porque acabou se apaixonando por ela. A sua......união gera o Pulseman no computador SS. Ann (lembram do navio SS. Anne da primeira geração de Pokémon?), que é metade humano e metade inteligência artificial.


Se as crianças de MegaMan NT Warrior (GBA) entravam em monitores para combater o crime, Pulseman já fazia isso faz tempo. Uma organização criminosa, a Team Galaxy, está de olho nessas inteligências e quer usá-las para dominar o mundo. Qualquer relação com a Equipe Galáctica da quarta geração não é mera coincidência. Aliás, Mars, uma das comandantes dessa Equipe, tem o visual bem parecido com o de Beatrice, a namorada de Pulseman. E um outro comandante, Charon, tem o mesmo penteado do vilão Doctor Waruyama.
Doc Waruyama fazendo uns bicos de jack in the box.

Referências para Capitão América nenhum por defeito

Ignorando a bizarrice da história de amor entre um homem e um software — que é totalmente possível (ao menos para a ficção) e já foi até tema do filme Her (2013) — já de cara podemos notar em Pulseman duas mecânicas da série Pokémon: armazenamento nos Storage System, aqueles PCs que ficam nos Centros Pokémon e breed, ou você acha que o Pulseman foi trazido pela cegonha (ou pela Swanna)? Além disso, a motivação criminosa de sempre nos roteiros de roubar alguma criatura ou várias delas e dominar o mundo com os seus poderes está presente em ambos.
Pulseman é cativante e tal, mas o Theodore de Her ainda prefere a Samantha.
Os Pokémon Remoraid, Xatu e Registeel também devem seus early designs ao jogo. As referências não param por aí, pois o próprio Pulseman parece com um early design do Ledian, a joaninha da segunda geração, e ainda mais com o do Bisharp, da quinta.Já o relâmpago no seu capacete lembra muito o Rotom, o Pokémon de plasma que habita o televisor (de plasma também) do Old Chateau em Diamond, Pearl e Platinum (DS) — até sua forma de se movimentar é parecida. Tem mais, o seu ataque em diagonal que serve para locomoção e dano chamado Voltecker, tem a aparência quase idêntica à do Volt Tackle. Esse movimento o Pichu aprendia sob circunstâncias especiais em Emerald (GBA), e tinha a forma de uma esfera de energia elétrica também. E, para terminar, ele aparece como um golpe do Pikachu em Super Smash Bros. Brawl (Wii) e no anime. E é claro que o ataque mais famoso do roedor não poderia ficar de fora: o Choque do Trovão é outra carta na manga do androide.

Separados no Day Care.

É tipo um Sonic com Mega Man, certo?

Não é bem isso. Apesar de ser possível correr bem rápido (e esbarrar nos obstáculos) graças ao hardware potente do Mega Drive para a época, nem todas as fases favoreciam isso, era preciso explorar cada canto do cenário em busca de itens de carga infinita e vidas extras. Além disso, as comparações com Mega Man são infundadas porque Pulseman precisa pegar impulso primeiro para aumentar o alcance dos seus projéteis.

É o estilo da Game Freak que está ali no desenvolvimento dos personagens e na inovação do stage design, com uma “macarronada” de fios condutores soltos pelas fases que funcionam como pequenas montanhas-russas. Transformando-se em esfera elétrica, você alcança lugares mais distantes, na vertical ou na horizontal, e ainda pode derrotar inimigos no caminho.

A única mancada desse jogo de plataforma é o fato dele ser assimétrico. Diferente dos jogos da série Sonic, em que o protagonista que fica exatamente no meio da tela durante o side scrolling enquanto corre, o sprite do inquieto Pulseman fica entre 5% e 10% para trás — isso causa estranheza no começo e faz com que você esbarre em alguns inimigos à toa até se acostumar. Para completar, o sprite do Pulseman fica levemente pendendo para a frente e o seu relâmpago sugere isso, aumentando a sensação de deslocamento do personagem. De resto, a paleta de cores é bem variada e as fases são bem vibrantes, algumas delas muito psicodélicas, a exemplo da fase 2, que se passa na Índia, e dão a entender que o Satoshi Tajiri teve contato com alucinógenos.

Doce chiado de estática

Mas nem só de character e stage design vive a Game Freak. A música é grudenta, estonteante e fica muito bem com o groove do Mega Drive. Fãs atentos vão ficar felizes em saber que muitos temas de Pokémon têm alguma base ou sample de Pulseman. Lavender Town e Viridian Forest são apenas alguns alguns deles e têm uma influência mais sutil. Já temas como Shutdown 1, de Pulseman, e o tema da batalha contra Mesprit, Azelf e Uxie, em DPP, poderiam ser considerados simples remixes de tão parecidos. Compare abaixo outros com a mesma semelhança:



"Siga seus sonhos".
Enfim, é sempre bom deixar a missão de completar a Pokédex de lado e partir em busca de easter eggs. Mesmo depois de vinte anos, a Game Freak ainda busca inspiração para os novos títulos nos seus primeiros trabalhos, sempre muito particulares e carismáticos, e isso é bastante reconfortante para fãs curiosos. Espero que tenham gostado da coluna e que tenham uma boa semana.


Revisão: Robson Júnior
Capa: Nívia Costa
Agradecimentos: Alisson Alberti Tres

Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no Nintendo Blast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

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