#Zelda30th: A música em The Legend of Zelda

Uma franquia com 30 anos de existência não pode durar tanto sem uma trilha competente. Desvende a música de The Legend of Zelda.


The Legend of Zelda é uma franquia multifacetada. Ao longo de suas três décadas de existência, Hyrule nos convidou a explorar suas claustrofóbicas masmorras e cavalgar sobre seus campos verdejantes. Rimos com as peripécias de Tingle e lamentamos a dissolução de Koholint Island ao final de Link’s Awakening (GB).


É por esse aspecto da diversidade que a música da série apresenta não apenas um caráter de pluralidade estilística, mas também se insere como elemento fundamental a seu gameplay. Este artigo busca arranhar a superfície do vasto universo sonoro de The Legend of Zelda.

A trilha musical de The Legend of Zelda

Em uma famosa entrevista ao Kotaku, Shigeru Miyamoto afirmou que a principal inspiração para conceber The Legend of Zelda veio de suas aventuras de infância. Como típico menino travesso, Miyamoto explorava as redondezas de seu lar em Kyoto frequentemente e, assim, desbravava colinas, propriedades rurais e cavernas adjacentes. O diretor traduziu isso no game com a variedade de áreas disponibilizadas, assim como as aliou a um contexto ocidental, imbuído de referências à mitologia europeia e ao medievalismo — o escudo de Link até tem uma cruz desenhada no primeiro game.

Embora a trilha musical do título tenha curta duração (seu conjunto de músicas soma em torno de dez minutos) a composição de Koji Kondo reflete os elementos do jogo de Miyamoto com precisão para um jogo de 1986. Pensemos, por exemplo, no tema do mapa geral. Kondo opta pelo ritmo da marcha para convidar o jogador à aventura, sendo que a própria presença constante do combate é enaltecida pelo caráter militar da peça. O contraste é claro com o tema das masmorras, amplamente composto por um padrão de arpejos que se alia a uma melodia sorrateiramente inserida na região grave.


Assim como no conceito de Miyamoto, a referência musical de Kondo é marcada pelo ocidentalismo, o que serviu de estratégia até mesmo para estabelecer relações mais firmes com os jogadores da parte oeste do mundo. O plano original do compositor para o tema do game, inclusive, era arranjar a melodia do Bolero (1928) de Maurice Ravel para o chip sonoro do Famicom.

Essa ideia de variedade musical cresceria em proporção com o tamanho dos títulos subsequentes da série. Em Ocarina of Time (N64), por exemplo, podemos visitar o árido deserto que abriga o Spirit Temple, como também podemos mergulhar nas águas do Lake Hylia. Se o flamenco andaluz de Gerudo Valley nos remete a um determinado lugar e sua cultura, o mesmo ocorre de forma discrepante com o tema de Death Mountain ou de Zora’s Domain, por exemplo. 

A trilha musical do último game de Zelda lançado nos consoles, Skyward Sword (Wii), perdura por seis horas. Pense na diversidade sonora que o jogo oferece — multiplicidade que já deu justificativas para Koji Kondo afirmar que The Legend of Zelda é sua série favorita para trabalhar.

Não é somente pela variedade de músicas que a composição de Zelda é reverenciada. Seus compositores souberam assimilar as limitações e novidades de suas respectivas épocas para entregar boas miscelâneas de peças musicais. Zelda II (NES), eternamente lembrado como “o Zelda de progressão lateral”, conta com uma das trilhas musicais mais complexas do NES, fruto do trabalho de Akito Nakatsuka. No Palace Theme, atente para a longa duração da música — dividida em três partes — e o contraste entre a simultaneidade de ondas sonoras versus o uso de sintetizadores solo.


Com o advento das técnicas de trilha musical para cinema nos games, promovido por jogos como Chrono Trigger e Super Mario World (SNES), a possibilidade de se estabelecer relações audiovisuais mais firmes se abriu em The Legend of Zelda. Em Ocarina of Time, por exemplo, Koji Kondo utiliza a técnica do leitmotiv, famoso artifício utilizado por Richard Wagner (1813 - 1883) que consiste em associar uma melodia a algum elemento do drama (personagens, lugares, ideias, etc.). No clássico do Nintendo 64, o tema de Song of Time sempre surge quando se remete à ideia de tempo. Zelda’s Lullaby nos lembra da Princesa Zelda e da família real de Hyrule.

Essa ideia musical se desenvolveria subsequentemente em outros jogos da franquia. Em Skyward Sword, Ghirahim canta seu próprio tema durante sua dança ritual. Nesse caso, a música que outrora permanecia no campo não diegético, ou seja, fora do universo da narrativa, passa a integrar o mundo de Zelda por meio da voz do vilão. 

Além disso, com a série se estendendo a cada jogo, temas musicais se tornaram frequentes nela. A Link to the Past (SNES) inspirou uma vertente de Zelda composta por Four Swords (GBA), Four Swords Adventures (GC) e A Link Between Worlds (3DS). Muitas das melodias do Super Nintendo são ouvidas nesses games em diferentes arranjos.

Música e gameplay


A música em The Legend of Zelda não é lembrada tão somente por sua função de acompanhamento às jornadas de Link, como também é elemento fundamental delas. Em Link’s Awakening, a trama do jogo gira em torno da busca por oito instrumentos musicais que devem ser tocados para acordar o Wind Fish.

É no Nintendo 64, no entanto, que a execução musical ganha força como mecânica do jogo. As músicas de Ocarina of Time cumpriam diferentes papéis: de transportar Link para as imediações dos templos a trocar o dia pela noite com a Sun’s Song. Sem esse recurso, as dungeons do game tornam-se intransponíveis. Se o Water Temple já era trabalhoso, imagine então não poder mudar o nível da água ao tocar Zelda’s Lullaby.




Majora’s Mask (N64) aproveitou a ideia de Ocarina of Time e empregou a mecânica de forma semelhante. No entanto, ao pensarmos que o jogo se passa em uma dimensão paralela, as peças do título antecedente cumprem tarefas diferentes em Majora. Se Song of Time transportava blocos de pedra em Ocarina, aqui ela altera o curso do tempo a favor de Link.

O conceito da música enquanto mecânica de jogo não mudaria muito em outros games de Zelda, mas a função das peças se transmutou a cada título. Em The Wind Waker (GC), utilizar-se da batuta sagrada ofertada pelo King of Red Lions era obrigatório para alterar o curso do vento e se locomover pelo mar. Twilight Princess (GC/Wii) transformou o aprendizado das canções em puzzles em que o jogador devia escutar a melodia e aprendê-la de ouvido para acessar novas técnicas de espada.

Tanto como acompanhamento quanto como elemento ativo nos games, a música em The Legend of Zelda foi fundamental para que a franquia atingisse o status que alcançou. Se a renovação é perceptível ao longo dos 30 anos da série, é, em parte, por meio do universo musical que sentimos esse frescor a cada título lançado. E que venham mais 30 anos de som nas aventuras de Link!

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Esdras Ferreira
Luiz Roveran é mestrando em música dramática na Unicamp. É redator no Nintendo Blast e no Pulo Duplo. Além dos pitacos sobre games, é frequentemente encontrado tendo delírios sobre cinema, literatura, futebol e música no Facebook e no Twitter.

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