Os 25 anos de Top Gear

Relembre o clássico jogo de corrida da era 16-bits e sua importância, sobretudo para os jogadores brasileiros.


Para quem frequentava as locadoras nos anos 90 ou se reunia na casa dos amigos nos tempos de Super Nintendo, certamente um dos títulos mais conhecidos era Top Gear. Nem parece, mas o clássico de corrida completa 25 anos em 2017, sem perder sua influência e o charme característicos da era 16-bits. Chamar a galera para “jogar de dois” no final de semana e ver aquele colega (ou você mesmo) escolher o carrinho branco para economizar combustível; ligar o videogame só para ouvir a música de abertura inconfundível; ou quando alguém perguntava que jogo era Top Gear e a resposta era unânime “É aquele que tem os quatro carrinhos e faz pit stop”. Pronto. Todo mundo já sabia do que se tratava, ainda mais numa época em que o termo pit stop era bem conhecido por quem assistia às disputas de Fórmula 1 aos domingos pela TV. Não importa se você o jogou lá atrás ou apenas anos depois. Para homenagear a série, pegue o controle, aperte o cinto e acelere fundo nessa viagem.


Carinho especial dos brasileiros


Top Gear foi lançado no Japão em 27 de março de 1992, com o nome Top Racer. Desenvolvido pela Gremlin Graphics e publicado pela Kemco, a produção era planejada para o Nintendinho 8-bits, mas, a pedido da própria Nintendo, tornou-se um dos primeiros títulos de corrida do novo console 16-bits da empresa. Na época, vários jogos de corrida figuravam entre os mais populares mundo afora, como o clássico dos fliperamas Outrun, da Sega, Road Rash, para Megadrive, e até mesmo F-Zero no Super Nintendo.



Apesar da semelhança com o jogo Rad Racer, de NES, o desenvolvimento de Top Gear tomou como base um título nem tão conhecido pelos brasileiros: Lotus Esprit Turbo Challenge, lançado para Amiga PC. A estrutura e jogabilidade eram praticamente iguais às utilizadas por Top Gear, uma vez que Lotus havia sido desenvolvido pela Magnetic Fields, subsidiária da Gremlin Graphics. Até mesmo algumas faixas da trilha sonora foram rearranjadas e colocadas no jogo de Super Nintendo.

Notou alguma semelhança? Esse era Lotus Esprit Turbo Challenge, lançado dois anos antes de Top Gear, para Amiga PC

Embora seja um irmão mais novo do título anterior, foi com Top Gear que muitos brasileiros experimentaram pela primeira vez esse tipo de mecânica em jogos de corrida: além do sistema de parada para recarregar o combustível, gasto de maneira diferente de acordo com o carro escolhido, os veículos esportivos disputavam campeonatos em oito países, e duas das 32 pistas do jogo traziam cenários de fundo baseados no Rio de Janeiro e na Floresta Amazônica. O sucesso foi tanto que o título rapidamente se tornou um dos mais conhecidos da era Super Nintendo no país e era escolha certa para jogar com os amigos em casa ou nas locadoras. Inclusive, o modo para um jogador ainda deixava a tela dividida, apresentando um carro controlado pelo computador como sendo seu parceiro ou rival.

A popularidade de Top Gear no Brasil fica mais clara ao analisarmos o livro “1001 videogames para se jogar antes de morrer”, do autor Peter Molyneux (2010). A obra não menciona sequer um título da franquia, mostrando que, fora do país, Top Gear não alcançou nem metade do sucesso que conseguiu por aqui. A própria organização do Video Games Live, que viaja o mundo todo para apresentações orquestradas de trilhas sonoras de jogos de grande sucesso, espantou-se ao chegar ao Brasil e ouvir inúmeros pedidos de fãs para que a trilha de abertura de Top Gear fizesse parte do repertório.

Quem não se lembra das pistas noturnas? Ou do colega que sempre escolhia o carrinho branco?


Novidades para a época


O realismo trazido por Top Gear agradou. Além de gerenciar o combustível do carro, também era preciso planejar a hora certa de usar o sistema de nitro, novidade que permitia alcançar altas velocidades muito bem trabalhadas no processador do Super Nintendo. Até então, boa parte dos jogos de corrida simulava esportes como a Fórmula 1, e, nesse sentido, a experiência mais “descolada” de Top Gear foi fator fundamental para popularizar a jogabilidade. Não era difícil se deparar com expressões como “are you blind?” (você está cego?) ou “let’s go” (vamos lá) ao usar o nitro ou bater na traseira do adversário.

Outro ponto marcante eram os tipos de carro, que deixavam de ser modelos únicos como os trazidos em Lotus, dessa vez se baseando em veículos reais. O carro vermelho, “Cannibal”, foi inspirado na Ferrari 512 TR; o branco, ou “Sidewinder”, era baseado na Ferrari 288 GTO, enquanto os veículos verde (Weasel) e roxo (Razor), traziam os conceitos visuais do Porsche 959 e Jaguar XJR-15, respectivamente. Contudo, os veículos não eram idênticos devido a questões de direitos das marcas, e suas modelagens utilizaram também o design de outros carros, como o Honda NSX. Mais uma referência que agrada os brasileiros é o fato de que o carro que aparece na capa do jogo, o mesmo Honda NSX, teve no desenvolvimento de sua versão real ninguém menos que o piloto Ayrton Senna entre os integrantes da equipe de design da montadora japonesa. Infelizmente, o detalhismo dos veículos deixou de ser característica da série a partir do segundo título, quando os modelos genéricos voltaram a ser utilizados.

Aí estão os carros que inspiraram os modelos utilizados em Top Gear

Top Gear oferecia uma jogabilidade na qual se podia escolher entre os modos automático e manual para a troca de marchas, além de quatro opções de controle, uma delas inclusive para jogadores canhotos. Cada circuito tinha ao fundo elementos visuais característicos dos países por onde se passava, como a Torre Eiffel na França e o morro do Pão de Açúcar no cenário do Rio de Janeiro. Os campeonatos compreendiam quatro pistas por país ou região, aumentando a linha de dificuldade de forma progressiva. Para avançar, era preciso ficar entre os três primeiros no ranking, o que gerava uma password para recomeçar a jogatina dali em diante caso resolvesse desligar o videogame.

Trilha sonora inesquecível


O nome de Barry Leitch pode soar desconhecido para muitos, mas é só ouvir a trilha sonora de Top Gear e perceber a importância que o compositor teve na série. Quando foi contratado para trabalhar no jogo, Leitch tinha prazo de apenas uma semana para entregar as músicas. A dificuldade em entender o hardware do Super Nintendo o fez concluir apenas uma faixa, Mad Racer (tema da pista de Las Vegas). Para agilizar o serviço, ele rearranjou as faixas de Lotus Esprit Turbo Challenge, título no qual também havia sido escalado para compor a trilha sonora alguns anos antes.

Se Top Gear fez algumas músicas grudarem na sua cabeça, agradeça a esse cara: Barry Leitch concluiu a trilha do jogo original em apenas uma semana

As músicas receberam o tratamento disponível pelos oito canais de áudio do Super Nintendo, melhorando a qualidade das composições e permitindo novos efeitos. O resultado é o que conhecemos hoje como uma das mais memoráveis trilhas sonoras dos videogames, tanto que a banda de rock britânica Muse se inspirou na faixa de abertura de Top Gear para compor a canção Bliss. As referências brasileiras também dão as caras em ritmo de forró com a música Top Gear, do grupo Forró Estourado, e ainda no funk com MC Buru na música “Olha como é que nós tá”. Aliás, diversos vídeos são encontrados pela internet com homenagens de fãs, principalmente brasileiros, em arranjos instrumentais das músicas do jogo.

Os trabalhos de Leitch compreenderam apenas o primeiro título da série no Super Nintendo. Ele voltaria anos mais tarde para compor a trilha de Top Gear Rally, já no Nintendo 64, porém sem o mesmo impacto causado pelo jogo original. Uma oportunidade de peso surgiu quando o compositor recebeu convite do estúdio brasileiro Aquiris para participar da produção de Horizon Chase, título que carrega a alcunha de sucessor espiritual de Top Gear, lançado para celulares, e que alcançou grande sucesso.

Foto misteriosa? Ritchie? Bater na linha de chegada?


A história de Top Gear não escapa de mistérios envolvendo sua produção e repercussão. Um dos questionamentos mais emblemáticos talvez seja a origem da foto que fica no plano de fundo do menu inicial do jogo. Já ouviu falar do Circuito de Rua de Detroit, nos Estados Unidos? Pois bem, esse deve ser o local da fotografia. Apesar de não haver confirmação oficial, vários jogadores que usaram o programa Google Earth apontam o local como sendo entre a Washington Boulevard e a Avenida Jefferson, na cidade norte-americana. O circuito mencionado, conhecido por fazer parte da Fórmula 1 na década de 80, tinha exatamente as curvas 11 e 12 nesse endereço.

A imagem de fundo, um mistério que atravessou décadas, trata-se das curvas do circuito de rua de Detroit, a capital automobilística dos EUA

O ângulo no qual a foto foi tirada provavelmente era de um dos andares superiores do Cobo Center, um shopping que também serve como sede para convenções. Coincidência ou não, vários desses eventos são automobilísticos, já que Detroit é conhecida por ser a “Motor City” americana, com diversas indústrias do ramo instaladas na cidade.

A equipe de desenvolvedores e programadores de Top Gear também aparece no jogo. Eles são os demais competidores em cada campeonato disputado. Um deles, Ritchie, que sempre se destacava nas primeiras posições, trata-se de Ritchie Brannan, o líder de desenvolvimento dos três primeiros títulos da série. Hoje ele faz parte da Codemasters, empresa que contribuiu na criação de vários jogos de corrida, entre eles Grid Autosport (PS3, X360 e PC).

Não adianta bancar o machão e seguir direto em algumas pistas: a hora do pit stop chega pra todo mundo

O nome do jogo também gerou ação judicial envolvendo a emissora de TV britânica BBC, que transmitia, desde 1977, um programa automobilístico chamado Top Gear, no ar até hoje. Reivindicando direitos de patente, o canal conseguiu impedir que qualquer menção ao termo Top Gear fosse utilizada sem sua autorização. Apesar da polêmica, a BBC nunca proibiu a Kemco de utilizar o nome em seus jogos.

Os jogadores mais espertinhos ainda podiam se beneficiar de um bug no código de Top Gear e conseguir mais pontos em cada corrida. Para isso, era necessário bater em alta velocidade na estrutura que marca a linha de chegada. O “macete” permitia que você computasse os pontos da sua posição mais os da posição seguinte, por exemplo: ao passar em primeiro lugar e bater o carro na estrutura, o jogo também somava a pontuação do segundo lugar, e assim sucessivamente.

O caminho da franquia


Mesmo sendo lembrado por muitos, Top Gear não foi um jogo que obteve vendas significativas no mercado: apenas 257 mil cópias nos Estados Unidos. Um ano após seu lançamento, em 1993, a Kemco lançou Top Gear 2 para Super Nintendo e Megadrive, com mais pistas e opções de customização, além de melhorar a jogabilidade. Em 1995, novamente como exclusivo de Super Nintendo, chegou às lojas Top Gear 3000, com temática futurista e o último a ser desenvolvido pela Gremlin Graphics. O título foi o único do console a utilizar o chip DSP4, que permitia múltiplos caminhos em algumas pistas.

Top Gear 2 melhorou várias mecânicas, adicionou mais pistas e inaugurou o sistema de aprimoramento do carro. Muitos o consideram até mesmo melhor que o primeiro

Na mudança de geração, o Nintendo 64 recebeu Top Gear Rally, Top Gear Rally 2, Top Gear Overdrive e Top Gear Hyper Bike, com alguns deles tendo versões para Game Boy Color. Anos depois, o Game Boy Advance teve o lançamento de Top Gear GT Championship, considerado um fiasco para a série. Já o PlayStation 2 possui em sua lista de jogos dois representantes da franquia: Top Gear Dare Devil e Top Gear RPM Tuning.

Entre os jogos da geração N64, estava Top Gear Overdrive, com corridas super rápidas e essa capa inesquecível

Nenhum desses jogos, no entanto, conseguiu alcançar o sucesso do título original, embora muitos considerem Top Gear 2 tão bom quanto o primeiro. O fato é que a série conseguiu deixar sua marca na história dos videogames, sobretudo entre os jogadores brasileiros, que, mesmo após 25 anos, ainda guardam boas recordações de quando não se precisava de muito para curtir um bom jogo de corrida.

E você? Tem alguma lembrança inesquecível envolvendo Top Gear? Não deixe de compartilhar com a gente e prestar sua homenagem a um dos jogos de corrida mais divertidos do Super Nintendo.


Revisão: Luigi Santana
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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