#Kirby25th: Kirby Super Star (SNES) e o poder de criar amizades

Alegrias, frustrações e uma das melhores experiências para jogar Super Nintendo ao lado dos amigos no quarto jogo da franquia.


Sexta-feira: para muitos, o dia de se despedir da rotina, deixar o trabalho mais contente para aproveitar o fim de semana, curtir a folga com a família, sair com a galera ou entrar naquelas maratonas de séries e jogos. Agora, viaje no tempo, transforme esse contexto de alegria na realidade de um garoto dos anos 90 que tinha um Super Nintendo em casa e tente adivinhar o que esse dia significava. Sim, meus amigos, era dia de passar na locadora e alugar aquele jogo especial que nos faria perder, ou ganhar, o sábado e o domingo na frente da TV.


Quem vivenciou essa época, com certeza tem ótimas recordações, principalmente as promoções de alugar dois jogos e devolver apenas na segunda-feira. Só de entrar no estabelecimento e vislumbrar as opções disponíveis era de deixar os olhos brilhando. A cada semana pegava um título diferente, geralmente um que desse para “jogar de dois”. Entre eles, havia um em especial que era escolha certa caso estivesse ali: Kirby Super Star. A aventura da bolota rosa no Super Nintendo foi meu primeiro contato com a série e responsável por criar lembranças incríveis dos tempos de infância. Nada mais prazeroso que comemorar os 25 anos do herói comilão compartilhando minha experiência com esse título, o quarto da franquia, lançado em 21 de março de 1996 no Japão com o nome Hoshi no Kaabii: Super Deluxe.

Chegar na locadora e ver Kirby Super Star na prateleira era escolha certa para o fim de semana

Kirby e seu amigo “Elper”

Conseguir alugar Kirby Super Star era uma ostentação na época. Só havia um cartucho na locadora e, por se tratar de cidade pequena, todos sabiam quem tinha levado o jogo para casa. O final de semana era uma verdadeira reunião de amigos, colegas ou conhecidos, que vinham em casa para jogar ou até mesmo só para observar a jogatina. Porém o desafio começava antes do jogo. O cartucho de Kirby requeria um esforço tremendo para funcionar no Super Nintendo e nem mesmo as “técnicas” populares surtiam efeito. Assoprar a fita era inútil, encaixá-la um pouco na diagonal também não funcionava, assim como ligar o videogame e logo em seguida empurrar o botão de “reset” (meu console era o primeiro modelo). Por fim, na última tentativa, quase sem esperanças, surgia na tela preta o logo da HAL Laboratory, produtora do jogo e responsável pelo sorriso da galera. A recomendação era unânime: deixar o videogame ligado até segunda-feira para evitar o sofrimento novamente.


Éramos tão acostumados a esses empecilhos que não nos importávamos com a situação. Pelo contrário: enquanto o jogo não pegava, decidíamos quem jogaria com Kirby, quem seria o Helper (ajudante) no segundo controle e quais os poderes que cada um queria ter. Com nove anos de idade, não tínhamos muita noção de inglês e o tal ajudante tinha nome próprio: era o “Elper”, amigão de Kirby e muito mais popular no nosso círculo de amigos. A maioria queria jogar com ele e sobrava para mim, dono do videogame e detentor do “controle um”, ser o protagonista. A mais descolada era, sem dúvidas, a forma T.A.C. do ajudante, um personagem ninja com um saco verde nas costas e que podia “roubar” os poderes dos inimigos e se transformar, exatamente como Kirby faz. Com as mesmas habilidades entre os dois, para eles era muito mais legal ser o ninja. Já eu gostava mais de controlar a bolota com o poder do ioiô e aquele boné azul virado para trás. Radical!

Parceria do começo ao fim: jogar Kirby Super Star "de dois" era bem mais legal

Trabalho em equipe

As fases de Kirby Super Star — divididas em seis pequenos jogos, cada um com sua mecânica própria, além de dois minigames — tinham uma diversidade e ambientação contrastantes, desde as planícies de Dream Land até os cenários industriais de Revenge of Meta Knight e a viagem pelo espaço em Milky Way Wishes. Passar por todas elas era regra rumo aos 100% do jogo. O problema era que poucos amigos estavam dispostos a essa jogatina desenfreada. Muitos iam embora de casa logo após passar os dois primeiros mundos e derrotar o pássaro gigante (Dyna Blade), principalmente quando ouvíamos a voz da mãe de algum deles gritando na rua. Mas, para aqueles determinados a me ajudar a chegar até o fim, grandes momentos nos aguardavam: descobrir que Dyna Blade voltaria para nos ajudar na batalha épica contra Meta Knight em sua nave, a Halberd; fugir após a luta controlando a motocicleta, com um jogador no comando do veículo e o outro atirando estrelas com Kirby (era uma morte atrás da outra até acertarmos a sincronia); ou completar todos os tesouros em The Great Cave Offensive, coletando o casco de tartaruga de Super Mario World, o capacete do Capitão Falcon de F-Zero e ver que a Triforce de The Legend of Zelda era o último deles.

Dyna Blade sentindo na pele os poderes do fogo e do ioiô. Mais adiante, ela se tornava nossa aliada na história

Sem falar que muitos tesouros necessitavam de um verdadeiro trabalho em equipe para serem conquistados: ficar em cima de um botão enquanto o outro jogador corria pela porta aberta, apertava outro botão que levaria o parceiro a um lugar diferente, para depois percebermos que havia um pavio de canhão e ninguém tinha o poder do fogo para queimá-lo. Um dia, meu amigo estava com o poder do jatinho (Jet) e passou voando sem querer sobre esse pavio, fazendo-o pegar fogo e habilitar o canhão. Foi uma alegria só. Entre os chefes, um que não me esqueço é o Computer Virus, uma tela virtual que simulava as batalhas em turnos dos RPGs, e também aquela baleia (Fatty Whale) num cenário de lago subterrâneo que dava um trabalhão para ser derrotada.

Quem se lembra do Computer Virus? Uma das batalhas contra chefes mais criativas do jogo

A maior aventura, contudo, estava no capítulo espacial e na odisseia para encontrar todas as Copy Abilities (os poderes nos quais Kirby pode se transformar) em cada planeta. Eram nove fases e a certeza de um game over no planeta de fogo, na sessão em que era preciso voar entre o chão e o teto da fase sem tocá-los. E o que dizer da batalha final contra o bruxinho (Marx) e a fase de “navinha” para chegar até ela, bem no estilo Gradius (SNES)? Sensacional. Depois de todo esse esforço, comemorávamos tanto que esquecíamos que o mais difícil ainda estava por vir: o modo Arena, no qual enfrentávamos novamente todos os chefes do jogo. Um desafio digno de glória. Como o cartucho tinha esse problema para funcionar, deixávamos o Super Nintendo ligado à noite toda para continuar no dia seguinte. Caso não desse tempo de jogar tudo até a tarde de domingo, alugávamos o jogo outra vez no próximo final de semana, cada reserva feita por um amigo diferente para o dono da locadora não desconfiar. E aí o ciclo começava mais uma vez.

Aquela tensão da batalha final contra Marx e seus poderes apelões

Rachando estrelas e construindo amizades


Nos finais de semana quando conseguíamos terminar o modo história, ainda sobrava tempo para a diversão nos minigames de Kirby Super Star. Havia o Samurai Kirby, com disputas em que quem apertasse o botão mais rápido após o sinal desferia um ataque que derrubava o oponente, um verdadeiro duelo de velho oeste. Nos revezávamos ainda no Gourmet Race, que possuía três corridas nas quais era preciso coletar o maior número de frutas e doces, além de cruzar a linha chegada em primeiro lugar e deixar o King Dedede a ver navios.

É hora do duelo! Disputas épicas no minigame Samurai Kirby

Porém o mais disputado era o Megaton Punch, no qual quem conseguisse bater com mais força na estrutura de pedra vencia. Era o nosso coliseu de grandes embates virtuais. Com a jogada perfeita, acertando os alvos no tempo correto, o personagem desferia um golpe tão poderoso que causava a rachadura de todo o planeta em formato de estrela (Popstar), uma proeza e tanto. Ou, em caso contrário, quando o dano da pancada nem arranhava a estrela, o colega virava motivo de chacota. Certa vez, numa dessas brincadeiras, um deles puxou o controle e travou o jogo. Sem chances. Perdemos o fim de semana inteiro tentando fazer o cartucho funcionar de novo, em vão.

Era aqui que separávamos os meninos dos homens. Em Megaton Punch, vencia quem desse o soco mais forte

Entre alegrias e frustrações, nunca perdíamos a oportunidade de jogar Kirby Super Star. O fato de o personagem “criar” o ajudante a partir de seu próprio poder era como se eu tivesse a chance de oferecer a experiência a um amigo e compartilharmos juntos a aventura, criando memórias inesquecíveis. Posso dizer que Kirby Super Star não foi apenas um jogo que me proporcionou horas de diversão, mas também a fonte de grandes amizades iniciadas na infância e que perduram até hoje. Nos encontros e reuniões dos “amigos da rua”, por mais que cada um tenha seguido um rumo diferente na vida, sempre nos lembramos com carinho de cada momento, cada fase, cada game over, como se o tempo não tivesse passado e ainda estivéssemos na frente do Super Nintendo.

Revisão: Luigi Santana
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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