Analógico

O roteiro de Pokémon Sun/Moon (3DS) e suas questões subliminares

Relações familiares, personagens “cinzas” e autoconhecimento. Quais sãos as lições tiradas da nova aventura de Pokémon?

Por incrível que pareça, já faz quase meio ano que Pokémon Sun/Moon (3DS) foi lançado e, com ele, a aventura mais original da franquia dos monstrinhos de bolso em anos. Diversos fatores foram utilizados para reinventar, de certa forma, a nossa jornada nesse mundo: os ginásios viraram os Trials, os líderes se diluíram em Capitães e Kahunas e as insígnias se transformaram nos Z-Cristals.


Todas essas modificações alteraram bastante a jogabilidade da jornada, mas outra coisa também foi bastante modificada se comparada aos jogos anteriores: a narrativa e enredo do game. Se antes você era um solitário treinador que esbarrava de tempos em tempos com alguns personagens, agora você é praticamente acompanhado durante toda a história por alguns deles. Isso abre espaço para histórias mais aprofundadas e melhor explicadas que, mesmo com certos clichês, dão espaço para interpretações jamais possíveis antes na franquia.

Este texto contém SPOILERS sobre a trama principal de Pokémon Sun/Moon! Seria impossível discutir sua trama sem essas menções. Então, leia por sua conta e risco!

Mudança de ponto de vista

Para início de conversa, nós como protagonistas da história estamos em um lugar totalmente diferente nas gerações anteriores de Pokémon. Se antes nós éramos os novatos esperançosos que tentavam por todo o game superar o rival, agora estamos praticamente na posição deste rival, com alguém sempre tentando nos superar.

Esse alguém é Hau, o neto do Kahuna Hala, que nos é apresentado já no início da aventura e vira um companheiro de jornada. Aqui, mais do que em Red/Blue (GB) ou Ruby/Sapphire/Emerald (GBA), nosso rival quase não é lembrado como tal. Ele é um amigo que divide conosco toda a jornada, sempre um passo atrás, mas nunca de forma pejorativa.


Parte dessa imagem mais amigável do rival é possível por conta da própria posição do jogador na trama. Não somos mais convidados a superar o nosso companheiro, pois não estamos mais “atrás” dele na corrida. Agora, é ele que nos persegue constantemente e, por parte do personagem, não tem nenhuma agressividade ou pejoratividade nisso.

Essa mudança de ótica traz uma mensagem embutida a respeito da amizade acima da rivalidade. Isso se deu de uma forma muito mais efetiva do que em jogos anteriores da série, principalmente pela figura da inocência personificada em Hau que é o oposto do “bad boy” que a imagem de Blue, Silver, Barry e outros apresentava.

Lillie e o exemplo de autoconhecimento

Outra personagem muito cativante e bastante presente na história é Lillie. Inicialmente apresentada como assistente do brilhante Professor Kukui, o enredo por trás da jovem vai se complicando ao longo da aventura. Ao final, é revelado que ela é filha de Lusamine, a presidente da Aether Foundation e, consequentemente, é irmã de Gladion.

A personagem, ao contrário de seus familiares, inicialmente era bastante frágil e medrosa. Com muito medo da maioria dos Pokémon, Lillie era a assistente do Professor especialista em batalhas, mas odiava batalhas entre Pokémon. Essa discrepância da personagem era mostrada através de uma fragilidade constante dela, sempre muito tímida, enrolada, medrosa e confusa.



Com o desenrolar da trama, o rapto da garota e seu desejo quase incontrolável de proteger Nebby (o Cosmog que a acompanha por quase toda a história), Lillie começa, de pouco a pouco, a amadurecer. Isso é mostrado de uma forma muito interessante na história, pois, quando ocorre sua mudança de aparência (delimitando oficialmente que a personagem cresceu internamente) o jogador entende perfeitamente o motivo daquilo.

Lillie, ao desbravar Alola ao lado de Kukui, Hau e você, encontra diversas situações que a fazem rever diversos conceitos. Ela vê, aos poucos, que os Pokémon grandes não são os monstros selvagens que ela pensava. Vê que batalhas são necessárias de certo modo e que ela pode proteger os Pokémon do jeito dela, sem que para isso tenha que ferir seus princípios.



Dois momentos finais são interessantíssimo sobre a personagem. Primeiramente quando ela encontra Lusamine possuída no Ultra Space e fala para a mãe que filhos não são objetos de coleção e Pokémon não são instrumentos para serem usados como quiser. Naquele momento, quando Lillie finalmente enfrenta a mãe, vemos como a personagem se desenvolveu ao longo do jogo, ao ponto de conseguir verbalizar aquilo que a incomodava desde a primeira infância.

Em seguida, quando saímos do Ultra Space e Solgaleo/Lunala pede para continuar a jornada com Lillie. Esta, já amadurecida por suas vivências, assume que o Pokémon Lendário não ficaria feliz a acompanhando, pois ele queria batalhas e ação, e ela não poderia dar isso a ele. Essa mensagem é incrível! Mesmo que ela tenha amadurecido e revisto seus conceitos, algumas de suas ideias realmente são dela, como por exemplo, não gostar de batalhar.



Somente com Lillie, pegamos o gancho de mensagens como “não simplesmente repetir os passos de seus pais, mas sim andar com suas próprias pernas”, “não se dobrar a todas as exigências do mundo, mas também não julgá-lo a partir de suas escolhas pessoais” e, por fim, “não prender a você pessoas (e Pokémon) que ficariam melhores livres para viver do jeito delas”. E tudo isso só é possível caso a pessoa se conheça ao ponto de conseguir arcar com todas essas escolhas. Sem dúvida, ela é uma das personagens mais ricas em conteúdo de toda a série.

Professor Kukui e Presidente Lusamine

Dois enredos aparentemente separados servem também como comparativos para um tema bastante complexo que Pokémon Sun/Moon esbarra um pouco em sua trama: até que ponto os pais devem ou podem escolher entre seu trabalho e seus filhos? Até que ponto isso faz bem tanto para uns como para outros? E as histórias separadas dos pais de Lusamine e Gladion e os tios do(a) protagonista servem bastante para tirar lições disso.

Lusamine e seu marido falecido/desaparecido enriqueceram com suas pesquisas e fundaram a Aether juntos. Ambos eram obcecados pela pesquisa sobre Pokémon e outras dimensões e, nessa jornada juntos, acabaram por ter dois filhos. Entretanto, é demonstrado na trama que nenhum dos dois deu muita atenção às crianças, deixando todo o cuidado para a sua “governanta”, Wicke.


Com isso, Lillie acaba crescendo frágil e indefesa, enquanto Gladion cresce revoltado e agressivo. Ambos possuem sua história bem desenvolvida pela trama e saem muito bem de seus respectivos traumas de criação. Mas outra mensagem pode ser vista através dessa família, se comparada a outro interessante casal da série.

Quase na metade da aventura  descobrimos que Professor Kukui é casado com Professora Burnet, a qual também é pesquisadora, porém, não de batalhas como Kukui, mas sim o espaço entre o universo dos sonhos e a realidade. E aqui vemos finalmente uma relação saudável em um casal. Kukui ama seu trabalho tanto quanto Burnet ama o seu, mas isso não os impede de se amarem e de tratarem seus entes queridos com o devido carinho.



Todos os diálogos entre os dois personagens são muito interessantes e é muito difícil não gostar de ambos, pois esbanjam simpatia e sabedoria. Aqui, mesmo que eles não tenham filhos, a mensagem subliminar imposta é bastante interessante: é possível trabalhar e viver seus sonhos sem que estes destruam sua vida e te impeçam de ter pessoas próximas.

Se por um lado Lusamine enlouqueceu se tornando obcecada por suas pesquisas, por outro Burnet e Kukui administraram muito bem seus trabalhos, sem que esses retirem deles sua vida social e sua saúde mental e física.

Plumeria, Gladion e os personagens cinzas

Outro ponto interessante do enredo são os personagens cinzas que são mostrados durante a aventura. Essa delimitação diz de personagens que não podem ser caracterizados comente como “mocinhos” ou como “vilões”, pois eles não são exatamente nenhuma das duas coisas. Os personagens cinzas, como o nome sugere, estão em algum lugar entre o “preto” e o “branco”, uma zona transitória entre o bem e o mal, que pega aspectos das duas mas que não é nenhuma delas exatamente.

Por toda a série existem personagens que mudam de lado por conta de revelações e/ou tomadas de consciência. Além disso, outros personagens cinza já apareceram como AZ em Pokémon X/Y (3DS) e N em Black/White (DS) e Black2/White2 (DS). Mas em Sun/Moon eles estavam em maior quantidade e com participações mais variadas na trama.



Um deles é Gladion, que inicia a história sendo um anti-herói que quase substitui o papel do rival nos outros jogos. Entretanto não tentamos superá-lo ao longo da jornada, mas sim, impedi-lo, pois até então, ele é um dos membros mais fortes do Team Skull. Entretanto, ao conhecer a história do garoto descobrimos que ele estava infiltrado ali para descobrir os planos malignos de sua mãe.

Mesmo que ele acabe sendo um dos mocinhos, Gladion ainda possui seu jeito rebelde e fechado que caracteriza o personagem. Entretanto, tudo muito bem justificado tanto para o mal quanto para o bem. Em uma direção muito semelhante com a dele também temos Plumeria, a segunda no comando da equipe dos desordeiros de Alola.



A personagem jamais passou para o lado dos protagonistas, porém, em um momento próximo ao clímax da história, nós encontramos a personagem e ela nos trata de maneira bem diferente de antes. Preocupada com Guzma, seu companheiro e mentor, Plumeria nos entrega o Z-Cristal venenoso como forma de ajuda para que nós trouxéssemos ele de volta do Ultra Space.

Isso foi bem interessante uma vez que a personagem continuou sendo do Team Skull e continuou contrária aos ideais dos mocinhos. Mas, mesmo com ideias divergentes, ela encontrou neles a esperança de ver seu companheiro de volta e, assim, contribuiu da maneira que achou mais válida.



Falando em cinza, também temos Kahuna Nanu. Este não é exatamente um personagem maligno, muito pelo contrário, já que ele é o chefe dos oficiais de polícia de Alola. Seu aspecto cinza é muito referente à sua posição. Ele escolheu defender a lei acima de tudo, então não escolhe lados exatamente na disputa. Isso só ocorre quando o Team Skull estabelece a base em uma cidade inteira, fazendo com que o Kahuna se alie ao protagonista para dar fim ao problema.

Um novo mundo de aprendizados

Mesmo com tantas tramas e tantas mensagens óbvias ou não, Pokémon Sun/Moon ainda é Pokémon com tudo que tem direito. Vemos nos jogos uma evolução notável na forma de contar a nossa jornada, mas esta ainda diverte. E sobre a jornada, em momento algum o protagonista foi tão importante para o enredo como aqui.

Ver um sistema totalmente novo de desafios é muito interessante, mas mais interessante ainda é ver aos poucos a Liga Pokémon ser instalada em Alola com os esforços grandiosos do Professor Kukui. Pela primeira vez também entendemos claramente o motivo de cada membro da Elite Four estar ali, bem como o “campeão” de Alola.


A franquia Pokémon atravessou seus 20 anos com mais acertos que tropeços, isso é um fato, mas aqui, com a sétima geração, vemos uma conclusão de algo há muito inacabado. Vemos uma sensação de continuidade que antes não era tão clara. E, se Alola é ou não a última região desse mundo de aventuras, não é possível saber, mas sua importância para a nossa percepção dele é notável.

E vocês leitores? Viram mais alguma coisa interessante na história de Pokémon Sun/Moon? Tem mais alguma observação a fazer sobre a franquia? Não deixem de comentar!

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook