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Análise: Yo-kai Watch Wibble Wobble (iOS/Android) é ação e estratégia com muito bom humor

O jogo traduz com excelência o universo que consagrou a franquia no 3DS para mobile.




A comercialização de jogos eletrônicos para mobile não para de crescer e é inegável que hoje eles já compõem uma grande fatia desse mercado. No Brasil, de acordo com pesquisa recente feita pela agência de tecnologia interativa Sioux, a grande maioria dos jogadores brasileiros (77,9%) jogam no celular, sobretudo as mulheres (85%). Nada mais justo do que tentar atingir cada vez mais esse público.


As desenvolvedoras, em especial a Level-5, têm se mostrado adeptas do movimento de migrar franquias que são seu carro-forte nos consoles de mesa ou portáteis para celulares. Tanto que Layton’s Mistery Journey (iOS/Android), o mais novo título da série Layton, terá lançamento mundial este ano para smartphones antes mesmo de sair para Nintendo 3DS, com exceção do Japão que terá lançamento simultâneo.

Ainda no que se refere ao Brasil, país no qual a Nintendo não trabalha oficialmente desde 2015, o mercado mobile também serve como forma de democratizar a acessibilidade a franquias de jogos não mais acessíveis como é o caso de Yo-kai Watch. Uma franquia que chegou ao Brasil através do anime, transmitido atualmente pelo Disney XD, seguido da publicação do mangá pela Panini e distribuição da linha de brinquedos pela Hasbro. A vinda de seus jogos eletrônicos, no entanto, não seria possível sem sua entrada no mercado mobile tendo em vista a ausência da Big-N em terras tupiniquins. Assim, Yo-kai Watch Wibble Wobble (iOS/Android) entra em cena, quebrando essa barreira e trazendo os monstrinhos que tomaram conta do Japão em um jogo de puzzle altamente frenético repleto de carisma e estratégia.


Ligar e estourar!

Devido a alguma eventualidade misteriosa ou apenas por puro acaso, os Yokai se tornaram Wib Wobs, uma espécie de gosma rechonchuda que, ao serem ligadas, podem causar um grande estrago. Guiado por Whisper, o divertidíssimo Yokai mordomo, e no controle de seus Wib Wobs, o objetivo é simples: revelar os monstrinhos que estão causando problemas por toda Springdale através da lente de seu Yo-kai Watch, enfrentando-os à medida que fazemos amizade com eles no meio do caminho.
Como não fazer amizade com essas fofuras?


É necessário ser ágil e preciso para ligar e estourar Wib Wobs na corrida contra o tempo. Os inimigos atacam a cada cinco segundos e se bobear sua barra de energia não irá durar muito. Demorei para me acostumar com um ritmo tão frenético que, ao mesmo tempo que exige agilidade e precisão, também demanda muita estratégia. Foram diversas as vezes em que me vi obrigado a focar em ligar o Wib Wob que recupera a barra de energia ou paralisa o inimigo ao soltar sua Supralmacia, nome dado aos golpes especiais no jogo, para fugir do risco eminente.

Dependendo do inimigo, há ainda a possibilidade de diminuir o ritmo e ser mais cauteloso a fim de ligar muitos Wib Wobs para deixá-los enormes e mais poderosos. Além disso, o ato de ligar os monstrinhos faz com que a barra da Hora da Febre seja preenchida, paralisando totalmente o inimigo e te concedendo um tempo bônus para ligar e estourar o máximo de Wib Wobs possível.

Essa alternância entre a agilidade e cautela é um dos aspectos mais fortes de Yo-kai Watch Wibble Wobble, pois vai contra a anedota de que jogos de puzzle são monótonos demais ou de que não precisam muito da sua atenção. Os estágios dos chefes ao final de cada mapa são um primor nesse quesito, pois eles flexibilizam ainda mais as mecânicas e estratégias do jogo trazendo uma novidade a cada batalha. 


Explorando a cidade primaveril

Fora das fases, o jogo oferece uma variedade de funções e elementos na cidade Springdale que vão sendo liberados à medida que avançamos nos estágios, entre eles a loja de itens, a lista de missões, o portal para se deslocar no mapa rapidamente e o Crank-a-kai, uma máquina gashapon que te concede a possibilidade de encontrar Yokai raros ao pagar com dinheiro do jogo ou colocar moedas adquiridas nas fases. A interface desse menu é clara e objetiva, e enquanto jogador, me vi instigado a utilizá-la constantemente, com exceção de um menu aqui e ali como o de registro de recordes que utiliza gráficos desinteressantes e confusos.

O fator free-to-play de Wibble Wobble é reforçado com atualização contínua de eventos e recompensas diárias, que trazem novos mapas, Yokai raros e muito Y-money, a grana do jogo. Dessa forma, é possível avançar e usufruir de praticamente tudo sem investir dinheiro real. Nesse cenário, ainda se tem as Classificações, um ranking online que te permite competir diariamente com os amigos pelas pontuações mais altas, além de ganhar recompensas semanais com ele. A ausência do fator multiplayer é, assim, compensada através das Classificações e da troca de espíritos entre amigos que te concedem mais vezes para jogar nos estágios.
Coisas para fazer é que não falta!


Se as mecânicas de combate, praticidade dos menus e eventos são competentes, os personagens tornam tudo ainda melhor. É possível interagir com vários dos que estão localizados em casas, praças ou templos nos mapas, seja para descobrir curiosidades bizarras e bem humoradas sobre eles mesmos ou lendas da cidade que, por vezes, envolvem Yokai. Acredito que esse é um dos fatores mais encantadores da franquia como um todo: a maneira descontraída e descompromissada que lidam com as criaturas e situações. O foco aqui não é ser o melhor de todos ou salvar o mundo da destruição. Isso acaba vindo a calhar em algum momento, mas não é o núcleo da série. A comédia non-sense e a bizarrice imperam e em Wibble Wobble não seria diferente. Deste modo, a tradução e adaptação de nomes e termos se faz essencial, pois do contrário a série perderia grande parte daquilo que a cerne.
A bizarrice torna tudo mais encantador e divertido!

Nesse quesito, a Level-5 tem feito um trabalho muito competente em diversos países, universalizando algo que é próprio da cultura japonesa — os Yokai — ao abordar os monstrinhos como os causadores dos problemas que fazem parte do dia-a-dia de qualquer pessoa. No entanto, algumas adaptações podem acabar surtindo o efeito contrário devido a determinadas escolhas infelizes e a versão brasileira acabou sofrendo um pouco com isso.

Nem tudo são flores!

Os cenários repetitivos e a pouca variedade de Yokai por mapa são alguns dos pontos fracos de Wibble Wobble. Assim como acontece com a família 3DS, grande parte do jogo se passa em apenas uma cidade: Springdale. Mesmo sendo enorme e oferecendo uma infinidade de lugares, a sensação em Wibble Wobble é a de que os mapas não mudam, seja pela pouca alteração da paleta de cores ou pela reutilização de Yokais iguais de um mapa a outro. É interessante e até importante oferecer outras oportunidades de fazer amizade com aquele Yokai em específico, mas em Wibble Wobble isso beira o exagero, visto que até cheguei a me deparar com monstrinhos iguais no mesmo mapa. Com a variedade de Yokais existentes, esse desconforto poderia ter sido claramente evitado.

Embora o jogo tenha ganhado uma localização completa com dublagem e diálogos em PT-BR, há falhas quanto a tradução, adaptação e até de espaçamento de texto. A localização segue o padrão das demais mídias (anime, mangá e brinquedos) determinado pela Level-5 para o Brasil e apesar de, no geral, estar mais do que satisfatória, sobretudo a dublagem, nota-se um leve descaso quanto a escolha de alguns nomes e termos. A título de exemplo, temos o caso do PeckPocket que, por estar sempre querendo as coisas dos outros por aí, recebeu o nome de Cobiçoso. Por outro lado temos o Watchagot, que por estar sempre desejando o que os outros comem, recebeu o nome de Cobiçosa. Duas criaturas bem distintas, tanto de personalidade quanto de aparência, mas que foram nomeados igualmente mudando apenas o gênero no final. Guloso ou Gulosa seriam escolhas mais condizentes com Watchagot. No mais, a preocupação em aproximar o contexto de Yo-kai Watch à realidade do público brasileiro através da localização de nomes e termos já é algo a ser celebrado.
A tradução de alguns textos, como a descrição do Cismado, foram esquecidas no churrasco.

Ser inspiritado ou não?!

Yo-kai Watch Wibble Wobble entrega uma experiência não muito distante dos jogos de 3DS. O universo da franquia foi bem transportado para o gênero puzzle trazendo muita ação, estratégia e humor, elementos basilares em toda série. Isso de forma alguma o torna menos competente, visto que a proposta é ser uma alternativa casual tanto para fãs como novos fãs de Yo-kai Watch. Diria até que ele é bastante singular nesse sentido, por saltar uma barreira por vezes impostas por muitos jogadores quando se trata de jogos do gênero: a monotonia. Um paradoxo, visto que esse é o fator que geralmente nos leva a querer nos distrair com jogos do tipo e isso o Wibble Wobble proporciona de maneira bem sólida. Algo que não surpreende muito vindo da Level-5, desenvolvedora que se estabeleceu no mercado através da série Layton, série essa que tem o gênero puzzle como parte criativa e substancial.

Prós

  • Interface clara e objetiva; 
  • Personagens muito bem caracterizados e dublados;
  • Eventos diversos e criativos;
  • Missões ativadas automaticamente ao serem realizadas e que concedem recompensas variadas;
  • Chefes instigantes que flexibilizam o fator estratégia;
  • Possibilidade de avançar estágios e conseguir Yokais raros sem investir dinheiro real.

Contras

  • Cenários e inimigos repetitivos;
  • Problemas de revisão, tradução e adaptação na localização PT-BR.
Yo-kai Watch Wibble Wobble — iOS/Android — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Android
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Marcell Solano é graduado em Letras pela Unisinos e entrou para o Blast como Redator com o intuito de unir duas coisas que ama fazer: escrever e jogar. Além de jogos, coleciona umas action figures e uns mangás com chamequinho transparente. Pode ser encontrado no Facebook e no Twitter.

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