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Análise: Etrian Odyssey V: Beyond the Myth (3DS) apresenta grandes desafios e boas explorações

O quinto capítulo do dungeon crawler da Atlus traz ótimas explorações e combates, mas ainda peca na curva de aprendizagem.

A franquia Etrian Odyssey já é relativamente conhecida pelos jogadores de 3DS por ser um ótimo exemplo de dungeon crawler extenso e com um nível de dificuldade incrível. Mesmo que seja infinitamente mais popular no Japão do que no resto do mundo, não é de hoje que a série consegue cada vez mais fãs no ocidente. Mesmo assim, como ocorre em outras franquias como Monster Hunter, temos só agora o lançamento de Etrian Odyssey V: Beyond the Myth (3DS) no ocidente, mais de um ano depois do seu lançamento no Japão.

Mesmo que a espera tenha sido grande, o jogo traz as boas e velhas mecânicas da franquia mais polidas, com novas classes e sistema de combate com algumas novidades. O nível de dificuldade característico da franquia também está de volta, bem como a exploração imersiva e altamente divertida. Entretanto, outros erros da franquia insistem em permanecer, impedindo que o jogo tenha uma relevância maior para a série do que seu antecessor.


Narrativa básica, mecânicas fantásticas

A história de Beyond the Myth é simples até demais, servindo apenas como pano de fundo para todas as dezenas (e até centenas) de horas de exploração que os jogadores terão com o título. Aqui, começamos o jogo iniciando uma guilda num lugar chamado City of Seven Hills, a cidade que servirá de base para nossa aventura. Os visuais são bastante estáticos, sendo que a cidade é apresentada através dos menus como a estalagem, o bar, a guilda dos heróis e o conselho da cidade. É uma forma interessante de manter os menus do game.

Após montar a guilda (criando nossos personagens, escolhendo suas classes e montando nosso primeiro grupo de heróis), somos contratados para explorar os andares de Yggdrasil e mapeá-los para o conselho da cidade. Ponto. Temos aí o enredo mínimo e basal que serve de desculpa para todas as horas de exploração que teremos no jogo. Claro que existem alguns detalhes que complementam um pouco a aventura, mas nada que fuja desse básico.



Se Beyond the Myth tem um enredo tão simples, talvez seja para balancear um sistema bem complexo e completo de combate e exploração. Como todo bom dungeon crawler clássico, Etrian Odyssey V é focado em exploração de masmorras em primeira pessoa e com batalhas baseadas em turnos. Ambos os pilares do game são muito bem estruturados e bastante robustos, dando a devida complexidade que faz os jogadores que já conhecem a série se apaixonarem pela aventura.

Imersão não baseada em gráficos

Uma faca de dois gumes presente em Etrian Odyssey V é a sua imersão. Inicialmente notamos como os gráficos dos personagens, focado em animações japonesas, é belíssimo e com cores muito vivas, sem perder o uso das sombras de modo criativo. Além disso, as dublagens e trilha sonora complementam a experiência imersiva, fazendo com que o jogador realmente tenha espaço para imaginar os locais onde está de forma viva e criativa.



Essa imersão é ainda mais reforçada pelos textos que descrevem os locais que exploramos nas masmorras. Principalmente nas missões secundárias, nas quais interagimos com o ambiente e temos opções de escolha do que fazer em seguida. Esse esquema lembra bastante os jogos de RPG da década de 1980, o que é algo muito legal, além de reforçar também a imaginação do jogador, que pode imaginar a situação da maneira que quiser.

Entretanto esses fatores que possibilitam uma imersão diferenciada no game são usados de modo quase preguiçoso no sentido estético do jogo. Assim, visuais tanto de batalhas como das masmorras, não são tão complexos ou detalhados, fazendo a imersão ser pouco apoiada em aspectos visuais e muito explorada por texto e som. Somente os FOE, que são os tradicionais bosses e mini-bosses da série, são visíveis nas masmorras, por exemplo. É um aspecto interessante explorar os áudios e os textos do jogo para imergir o jogador no ambiente, mas um maior detalhamento dos cenários e das criaturas não faria mal ao jogo.

Alta dificuldade, mas com boa diversão

Como já é de praxe na franquia, Etrian Odyssey V é bastante desafiador e pode ser horripilante para os marinheiros de primeira viagem. O segundo ou terceiro monstro que esbarramos nas masmorras já pode matar nossos personagens com um ou dois golpes, tornando a vida dos jogadores ávidos por evolução bastante difícil. Isso faz também com que as explorações sejam mais difíceis e estratégicas, pois sair se enfiando pelas masmorras de forma despretensiosa com certeza levará a uma morte certa.

O nível de dificuldade elevado é acentuado ainda mais por uma curva de aprendizado muito lenta e um tutorial inicial que, ao mesmo tempo que é detalhista demais, não lhe dá experimentos práticos de como completar missões e concluir seus mapas das masmorras, tornando a experiência para novos jogadores quase punitiva no início.



Entretanto, caso o jogador consiga vencer esta imensa barreira inicial, o jogo se torna bastante divertido e com desafios a altura de suas habilidades. A estratégia não se dá apenas na formulação do seu time ou na escolha dos golpes certos durante os combates, mas também na forma como você explora as masmorras. Saber a hora certa de voltar para a cidade e recuperar seu time é uma habilidade crucial para se manter vivo no jogo.

Se as criaturas normais presentes nas masmorras já são desafiadoras, os mini-bosses do jogo, conhecidos como FOE, são horripilantes. Dá até certo medo encontrá-los durante as explorações, pois a resposta básica ao encontrar uma criatura visível nas masmorras é, primeiramente, chegar perto para ver o que é. Num segundo momento, você corre o mais rápido possível, pois os status desses monstros são mais horripilantes do que sua aparência, que por sinal, é até fofinha às vezes.


Sistema de Batalha desafiador

O quinto capítulo de Etrian Odyssey apresenta um grande número de classes, o que permite uma abertura incrível para estratégias variadas durante os combates. Entre as raças do jogo temos os Earthlains (semelhantes a humanos) que contam com quatro  classes básicas distintas, os Celestrians (semelhantes a elfos), os Therians (homens-coelho?) e os Brouni (como se fossem eternas crianças na aparência), todos com duas classes básicas cada. As raças influenciam os status básicos dos personagens, enquanto as classes poderão ser trocadas mais adiante no jogo, permitindo um maior domínio de estratégias e adequações de combate.

Com isso, para escolher o time ideal para sua exploração, é necessário tempo de jogo e tentativa e erro. Conhecer a lógica básica dos RPG também ajuda, mas o jogo não faz por onde de explicar muita coisa além do basal neste caso. De novidade no sistema de combate temos os Union, movimentos combinados entre dois personagens, que auxiliam bastante nas batalhas, principalmente no início das explorações e contra monstros mais fortes. Existe também a mecânica de compartilhar seu time no street pass, podendo ver o time de outros jogadores que passarem perto de você, mas nada muito elaborado.



As batalhas em si, baseadas em turnos, são muito boas, mesmo que com poucos efeitos ou qualidades gráficas. Elaborar estratégias de ataque e defesa que realmente funcionam é muito gratificante, até mesmo as mortes ou derrotas não chegam a ser punitivas para os jogadores, pois não ocorrem por nada além de despreparo do jogador, que numa próxima oportunidade já saberá como se portar melhor naquele combate.

Mapear é tão divertido quanto explorar

Para além das explorações e combates, Etrian Odyssey acrescenta um recurso muito interessante aos dungeon crawlers: o mapeamento de masmorras. Além de ser um uso fenomenal para a segunda tela do 3DS, montar o mapa das dungeons manualmente e de modo personalizado é muito divertido. É possível que o jogador fique até bastante tempo em uma masmorra mais para construir o mapa da mesma do modo mais fiel possível do que para vencer seus desafios, que acabam virando pano de fundo em alguns momentos.


A quantidade de recursos disponíveis para editar e construir os mapas é o ponto mais alto dessa mecânica. Além disso, existe outro recurso dentro dele que auxilia principalmente os novos jogadores: é possível configurar o mapeamento para que este seja automático. Mesmo que isso possa incomodar um pouco os mais ávidos por mapear todas as masmorras, o serviço não é tão completo quanto o manual, não colocando, por exemplo, ícones de baús e locais de coleta, por exemplo, induzindo o jogador a utilizar a mecânica de edição de mapa em alguns momentos.

Um ótimo RPG, mas nem um pouco acessível

Etrian Odyssey ainda se mantém com o foco num público muito específico de jogadores. Isso não chega a ser um aspecto negativo do jogo, pois isso faz inclusive parte da identidade da franquia. Entretanto é sentida uma barreira muito grande para encantar jogadores novos (e digo novos não necessariamente na idade, mas novos no contato com a franquia). Nisso Etrian Odyssey V peca bastante, pois não prepara o jogador para o que vem pela frente, apenas deixa tudo lá e ele que se vire.

Isso pode até ser visto como positivo por alguns, mas um jogo deve ser construído com início meio e fim, digo isso no sentido de mecânicas e narrativa. É verdade que Etrian Odyssey V é um excelente RPG e talvez um dos melhores dungeon crawlers do ano, mas ele não possui um início muito agradável. O jogo faz com que o jogador só goste dele de dois modos: já conhecendo a franquia ou passando a barreira de quase 10 horas de jogo até entender as mecânicas básicas e dificuldades primárias do jogo.


Prós

  • Grande variedade de classes, sub-classes e raças;
  • Recursos para mapeamento de dungeon bem completos;
  • Missões baseadas em texto inteligentes e imersivas;
  • Nível de dificuldade desafiador, mas não punitivo;
  • Grande necessidade de estratégia para combates e exploração;
  • Exploração das dungeons bem imersiva;
  • Recursos de áudio e texto acrescentam bastante na imersão;
  • Ótimos efeitos em 3D;
  • Union é um bom acréscimo às batalhas
  • Excelente trilha sonora e dublagens.

Contras

  • Enredo simples demais;
  • Curva de aprendizagem lentíssima;
  • Tutoriais pouco explicativos barram novos jogadores.
Etrian Odyssey V: Beyond the Myth — 3DS — Nota: 8.0
Revisão: Luigi Santana
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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