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Análise: Perception (Switch) faz o jogador encarar o terror através dos sons

Com um conceito interessante de ecolocalização, game apresenta uma narrativa envolvente, mas prejudicada pela linearidade e repetição de objetivos.


Sabe aquele jogo que atrai a atenção por um conceito interessante? Perception é um desses casos. Ele é mais um título do gênero de terror que apela para a fórmula de visão em primeira pessoa, que se tornou bastante popular nos últimos anos, mas com elemento curioso: a protagonista é cega.


Desenvolvido pelo The Deed End Games, estúdio formado por ex-membros da Irrational Games, reconhecida por produzir o aclamado BioShock (Multi), Perception coloca o jogador no papel de Cassie. A mulher de 29 anos sofre com as mesmas visões de uma misteriosa casa. Após algum tempo pesquisando, a protagonista descobre que o local se trata de uma mansão abandonada, localizada em Gloucester, Massachusetts, e decide desvendar o enigma.

O som do medo

Você deve estar se perguntando, “mas se temos uma protagonista cega, como vemos o ambiente ao redor?”. Cassie pode perceber o cenário pela ecolocalização. Ao usar o seu bastão e bater em objetos ou no chão, ela cria sons que refletem no que está próximo e iluminam o ambiente temporariamente. Ou seja, a visão tem um alcance limitado e cria o aspecto de tensão e imprevisibilidade.

Todo visual do jogo é baseado nessa mecânica. Os ambientes são monocromáticos e os objetos possuem bordas neon para identificação. Itens importantes e interativos, como portas e baús, trazem uma coloração esverdeada, mas são apenas visíveis quando Cassie está próxima deles. Enquanto explora a mansão, ela vai dialogando consigo mesma para diminuir a tensão. É nesse momento que o jogador se depara com um problema que se arrasta até o fim de Perception.

O game não permite que o jogador explore a mansão a bel-prazer. A linearidade impera a ponto de ter apenas um caminho para alcançar o objetivo. Portas antes abertas ficam trancadas e obstáculos aparecem para impedir um desvio do destino principal. Essa mudança no cenário é uma mecânica explicada em Perception, pois cada mistério resolvido desencadeia uma alteração na casa, mas ser extremamente linear elimina o interesse do jogador em explorar o cenário.
Pressionar ZL faz com que Cassie sinta onde está o próximo objetivo
Cassie encontra diversos objetos e, ao pegá-los, recupera memórias de moradores antigos do local e precisa ajudá-los ou refazer seus passos. Ela também pode utilizar um aplicativo de celular para ler documentos ou enviar fotografias para que um amigo diga do que se trata. A trama consegue manter o jogador entretido, principalmente por cada capítulo retratar habitantes de gerações diferentes, mas os enigmas envolvem apenas ir de um ponto a outro da mansão e tornam-se repetitivos rapidamente.

A Presença presente

O verdadeiro perigo de Perception são as entidades que residem no local. Há diversos jump scares, os famosos sustos que pegam o jogador de surpresa, como móveis se movendo, eletrônicos ligando repentinamente, portas rangindo e batidas em janelas. Entretanto o principal vilão é, ironicamente, o mais previsível do game. Chamado de “A Presença”, a entidade persegue Cassie em diversos momentos e é preciso se esconder debaixo de camas e mesas ou dentro de baús e armários para escapar com vida.
Quem foi que colocou uma maçaneta na parte interna do armário?
A Presença é atraída pelo som e joga a responsabilidade para o jogador. Cassie precisa da ecolocalização para se deslocar, seja com o bastão ou ligando objetos como aquecedores e rádios, mas isso se torna arriscado. Há até trechos em que há plastico bolha no chão para causar mais tensão. Quanto mais ruídos, mais perigoso se torna o ambiente e a coloração vai ficando avermelhada, indicando a aproximação do vilão. Dessa forma, o jogador sabe quando a entidade está próxima, não há o fator de imprevisibilidade ou medo de ser pego. Um recurso fácil para evitar A Presença é bater o bastão repetidamente, próximo a um esconderijo, quando o ambiente estiver ficando avermelhado para atraí-lo, se esconder e esperar o perigo passar para progredir.

Perception também acerta em alguns pontos. A parte sonora é muito bem trabalhada. Todos os diálogos são dublados (em inglês, mas há legendas em português brasileiro) e fica a critério do jogador escolher se Cassie será faladeira ou silenciosa, expressando-se apenas em falas essenciais na trama. As batidas do bastão representam bem os impactos e é possível ouvir a diferença ao bater em madeiras, ferros ou em tapetes, por exemplo, mas estranhamente não faz uso do recurso HD Rumble, fator que poderia elevar a imersão principalmente por se tratar de um game de terror.

Além disso, é possível determinar o estilo de jogo. O modo História elimina os perigos para quem quer aproveitar apenas a história; o Arrepiante acrescenta os perigos no caminho de Cassie e volta para a entrada da mansão caso seja pega pela entidade; e o Aterrorizante leva o jogador direto para o menu principal ao ser pego, precisando recomeçar a jornada.

Perception apresenta uma experiência inovadora e diferente ao aproveitar a ecolocalização. Mesmo sendo muito linear, com enigmas simples e objetivos repetitivos, a trama consegue envolver o jogador. É um jogo de terror que vale a pena pela curiosidade e para perceber que não é preciso ver o perigo para sentir medo.

Prós

  • Conceito de ecolocalização interessante;
  • Efeitos sonoros bem trabalhados;
  • Possibilidade de configurar o estilo de jogo e falas da protagonista.

Contras

  • Extremamente linear;
  • Falta de interatividade e variedade nos enigmas;
  • A Presença é previsível e facilmente evitada;
  • Ausência do recurso HD Rumble.

Perception — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Luigi Santana

Alex Sandro de Mattos é formado em Gestão de TI. Entre se aventurar por Hyrule e se perder em Silent Hill, gosta de publicar fatos interessantes e bobagens no Nintendo Blast. Pode ser encontrado jogando games 2D e também no Facebook.

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