Brasileiro fã de videogames retrô constrói Game Boy gigante

Homenagem nostálgica aos amantes do portátil da Nintendo, projeto do técnico Wagner Dua ainda pode figurar no livro dos recordes.



Até onde a paixão pelos games pode nos levar? Certamente, a resposta envolve aparelhos, jogos e pessoas que proporcionaram experiências e momentos que ficarão para sempre na memória, sejam as jogatinas com os amigos ou títulos que nos levaram aos horizontes mais distantes da imaginação. É aquele tipo de sentimento que nos motiva a buscar algo a mais para demonstrar nosso carinho por essa cultura. Admirador da Nintendo desde os tempos do Famicom (NES), Wagner Dua, 38, trilhou um caminho que tomou a forma de um Game Boy de um metro e meio de altura.


O gigantesco aparelho, que equivale ao volume aproximado de cem unidades do Game Boy original, lançado em 1989, não passa despercebido e ocupa um lugar mais que especial na enorme coleção de games do técnico especializado em eletrônica morador de Jaú, no interior de São Paulo. Wagner desenvolveu o projeto por conta própria, como um artigo pessoal, e hoje convive com a expectativa de ter seu trabalho reconhecido pelo Guinness Book.

A evolução de uma paixão

Desde o seu primeiro contato com os arcades através de Final Fight (1989), Wagner alimentou a vontade de se envolver com aparelhos eletrônicos. Outra inspiração foi o clássico Super Mario Bros. (NES, 1985). Sem o acesso rápido e fácil à internet nos anos 1990, foram as revistas, jornais e telefones que o levaram até o Instituto Universal Brasileiro, onde formou-se em Técnico de Rádio, TV e Videocassete. A semelhança entre os videogames e demais aparelhos eletrônicos logo o fizeram aprofundar-se no funcionamento dos hardwares de consoles e arcades da época, abrindo-os e estudando-os por dentro.

“A eletrônica, embora seja muito diferente hoje, tem coisas que não mudam. Se você pegar um HD de computador construído na década de 1950, ele possui uma tecnologia usada até hoje. É difícil os componentes eletrônicos mudarem muito. Eles mudam a forma, ficam menores, mas continuam fazendo a mesma coisa”, ressalta o técnico.

Apaixonado por games, Wagner usou seus conhecimentos em eletrônica para construir vários modelos de arcades
A ideia de desenvolver o Game Boy gigante veio após uma série de projetos finalizados, entre adaptações de consoles retrô para novas saídas de vídeo e máquinas de arcade construídas do zero. Além de servir como uma homenagem à Nintendo, uma de suas empresas de game favoritas, o projeto também foi considerado por ele o desafio ideal para a realização de um sonho.

De projeto à realidade

Certamente, construir um aparelho com mais de um metro de altura não foi tão simples quanto enfiar um cogumelo no Game Boy original. O ponto de partida foi transformar o portátil numa experiência de jogo semelhante à oferecida pelos arcades. “Eu pensei: preciso de algo maior. Como gosto de colecionar games, precisava de algo que fosse parecido com uma máquina de arcade, mais visível e com o qual eu pudesse me divertir”, explica Wagner.

Após fazer esboços em desenhos 3D e definir a escala, o projeto começou a tomar forma. A adaptação é toda trabalhada em madeira de média densidade (MDF), o mesmo material utilizado por fabricantes de móveis planejados. As áreas em relevo são talhadas à mão, como os detalhes laterais, as inscrições para a entrada dos fones de ouvido e os botões on/off na parte superior do aparelho.

Detalhismo nas superfícies em relevo impressiona. Trabalho foi talhado à mão pelo técnico jauense
Já o trabalho interno envolveu o hardware de um Super NES em conjunto com o adaptador Super Game Boy, acessório lançado pela Nintendo que permite ao console 16-bits rodar títulos do Game Boy original na TV. Neste caso, a tela do Game Boy gigante também é uma TV de tubo tela plana de 21 polegadas, modificada para encaixar-se dentro do aparelho. Basta colocar o cartucho no adaptador e ligar.

O Game Boy é totalmente funcional e os comandos realizados pelos botões Start, Select, B, A e o direcional em cruz são ligados diretamente a uma placa de arcade. Esta foi a parte mais difícil do projeto, pois levou um bom tempo até Wagner ajustar a estrutura de molas e borrachas magnéticas para fazer com que o retorno de jogabilidade fosse tão preciso quanto o do aparelho original.

Nas entranhas do aparelho, originalidade foi mantida. Wagner revela o hardware do SNES em conjunto com o adaptador Super Game Boy
A experiência de jogar no Game Boy gigante nos leva a uma viagem pela nostalgia. Ver clássicos como Pokémon, Super Mario e Street Fighter rodando em tamanho ampliado chama a atenção, principalmente ao jogá-los usando não mais as pontas dos dedos, mas a mão inteira para pressionar os botões.

Ao todo, a produção levou cerca de três meses e foi finalizada em 2014. O Game Boy mede 130 centímetros de altura por 78 centímetros de largura, com 40 centímetros de profundidade. No entanto, ele só foi divulgado ao público em março de 2017 através da postagem de um vídeo no Youtube pelo canal Arena Games, vinculado à loja para a qual Wagner trabalha atualmente.

“Não podíamos deixar algo incrível assim apenas em casa, onde quase ninguém vê”, afirma Alan Diego Polini, 32, proprietário do estabelecimento e fã dos trabalhos de Wagner. A ideia é que a divulgação o estimule a almejar novos projetos e desenvolver adaptações de consoles no futuro.

O original e sua versão tamanho família. Aparelho equivale à escala de volume aproximada de cem Game Boys

O maior Game Boy do mundo?

Em setembro, o Guinness World Records postou em seu site oficial o projeto do estudante de comunicação multimídia Ilhan Ünal, de Bruxelas (Bélgica), que construiu um Game Boy em tamanho ampliado. Denominado Game Boy XXL, o aparelho entrou para o livro dos recordes mundiais na Gamer’s Edition de 2018.

Medindo 101 centímetros de altura, 62 centímetros de largura e 20 centímetros de profundidade, o Game Boy belga também é totalmente funcional na jogabilidade com os botões. Internamente, ele funciona através de um Game Boy original situado na parte traseira do aparelho, em conjunto com um sistema Raspberry Pi fixado na saída de conectores.

O Game Boy de Ilhan Ünal, estudante belga que detém o recorde mundial
A informação chegou a Wagner após uma avaliação rotineira do fluxo de visualizações de seu vídeo do Game Boy, quando deparou-se com a publicação do estudante. “Assisti pelo canal pessoal dele e depois percebi que haviam links para reportagens e informações do Guinness Book sobre ele ser o maior aparelho do mundo. Ao avaliar as medidas, acredito que o meu seja cerca de 30% maior. Não sei se pode ser o maior do mundo, mas é certo que é maior que o apresentado”, conta o técnico.


A dúvida o levou a pesquisar mais sobre como são aplicados os critérios do Guinness e qual o procedimento a ser adotado para entrar em contato com seus avaliadores. Entre pesquisas e orientações de amigos e fãs do trabalho, chegou até o formulário de cadastramento de novos recordes.

“Fiz o cadastro e preenchi o campo onde se requer a quebra de um recorde. Nisso já aparece o Game Boy do Ilhan com as medidas e você precisa colocar as medidas do seu, além de um comentário obrigatório e link para vídeo. Eles falam que dentro de doze semanas vão entrar em contato. Também forneceram um contrato de cinco páginas com todas as informações”, explica.


Por se tratar de um hardware emulado comparado ao trabalho feito com hardwares originais da Nintendo, Wagner acredita que seu projeto mais próximo do Game Boy real possa ter uma chance. Caso seja reconhecido a nível mundial, nem sabe ainda como reagirá.

“Isso foge à minha imaginação. O fato de você ter realmente algo construído no fundo do quintal da sua casa e ele ser considerado o maior do mundo. Um projeto sem pretensão nenhuma. Apenas o fato do pessoal do Guinness vir até aqui já é um grande passo, mesmo que não ganhe. Se ganhar, eu nem sei o que vou falar. Vai ser muito emocionante e pode até ser um combustível a mais para levar adiante outros projetos”, ressalta o técnico.

Novas ideias

Alguns projetos inclusive já estão prontos. Wagner desenvolveu uma réplica de um dos estandes da Nintendo para promover o Virtual Boy em feiras de eletrônicos na década de 1990. O aparelho fica acoplado a uma estrutura vertical para as pessoas jogarem em pé, decorado com banners ilustrativos nas laterais. “Construí sem medidas de referência, pois não havia. Muito que usei foi baseado em fotos e imagens retratadas em feiras de jogos. Até mesmo os banners laterais, que não consegui encontrar os originais, fiz com material parecido.”

Ideias futuras envolvem ainda a produção do estande utilizado para promover o N64. Utilizado em feiras como a E3, o aparelho permitia a troca de cartuchos sem desligar o videogame, através de uma placa específica. Ele também imprimia cards de jogos, como Pokémon. “Não sei direito como funciona, mas gostaria de reproduzir algo assim”, revela Wagner.

Estande do Virtual Boy construído por Wagner nos mesmos moldes dos usados em feiras pela Nintendo. À direita, armário com consoles e peças utilizadas pelo técnico
Questionado sobre a possibilidade de um DS gigante, o técnico demonstra interesse e até cogita algumas ideias: “Falando sem muito estudo a respeito, seria mais fácil reproduzi-lo num formato maior se fosse emulado. As plataformas DS e 3DS são bem próximas à do celular. Para esse DS, poderia emular num PC com duas telas, a de baixo sendo uma tela com toque. Tendo isso emulado em hardware, o restante não seria complexo”, avalia.

A escolha por adaptações de aparelhos relacionados à Nintendo, segundo ele, é porque as ideias e formas de apresentação dos produtos da casa de Mario sempre chamaram mais a atenção ao longo dos anos. “Na parte de apresentação ela é muito mais legal, pois os aparelhos e apresentações são muito mais bem trabalhados e elaborados. Para quem coleciona, isso é muito bacana”, finaliza.

E você, gostou dos projetos desenvolvidos pelo Wagner? Não deixe de compartilhar sua opinião a respeito do Game Boy ou deixar suas ideias para projetos futuros do técnico que não esconde sua paixão pelos games.

Revisão: João Paulo Benevides
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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