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A cosmopolita New Donk City de Super Mario Odyssey (Switch)

União de realismo e fantasia na medida certa nos traz um dos reinos mais interessantes da nova aventura do bigodudo.




Quando revelada nos primeiros anúncios de Super Mario Odyssey (Switch), um grande ponto de interrogação ergueu-se sobre o que a Nintendo pretendia ao trazer um cenário urbano para as aventuras do bigodudo. Muitos a compararam à cidade que Sonic visitou em Sonic the Hedgehog (Multi, 2006) e que não repercutiu bem para a trajetória do ouriço azul. Outros disseram que Mario agora estava despontando como um protagonista de GTA. Contudo, após o lançamento do game no final de outubro, podemos dizer de forma contundente que New Donk City é uma das fases mais interessantes de Odyssey.


Não se trata de uma cidade sósia do título de Sonic ou uma adaptação de Mario aos jogos de ação com veículos e perseguições. New Donk City tem sua identidade própria e configura-se como uma grande celebração ao que a franquia Mario representa há mais de trinta anos, sobretudo em relação à primeira aventura do herói nos arcades em Donkey Kong (1981), antes mesmo da existência do Reino dos Cogumelos, nos tempos em que Mario ainda era o Jumpman.

Uma grata surpresa

New Donk City é a cidade principal de Metro Kingdom, um dos vários reinos pelos quais o bigodudo viaja em sua busca pelas Power Moons para fortalecer a nave Odyssey e resgatar (mais uma vez) a princesa Peach das mãos de Bowser. Para quem torceu o nariz ao questionar a inserção de um cenário urbano na franquia, a dúvida de antes agora se transforma em um ponto certeiro da Nintendo. A nova metrópole é cativante tanto em jogabilidade quanto nos aspectos visuais e sonoros, unindo o que há de melhor entre o fantástico e o real.

Caçar Power Moons ou simplesmente passear por New Donk City proporciona ótimas sensações e experiências
Uma coisa é certa. Você passará horas perambulando sem se dar conta de quanto tempo passou. Em termos de jogabilidade, o mundo realista inspirado em Nova York segue a fórmula de exploração dos títulos sandbox e oferece uma boa experiência para o gênero plataforma com seus edifícios, ruas, praças e locais secretos, fora os elementos de Odyssey que permitem a Mario assumir o controle dos mais diferentes objetos, desde letreiros, postes, táxis, até inimigos em forma de tanque de guerra.

A caça às Power Moons, que estarão escondidas em literalmente qualquer lugar, renderá uma boa experiência envolvendo a dinâmica de vasculhar cada canto da cidade. Andar pelas ruas ainda traz uma avalanche de nostalgia e referências que não acabam mais. A começar pelo nome New Donk City, claramente uma alusão ao gorila que foi o vilão do título de 1981, o qual hoje sabemos tratar-se do velhinho Cranky Kong em sua juventude. Em Donkey Kong Country (SNES, 1994), o avô de Donkey Kong dizia: “Arruinando donzelas e atirando barris ao redor sete dias por semana, eu estava. Foi assim que cheguei onde estou hoje, você sabe. Trabalho duro”.

Pular corda no meio de uma metrópole movimentada? Sim, podemos fazer isso em New Donk City
Uma relação interessante é que, pela primeira vez, a trama da década de 1980 é ligada aos títulos da série principal de Mario, embora Shigeru Miyamoto já tenha afirmado em entrevistas que os jogos do bigodudo apresentam papéis distintos como se fossem peças de teatro, sem relação de continuidade.

A donzela em perigo salva por Mario, vulgo Jumpman na época, também dá as caras como a prefeita local. Nos diálogos com Pauline, percebemos que ela ainda se lembra de toda a confusão passada, além de abrir espaço para que a conheçamos melhor, descobrindo seu novo hobby como cantora e particularidades envolvendo seus medos e preferências.

De donzela em apuros a prefeita e principal estrela de New Donk City, Pauline dá um show de tirar o chapéu
Ao solucionar o problema central da cidade, podemos recrutar músicos que ajudarão Pauline em uma grande festa na qual ela canta o tema de Odyssey enquanto Mario viaja em sua forma 2D clássica por cenários que remetem ao Donkey Kong dos arcades. Nostalgia pura! Além disso, os artistas representam o espírito musical de Nova York refletido nos instrumentistas de rua e na popularização do jazz.

Nostalgia à flor da pele com essa retratação do Donkey Kong original dos arcades

Detalhes

New Donk City transborda seu espírito cosmopolita e torna-se ainda mais convidativa com a chegada de personagens vindos de outros reinos. O mexicano de chapelão de Sand Kingdom que quer viajar de táxi, os cozinheiros de Luncheon Kingdom atraídos pelos pontos de encontro no topo dos edifícios, assim como os habitantes de Seaside Kingdom que não saem das piscinas e os moradores de Snow Kingdom amedrontados pela altura dos edifícios. A cada esquina, um atrativo diferente que estimula a exploração, fazendo valer muito a pena conferir o que os habitantes e turistas andam fazendo pelas ruas.

O senhor caramujo curtiu a cobertura com piscina. Outros turistas também aparecem na cidade após resolvermos o problema central do reino
A metrópole também é um paraíso de referências para os olhares mais atentos. Letreiros estão espalhados por vários prédios contendo artes visuais retrô do título de 1981, que mostram toda a glória de Mario nos tempos de Jumpman em desenhos bem diferentes dos que conhecemos hoje. As ruas também reservam ótimos momentos. De repente, você estará no cruzamento da Cranky Avenue com a Rambi Street e se sentirá muito feliz ao olhar as demais placas da cidade, cujos logradouros remetem aos personagens da franquia Donkey Kong.

Moço, onde fica o cinema? Você pega a Avenida do Cranky, vira na Rua do Rambi e segue toda vida!
Objetos encontrados pelas ruas ou no topo dos prédios podem não ter muito significado no início, mas a surpresa é grande quando relacionamos bolsas, chapéus e guarda-chuvas e percebemos tratarem-se exatamente dos itens coletáveis do Donkey Kong original que garantiam mais pontos à aventura de Jumpman. E eles ainda possuem uma relação especial com Pauline. Não deixe de conversar com ela! Frases muito bem pensadas para os momentos de diálogo também reservam aquela pitada nostálgica.

Painéis espalhados pela cidade mostram artes conceituais e visuais 8-bits da aventura de Jumpman em 1981

Seja curioso

Um aspecto muito bem trabalhado em Odyssey é o convite à curiosidade. Não deixe nunca de verificar os cantos mais ou menos suspeitos, pois há uma grande chance de ser recompensado. Encontrou um cachorro de chapéu passeando pela cidade? Brincar com ele pode lhe levar a surpresas interessantes. Uma enorme fila de pessoas formada em frente a um prédio não deixa passar em branco o sentimento de suspeita. Trata-se de uma sala de cinema onde os moradores assistem ao clássico Super Mario Bros. (NES, 1985), que obviamente é uma exibição interativa da qual o jogador pode participar.

Encontrar o prédio do cinema rende ao jogador uma recompensa mais que especial
A cidade também vem acompanhada de algo muito familiar aos encanadores italianos com bigode: esgotos. Os bueiros de New Donk City escondem áreas exploráveis e encontros com substâncias tóxicas e Piranha Plants regados ao tema clássico das aventuras pelo subterrâneo. A curiosidade também pode levar o jogador a uma volta de táxi por áreas inacessíveis a pé e até mesmo a uma perseguição de moto digna dos filmes hollywoodianos na qual devemos escapar de uma grande ameaça. A imaginação é o limite e lançar Cappy nos mais variados objetos se torna uma regra a seguir.

Acho que não foi uma boa ideia passar correndo de lambreta naquela esquina
O reino mais realista de Super Mario Odyssey esbanja vivacidade e fatores que chamam a atenção dos novos jogadores e principalmente dos aventureiros de longa data. Uma experiência memorável que serve de exemplo sobre como retratar cenários urbanos em jogos de aventura e fantasia com jogabilidade plataforma, seja na exploração horizontal ou vertical. É aquele tipo de fase que aguça nossa curiosidade, fazendo-nos vasculhá-la ao limite e sermos muito bem recompensados por isso. Sejam todos bem-vindos a New Donk City!

Depois de tanta exploração, nada mais merecido que um bom cochilo com a pomba companheira


E você, o que achou de New Donk City? Não deixe de compartilhar sua opinião e suas experiências de jogo no reino urbano de Super Mario Odyssey.

Revisão: Luigi Santana
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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