Blast from the Past

Super Mario 64: a inovação e o impacto causados pelo clássico da Nintendo

Primeira aventura 3D do bigodudo marcou toda a transição de perspectiva da 5ª geração de consoles, com inovações e efeitos refletidos até hoje.




Era tarde de domingo em dezembro de 1997. Viajava com minha família a São Carlos, interior de São Paulo, a fim de conhecer o recém-inaugurado shopping da cidade, todo decorado com enfeites de Natal. Para um garoto ansioso de nove anos, a estrada parecia interminável. Passei o trajeto todo contando árvores e imaginando como seria quando chegássemos. Meu objetivo, claro, não estava em entregar a lista de pedidos ao bom velhinho, mas sim aproveitar ao máximo a área de arcades e me deslumbrar com as capinhas dos jogos de videogame nas lojas de eletrônicos.


Quem viveu a época das locadoras sabe muito bem o encanto que essas caixinhas mágicas tinham sobre nós. Gastei muitas fichas em Virtua Cop 2 (Sega, Arcade, 1995) naquele dia, até meus primos me chamarem para ver algo incrível que estava rolando em frente a uma das lojas próximas. Uma multidão de crianças e adultos apertavam-se para observar o que parecia ser a apresentação de um novo jogo.

Pequeno, conseguia ver apenas a parte de cima da TV, que mostrava uma torre de castelo e um céu azul. Às vezes, aparecia um objeto vermelho desconhecido. Me espremi entre eles e cheguei perto o suficiente para ter uma visão mais clara. Não era o Papai Noel. Me deparei com um certo encanador bigodudo correndo para todos os lados no cenário mais bonito que eu tinha visto até então. Este foi meu primeiro contato com Super Mario 64.

Não resista ao King Bob-omb! Ligue o N64 e o derrote mais uma vez na primeira fase!

Um salto para o futuro

Todos bateram palmas ao fim da exibição e eu, fã de carteirinha de Super Mario World (SNES, 1990), fiquei mais ansioso ainda, procurando nas prateleiras de jogos 16-bits onde estava o novo título do bigodudo. Meus primos riram. Eles sabiam mais que eu e me levaram até outro videogame, este sim, que estava rodando a nova aventura do encanador. Foi ali que minha cabeça explodiu e vi de perto o todo poderoso N64.

Inesperadamente, havia conhecido ao mesmo tempo dois dos meus maiores desejos gamers de criança. O aparelho havia sido lançado oficialmente no Brasil em 10 de dezembro daquele ano e Super Mario 64 era sua principal vitrine.

Os games nunca mais foram os mesmos depois que Mario chegou ao universo 3D
Quando fazemos essa viagem temporal aos anos 1990, podemos perceber um pouco do que foi o efeito Super Mario 64 não só na indústria de jogos, mas nas pessoas em geral. Todos estavam curiosos sobre a novidade dos jogos em três dimensões, um salto enorme em comparação aos sprites da geração 16-bits.

Os arcades, mais modernos que os consoles, já traziam títulos com o uso da nova tecnologia e os jogadores queriam levar a experiência para casa. Nesse contexto, não houve um título que melhor representou a transição do 2D para o 3D, com qualidade de cenários, jogabilidade satisfatória e grande repercussão de público, do que a nova aventura de Mario.

Estreia do bigodudo no N64 foi uma das primeiras oportunidades das pessoas levarem para casa jogos em 3D com gráficos avançados e boa jogabilidade
Logicamente, já existiam antes outros títulos para consoles com mecânicas de jogo e estruturas desenvolvidas em 3D, como Continuum (Multi, 1990), por exemplo. Pode ser que Super Mario 64 até mesmo não seja o melhor jogo de aventura em plataforma 3D já produzido, embora muitos o considerem o melhor.

O trabalho de outras desenvolvedoras, como a Rare, evoluiu a estrutura do gênero com o passar dos anos e nos proporcionou experiências mais profundas, como Banjo Kazooie (N64, 1998) e Donkey Kong 64 (N64, 1999). No entanto, o que observava-se na nova aventura do encanador era o início de uma revolução de conceitos que haviam chegado para ficar. Para mim, na época, aquilo era inimaginável.

Se lembra do bebê pinguim chorão e a aventura para levá-lo até a mãe em Cool, Cool Mountain?
Falar de Super Mario 64 e do console sucessor do SNES é como voltar nos tempos dos empréstimos de cartuchos entre amigos. Sabe aquela lista de jogos que você passava para o colega quando algum deles pedia um jogo emprestado? Era só falar do Mario em que você andava pelo castelo coletando estrelas que a galera não pensava duas vezes: “Você tem o Mario? Empresta para mim?” Assim como Super Mario World era o símbolo do SNES, Super Mario 64 representava a identidade do N64.

Alguns anos depois, The Legend of Zelda: Ocarina of Time (1998) também assumiu esse papel. Isso, claro, quando encontrávamos amigos que tivessem o N64 na época, pois o valor do aparelho no Brasil era surreal. Ganhei o meu de presente apenas em 1999 e mesmo assim meu pai pagou caro. Jogar Super Mario 64 para valer, só em 2001.

A expansão de jogo proporcionada pela nova perspectiva levou o encanador a experiências nunca vistas até então

O primeiro bigode 3D

Lançado em 1996 como parte da primeira leva de jogos do N64, Super Mario 64 representava a responsabilidade da Nintendo em oferecer uma nova experiência ao público. Até hoje, o jogo é considerado um dos maiores de todos os tempos, tamanha sua contribuição para a história dos videogames. Não é à toa que ele foi homenageado no recente Super Mario Odyssey (Switch, 2017), mostrando que aquilo que é bom merece sempre ser lembrado.

Um fato é que Super Mario 64 estava no lugar certo e na hora certa. As ideias trabalhadas no título ocasionaram um certo recomeço para a indústria de games, assim como havia acontecido em 1985 com o lançamento de Super Mario Bros. (NES). Os dois jogos são exemplos de como unir experiência de qualidade com inovação tecnológica. Ambos representaram saltos técnicos na linha temporal dos consoles a ponto de tornarem-se símbolos culturais.

O primeiro chute 3D na fuça do Goomba a gente nunca esquece
Tanto no 2D como no 3D, Mario estava lá como um dos primeiros personagens a apresentar tais avanços e isso fez com que muitas crianças e jovens (eu incluso) crescessem em contato com o bigodudo de boné vermelho. Tamanho sucesso se refletiu por todo o planeta e o personagem roubou os holofotes durante a campanha de divulgação dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020, anunciada ao final das Olimpíadas do Rio em 2016. Uma homenagem que extrapola o universo dos videogames e alcança também a cultura pop.

Super Mario 64 permitiu que controlássemos um personagem em um ambiente totalmente tridimensional, seja na modelagem do herói ou nos elementos de cenário. A liberdade de movimentação e o controle da perspectiva de câmera foram as maiores contribuições do game, amplamente utilizadas tempos depois por outros jogos e desenvolvedoras.

Obrigado Lakitu por ter revolucionado a câmera livre nos jogos de plataforma 3D
Tudo isso era refletido pela forma como Mario se movia e o que podia ser realizado através dele: saltos normais, saltos duplos, triplos, agachamentos, saltos longos, socos, chutes, saltos pelas paredes. Mario nunca esteve tão versátil e o encarte do jogo fazia questão de mostrar todas essas possibilidades. Os movimentos se adaptavam muito bem à perspectiva 3D com câmera livre e ao direcional analógico de 360 graus.

O encarte do jogo mostrava toda a gama de movimentos que Mario era capaz de realizar. Um avanço que definiu a estrutura do gênero plataforma 3D
A alavanca permitia o controle não apenas da direção para onde Mario se movimentava, mas também a intensidade da ação. Miyamoto já planejava esse tipo de experiência anos antes, desde o lançamento de Super Mario World e protótipos com o uso do chip Super FX, mas foi só com o N64 que conseguiu realizá-las de forma satisfatória.

Alguns cenários ainda remetem ao projeto original com visão isométrica, semelhante a Super Mario RPG: Legend of the Seven Stars (SNES), também lançado em 1996. Nas fases onde batalhamos contra Bowser, a câmera foi estruturada de modo a nos fazer avançar pelo cenário com destino ao final, diferente da exploração de área nas demais fases. Os protótipos da Nintendo para desenvolver Mario em 3D, produzidos pela Argonaut Software, ainda serviram de base para a criação de Croc: Legend of the Gobbos (Multi, 1997).

Resquícios da visão isométrica ainda são encontrados nos estágios do Bowser. Inicialmente, Super Mario 64 seria projetado inteiramente dessa forma

Experiências marcantes

E o que dizer das batalhas contra o vilão mais casca grossa (ou casca espinhosa) dos games? Ver Bowser pela primeira vez em 3D era intimidador. O uso da alavanca analógica se tornava essencial, pois precisávamos contorná-lo, agarrá-lo pela cauda, girá-lo no ar e lançá-lo nos espinhos explosivos que ficavam nas extremidades da arena. O bigodudo simplesmente vencia o vilão “no braço” e nós jogadores sentíamos os efeitos em nossos dedos. A alavanca analógica não era tão confortável como as de hoje.

Se você também morria de medo de enfrentar Bowser na época, bem-vindo ao clube
A experiência ficava ainda mais imersiva graças à adição de vozes. Pela primeira vez, ligávamos o videogame e éramos recebidos por um “It’s-a-me, Mario!”, seguido pelo rosto do herói na tela, que podia ser esticado pelo jogador para formar as caretas mais engraçadas possíveis.

Era um dos trabalhos mais importantes de Charles Martinet após sua estreia como dublador oficial do bigodudo em 1995 e as frases proferidas ficaram na memória até hoje: “Mammamia”, “Hello”, “Press Start to Play”, “So long-a-Bowser!”, bem como o agradecimento ao final da aventura em “Thank you so much a-for-to playing my game!” (eu sei que você leu isso com a entonação do Mario).



Em termos de jogabilidade e objetivos, o desafio era encontrar todas as 120 estrelas espalhadas pelo castelo da Peach em 15 fases diferentes, além de locais secretos no próprio castelo. Primeiro explorávamos o saguão de entrada, depois desbloqueávamos as masmorras e por fim os andares superiores, cada área com salas específicas que escondiam quadros nas paredes, usados como porta de entrada para as fases.

Cada uma delas apresentava ambientações variadas entre campos, fortalezas, montanhas, desertos, vulcões, cenários aquáticos e outros inusitados, como o interior de um relógio. Em vez de seguirmos um caminho até a bandeira final, como nos títulos anteriores, agora tínhamos liberdade para vasculhar cada canto do cenário na busca pelas estrelas.

Os cenários exigiam um bom tempo de exploração para encontrarmos todas as estrelas, divididas em sete por fase
O gênero plataforma literalmente deu um salto em profundidade, com mecânicas que permitiam saltar obstáculos, dar a volta em blocos e plataformas, traçar estratégias para vencer inimigos, utilizar técnicas para alcançar lugares mais altos e explorar ambientes subaquáticos. A curva de dificuldade subia aos poucos até chegarmos a situações que exigiam total precisão (quem jogou na fase Rainbow Ride sabe do que estou falando), tudo isso fazendo uso da tecnologia tridimensional.

Super Mario 64 reuniu num só jogo tudo o que havia de melhor e o que podia ser criado naquele momento: gráficos avançados em três dimensões, jogabilidade inovadora, sistema de câmera livre, direcional analógico de 360 graus com intensidade de movimento, elementos de exploração e coleta de itens, trilha sonora marcante e efeitos de som, como as vozes, que tornaram a experiência mais que memorável.

Confesse que você perdeu inúmeras vidas na primeira vez que passou por Rainbow Ride, a última fase de Super Mario 64
Os mais saudosistas ainda podem preferir jogar Mario em sua jogabilidade 2D, enquanto outros adoram a aventura tridimensional e suas sequências, de Super Mario Sunhine (GC, 2002) até chegarmos a Super Mario Galaxy 1 e 2 (Wii, 2007/2010) e Super Mario Odyssey no Switch. Seja qual for a perspectiva, o bigodudo conseguiu manter sua relevância ao longo dos anos e não podemos negar o importante papel que a aventura do N64 desempenhou nesse processo.

Mesmo 20 anos depois, o título continua relevante e é jogado por muitas pessoas, seja na versão original ou nos ports lançados para o Virtual Console do Wii e Wii U e na versão remasterizada para DS, que conta com mais personagens jogáveis e estrelas para coletar. Jogá-lo hoje ainda causa em mim o deslumbre de tê-lo visto pela primeira vez naquela tarde de domingo no shopping de São Carlos.

Aquele sentimento bom de conquistar uma estrela!
Existe um pouco de Super Mario 64 em cada jogo de plataforma 3D produzido desde o seu lançamento, às vezes até em outros gêneros, como ação e aventura. As bases criadas pelo título de 1996 ecoam até hoje entre as desenvolvedoras e, se há algo definitivamente difícil de se fazer atualmente, é apresentar novas experiências de jogo que provoquem um impacto tão grande quanto foi a transição do 2D para o 3D.

Talvez o avanço da realidade virtual (VR) nos próximos anos ou o surgimento de novas experiências de videogame possam causar efeito semelhante no futuro. Se isso acontecer, não duvido que Mario esteja lá para fazer parte desse momento.

Salvar a princesa sempre será a maior aventura!
E você, como foi a sua primeira experiência com Super Mario 64? Jogou na época do N64 ou anos depois? Não deixe de comentar como foi sua aventura pelo castelo da Peach e as lembranças deixadas pelo clássico game do bigodudo.

Revisão: João Paulo Benevides
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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