Discussão

A Nintendo deveria investir em um novo portátil com o fim da vida do 3DS?

Discussão passa por vários aspectos, como a migração da base instalada, elementos técnicos e o sucesso do Switch.



Já são quase sete anos desde seu lançamento em 26 de fevereiro de 2011. Definitivamente, o Nintendo 3DS estabeleceu-se como ícone de videogame portátil após o sucesso do DS e trouxe ótimos momentos aos seus mais de 70 milhões de donos, segundo os levantamentos mais recentes da empresa de Kyoto. No entanto, todo ciclo chega ao fim para que um novo aparelho surja no mercado.


Após o lançamento do Switch, uma grande dúvida lançou-se no ar: estaria a Nintendo planejando migrar o público do 3DS para o console híbrido ou ainda haveria espaço para um novo aparelho totalmente portátil?

Um sucessor para o 3DS

Com o possível fim do ciclo de vida do 3DS em 2018 (muitos ainda falam em 2019 ou até 2020) os questionamentos são frequentes sobre a possibilidade de a Nintendo unificar plataformas de mesa e portáteis através do Switch ou manter a divisão mesmo com o sucesso estrondoso de seu mais recente aparelho.

Em termos de portabilidade, o 3DS domina o setor e consegue manter-se em relevância mesmo com a ascensão dos jogos para celulares. Isso ficou mais que evidente após o lançamento de Pokémon GO (Mobile, 2016) que, além de alavancar a popularidade da série para o público casual, também contribuiu para o aumento de vendas do portátil junto a títulos como Pokémon X/Y (3DS, 2013) e Pokémon Sun/Moon (3DS, 2016).

Até mesmo durante os anos difíceis do Wii U, o portátil apresentou força o suficiente para suprir as baixas vendas de seu irmão doméstico. Títulos de relativo sucesso, como Hyrule Warriors (Wii U, 2014) e Super Mario Maker (Wii U, 2015) chegaram ao 3DS como forma de ampliar o acesso desses jogos à base instalada do portátil, assim como o quarto título da série Super Smash Bros. (Wii U/3DS, 2014), o primeiro com versão portátil.

O 3DS recebeu vários ports do WiiU, em especial a série Super Smash Bros., até então exclusiva de consoles de mesa
Com toda essa relevância, nada mais natural que investir num sucessor. Foi assim com a linha DS após o encerramento da linha Game Boy e também com o 3DS como nova plataforma portátil após os bons anos do DS.

No entanto, um fato interessante é que durante os anos iniciais das novas plataformas, enquanto seus antecessores ainda eram produzidos e recebiam jogos, a Nintendo jamais usou o termo “substituição”. Ao lançar o DS em 2004, ele não era tratado como um sucessor para o GBA, assim como o próprio 3DS não era visto pela empresa como um substituto para o DS.

Inicialmente, nenhum novo portátil era tratado pela Nintendo como sucessor do anterior, fato que eventualmente ocorreu com o passar dos anos
O mesmo vem sendo dito hoje em relação ao Switch. O presidente da Nintendo, Tatsumi Kimishima, afirmou, há um ano, para a revista TIME, que o console, prestes a ser lançado na época, não seria um substituto nem para o 3DS, nem para o Wii U.

Ao analisar a afirmação e confrontá-la com o comportamento da empresa nas épocas de lançamento de aparelhos anteriores, temos duas linhas de raciocínio: a primeira trata da alternância do público de uma plataforma para outra. Ao dizer que um novo console substituirá o anterior, grande parcela dos jogadores pode sentir-se frustrada, principalmente caso tenha adquirido o aparelho há pouco tempo. A sensação passada é de que o antigo não terá mais suporte e de que é preciso comprar o novo. Manter o silêncio torna-se mais estratégico.

A segunda linha de raciocínio aborda os ciclos de vida de consoles domésticos e portáteis, que intercalam-se entre os últimos anos de suporte ao antigo produto e os primeiros anos de suporte ao aparelho mais recente. Oferecer atrativos significativos a um videogame em fim de ciclo dá segurança ao público e a franquia Pokémon, mais uma vez, é exemplo disso, por estar atrelada à venda de consoles.

A franquia Pokémon sempre esteve atrelada ao desejo por adquirir consoles portáteis da Nintendo 
Pokémon Crystal (GBC) foi lançado em julho de 2001, quatro meses após o lançamento do GBA no Japão. Pokémon Emerald (GBA) saiu em setembro de 2004, três meses antes do lançamento do DS no Japão e dois meses antes do lançamento nos EUA. Já Pokémon Black/White 2 deu as caras em junho de 2012, mais de um ano após o lançamento do 3DS, em fevereiro de 2011. O novo portátil ainda não possuía um título da série e a Nintendo resolveu manter a novidade no aparelho anterior naquele momento. Uma segurança em termos de relevância para as bases instaladas.

Podemos verificar situação semelhante em relação ao mais recente título da série, Pokémon Ultra Sun/Ultra Moon (3DS, 2017), embora seu lançamento tenha ocorrido meses após a Nintendo anunciar um novo título em desenvolvimento para Switch durante a última E3. A migração do público entre as plataformas ocorre de forma lenta e manter suporte ao aparelho com maior base instalada faz todo o sentido até que a nova plataforma justifique a mudança de planejamento. Algo até natural na trajetória dos videogames.

Um fato é que o 3DS continua atrativo mesmo em 2018, com o recém-lançado Kirby Battle Royale e mais títulos relevantes na agenda, a exemplo de Shin Megami Tensei: Strange Journey Redux, Persona Q2, Radiant Historia: Perfect Chronology e Dragon Quest XI: Echoes of an Elusive Age. Isso fora a enorme biblioteca de jogos formada desde 2011.

Com uma biblioteca gigantesca de títulos, o 3DS continua atrativo ainda em 2018
Estaríamos talvez vivenciando um momento de transição entre o 3DS e seu futuro sucessor? Embora as vendas do portátil, apesar de mais baixas que antes, continuarem significativas, parece que estamos caminhando para esse cenário. Seria o Switch esse substituto ou a Nintendo ainda planeja levar a enorme base instalada do 3DS para um novo console portátil?

3DS 2.0

Falar hoje em um novo portátil já não significa o mesmo em comparação aos cenários passados da Nintendo, quando um console de mesa convivia em harmonia com a linha de portáteis. A diferença de jogos e de público era evidente, assim como as propostas de cada aparelho. Tudo isso recebeu um grande ponto de interrogação com o lançamento do Switch.

É perceptível a migração das desenvolvedoras em direção ao console híbrido, a exemplo do recente anúncio de The World Ends With You: Final Remix, clássico da Square lançado para DS e que ganhará sua versão remasterizada e com novos conteúdos no Switch em vez do 3DS, plataforma que seria a ideal para recebê-lo, já que utiliza as mesmas duas telas e suporte à jogabilidade distinta do game.

Com o Switch no mercado, haveria espaço para um sucessor do 3DS?
Títulos do Wii U que até então eram portados para 3DS passaram a ser levados para o Switch (Donkey Kong Country: Tropical Freeze, Bayonetta 1 e 2 e até mesmo uma versão definitiva de Hyrule Warriors). O apoio das third parties e estúdios indies também revela um horizonte promissor para o console híbrido.

Como a proposta do Switch é unir a experiência doméstica com a portabilidade, fica difícil estabelecer um cenário no qual um aparelho totalmente portátil consiga conviver em harmonia com outro aparelho que oferece as duas possibilidades. Este novo portátil ainda precisaria ser apresentado de forma a não confundir o público após todo o trabalho de divulgação feito pela Nintendo em torno do Switch.

Entusiastas do 3DS acreditam que seria possível o Switch evoluir lado a lado com um possível sucessor do portátil. Entre os argumentos, estão a tecnologia empregada, o tempo de bateria, a portabilidade mais próxima dos aspectos físicos do 3DS, retrocompatibilidade e preço.

A internet está repleta de suposições sobre o que poderia ser o substituto do 3DS sem gerar concorrência com o Switch
Com processadores ARM já utilizados pela Nintendo desde o GBA, passando também pelo próprio 3DS, a tecnologia atual abriria espaço para um aparelho com poder semelhante ao Wii U, com resolução compatível a uma tela menor através de um dispositivo com bateria mais eficiente e que pudesse proporcionar mais tempo de jogo que a bateria atual do Switch.

Seu formato, semelhante ao do 3DS, transmitiria segurança e familiaridade, além de rodar os títulos de 3DS por meio da retrocompatibilidade. Tudo isso a uma faixa de preço de até 150 dólares, hoje metade do preço de um Switch. Este é o valor atualmente taxado para o New 2DS XL, lançado em junho do ano passado e que trata-se de uma revisão do New 3DS XL, com design diferenciado e sem a opção 3D.

Em quase oito anos de vida, o 3DS passou por várias revisões de hardware, sem sugerir a necessidade de um sucessor
Esse possível sucessor do 3DS poderia ser apresentado ou anunciado na E3 2018 com lançamento para 2019 e seria uma opção para os donos de 3DS se manterem na linha portátil sem migrar para o Switch. Porém, com esse pensamento, entramos em outras questões: os 70 milhões de donos de 3DS já estão migrando para o Switch? Colocar no mercado dois aparelhos que buscam, de certa forma, o mesmo público não seria arriscado para a Nintendo? E se houvesse uma versão mais barata do Switch no futuro?

Switch-Mini

O Switch atualmente recebe tanto títulos desenvolvidos com viés de console doméstico quanto títulos pensados para uma experiência portátil. A biblioteca já é bastante significativa, com o diferencial de podermos jogá-los em qualquer situação. É possível colocar The Legend of Zelda: Breath of the Wild (Wii U/Switch, 2017) em modo portátil, como também experimentar o recente Celeste (Switch, 2018) na tela da TV.

A portabilidade do Switch chama a atenção de muitas pessoas que viam essa proposta apenas no 3DS
Boa parte das dúvidas que permeiam um possível sucessor para o 3DS podem ser solucionadas com uma provável revisão de hardware do Switch, o até então chamado Switch-Mini, desenvolvido com componentes e aspectos que possam baratear seu custo final.

Muitos falam numa versão de Switch essencialmente adaptada ao modo portátil (sem possibilidade de destacar os Joy-Con), com bateria mais eficiente, mas que também pudesse ser conectado à TV com opção de suporte ao Pro Controller. Com uma redução de preço que justificasse a mudança (algo em torno dos 200 dólares), a atratividade do aparelho poderia ser definitiva para os donos de 3DS que ainda não se decidiram a respeito do console híbrido.

Diversos conceitos não-oficiais já apontam em direção ao que poderia ser uma versão mais "portátil" do Switch
Outro fator relevante é justamente o lançamento de um título da série principal de Pokémon para Switch, situação que quebrará a tradição da franquia em ter seus episódios canônicos ligados sempre a um aparelho unicamente portátil. Isso, por si só, diminuiria muito as chances de lançamento de um sucessor para o 3DS, por ser um dos games que mais influenciam a decisão de compra de um portátil da Nintendo.

O simples fato de que isso já está acontecendo diminui bastante as possibilidades de a Nintendo estar trabalhando num novo portátil
Uma questão final para a discussão: o que um sucessor do 3DS faria que o Nintendo Switch já não faça ou que um Switch-Mini não poderia fazer? Eliminando aspectos como a visão em 3D, já abandonada na linha 2DS, e a retrocompatibilidade, o que sobraria como diferencial para um novo portátil? A própria ideia por trás do Nintendo Labo e o uso criativo do Switch também coloca uma interrogação sobre como um sucessor do 3DS atuaria em relação ao público infantil. Tudo parece convergir em direção ao console híbrido.

Atualmente, faria mais sentido investir numa revisão para Switch que busque mais elementos de uma experiência portátil do que investir num novo aparelho que talvez possa não ter tanto apelo, a menos que a Nintendo nos surpreenda novamente com uma proposta inovadora que apenas um dispositivo unicamente portátil possa oferecer.

Seria mesmo o Switch o novo herdeiro da família Game Boy, DS e 3DS, numa grande convergência de mercado doméstico e portátil?
Esperamos que essa discussão possa abrir novos diálogos e visões diferentes. Nada é presumível quando se trata de Nintendo e por isso queremos que você também compartilhe sua opinião sobre qual seria a melhor maneira de trabalhar um sucessor para o 3DS ou se o próprio Switch já é esse substituto.

Revisão: Vitor Tibério
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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