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Análise: Icey (Switch) quebra a quarta parede e apresenta um sólido jogo de ação

Título indie tenta combinar o melhor do hack n’ slash com uma narrativa incomum.

















Entrando na onda dos recentes relançamentos de indies para o Switch, Icey (Switch) é um ambicioso jogo de ação em 2D desenvolvido pela FantaBlade Studios, ou isso é o que eles querem que você pense. Cheio de quebras da quarta barreira e narrativas complexas, Icey pretende misturar ação frenética com uma história que busca se comunicar diretamente com o próprio jogador, similar a jogos como The Stanley Parable (Multi) e Undertale (Multi).


O título, que fora candidato no Video Game Awards 2018 como melhor jogo chinês do ano, se arrisca tentando inovar com uma narrativa bem ambiciosa que funciona por meio de um narrador onisciente que conduz a história do jogo através de suas falas. No entanto, cabe ao jogador a decisão de seguir ou não o que ele manda, de forma que ficamos sempre nos perguntando se o que ele conta é verdade ou mentira. Se interessou na premissa? Descubra o porquê vale a pena acompanhar esta aventura em nossa análise do jogo.

Busque a sua verdade


Logo no início, após uma espécie de “tutorial”, o jogo apresenta sua trama básica por meio da voz de um narrador onisciente. Por meio dele, descobrimos que, na verdade, aquele tutorial era apenas uma simulação e a nossa protagonista conhecida como Icey, uma garota robô, estava hibernando profundamente dentro de uma câmara. De acordo com o narrador, Icey precisava acordar para salvar o mundo de um temido ditador apocalíptico conhecido como Judas. Ou seja, uma história de aventura bem básica, pelo menos por enquanto.

Após o despertar da protagonista, o narrador se junta a Icey e começa a guiá-la em sua jornada, que nem uma fadinha de uma conhecida franquia da Nintendo. Logo nos primeiros minutos de aventura ao lado do narrador, é possível notar que ele tem consciência de que você está jogando um jogo de videogame, por causa das constantes quebras de quarta parede que ele proporciona quando as suas decisões como jogador não vão de encontro com a narração dele.

Seguir ou não o narrador pode acarretar em diferentes possibilidades de falas e caminhos alternativos que sempre deixam um indício de que existe algo por trás de toda esta história. Para completar a cereja do bolo da conspiração, muitas ações do narrador e toda a parte estética dos menus e loadings do jogo deixam claro uma grande inspiração em aplicativos de programação de videogames.

Com suas devidas exceções, pode se dizer que a maior parte do enredo do jogo é praticamente construído em volta dessa dinâmica entre o jogador e o narrador, que definitivamente aumentam a curiosidade na história ao gerar dúvidas e mais dúvidas sobre o verdadeiro objetivo do narrador.




Complicando um pouco demais

Quando analisamos o enredo do título como um todo, entre o exposto pelo narrador e o que ele acaba indicando sem querer, descobrimos que Icey (Switch) está tentando nos contar duas histórias ao mesmo tempo. É uma ideia esquisita a princípio, mas para simplificar, pode-se dizer que a narrativa do jogo se divide em dois focos totalmente diferentes, uma delas é a narrativa do mundo do “jogo” em si, na qual enfrentamos Judas e seus aliados em um mundo pós-apocalíptico, e a outra se trata da sua história como jogador buscando a verdade que o narrador supostamente está tentando esconder.

Essas duas narrativas se interligam uma com a outra de forma bem confusa e interpretativa. Por exemplo, toda vez que se revela um segredo escondido do narrador, ele acaba “reiniciando” o jogo e te mandando para o seu último checkpoint. Durante o loading entre estas cenas, uma pequena mensagem sobre a verdadeira lore do mundo do jogo aparece rapidamente a disposição dos olhos do jogador. Essa é a única maneira de conhecer mais sobre o enredo de Judas e o mundo de Icey, fora as pouquíssimas informações que o narrador solta de vez em quando.

Até aí tudo bem, o verdadeiro problema acontece porque essas mensagens importantíssimas para o enredo, além de desaparecerem num piscar de olhos, contêm informações e termos extremamente filosóficos, complexos e interpretativos.


Se isso não fosse o bastante para confundir o jogador, saiba que as mensagens não seguem ordem de desbloqueamento, ou seja, se você sem querer deixar passar alguma delas, a mensagem perdida será pulada completamente e você ficará sem saber o que aconteceu entre esse vácuo sem nenhuma indicação de que alguma peça importante foi pulada.

Portanto, a história do jogo, que aparenta ser bem simples superficialmente, acaba se tornando complicada e ambiciosa demais graças a essa convergência confusa de dois plots. No entanto, se você está disposto a tentar entender todas as entrelinhas que o enredo apresenta, podemos garantir que pelo menos a trama apresenta um enredo bem profundo e misterioso, apresentando conceitos e ideias talvez nunca antes vistas em um videogame. Ah, e prepare-se emocionalmente para uma certa cena...


Perfurando inimigos em busca de respostas

Se existe algum quesito em que Icey consegue superar a qualidade de sua narrativa única, com certeza é a mecânica de combate. Cada confronto com inimigos sempre é bem frenético e cheio de possibilidades graças ao extenso arsenal de combinação de golpes que o jogo apresenta. Os controles do jogo respondem bem, as animações de todos golpes são deliciosamente satisfatórias de assistir e inventar combos no meio das lutas é extremamente divertido.

Podemos usar como exemplo de como Icey oferece combates de primeira qualidade citando o game design do jogo que premia a ação frenética e a criatividade do jogador em criar combos por meio de uma mecânica que funciona de acordo número de hits executados. Basicamente, quanto mais hits você executa em um curto período de tempo, maior será o aumento de força na Icey enquanto a hitstreak não acaba.

No entanto o combate também peca em certos aspectos. Os inimigos do jogo, de início, são bem divertidos de se lutar contra, mas depois de um certo tempo, a pouca variedade de golpes e a movimentação previsível que cada um apresenta acaba tornando o combate contra eles enjoativo e repetitivo demais.


Explorando as verdades e mentiras

Apesar de ter sua gameplay focada principalmente na ação, Icey também estimula a exploração por meio dos inúmeros caminhos e “easter eggs” alternativos que o título oferece.

Ouvir apenas uma simples fala do narrador dizendo o caminho que o jogador deve seguir, já desperta em você um desejo de encontrar uma saída secreta para jogar na cara do narrador. É comum ficar bisbilhotando e rejogando todas as fases só para ficar procurando todos esses pequenos segredinhos e informações que transbordam em cada estágio.

Como todo bom jogo de hack n’ slash contemporâneo, Icey também apresenta um sistema de upgrades de habilidades e combos. Porém, diferente dos outros jogos do gênero, os upgrades de Icey acabam mais desanimando o jogador do que o cativando a desbloquear todos os novos golpes.

Isso se deve porque a grande maioria dos golpes já estão habilitados desde o começo e a única melhoria que um upgrade proporciona nas habilidades disponíveis é apenas um mísero aumento no dano. Claro que o combate ainda continua ótimo, mas abrir o menu no meio do jogo e notar que você quase não tem mais nenhum golpe para desbloquear é um pouco desanimador.


Dissecando a programação da mentira

Como era de se esperar de um jogo 2D, Icey roda extremamente bem no Switch, tanto na TV, quanto no modo portátil. Observar Icey se locomover e quebrar cabeças de robôs em meio aos estilosos cenários pré-renderizados do jogo geralmente ocorre sem nenhum problema, com exceção das poucas vezes em que o FPS cai um pouco por causa do enorme número de luzes e explosões que aparecem na tela ao mesmo tempo.

A dublagem do jogo é feita com muito carinho, principalmente porque praticamente só existe um personagem que fala durante toda a campanha. Já que grande parte do charme do jogo se dá pela presença do carismático narrador, é impossível pensar na experiência sem lembrar dos constantes chiliques dele que conseguem ser engraçados em todas as linguagens disponíveis.

As músicas do jogo são bem empolgantes e até grudam um pouco na cabeça, mas depois de um certo tempo acabam enjoando pela pouca variedade disponível. A maioria das composições cumpre o que propõe, mas também não entrega muito mais do que isso. Se você está esperando trilhas sonoras inesquecíveis e marcantes, provavelmente não vai encontrá-las aqui.





O jogo que conversa com você

Apostando em uma ambiciosa e confusa narrativa, Icey acaba ironicamente se sobressaindo em outro quesito: o combate. A fluidez e as possibilidades existentes nas lutas do jogo são definitivamente de cair os olhos, principalmente se considerarmos que o jogo custa apenas 10 dólares na e-shop americana.

Assim sendo, mesmo com vários pequenos defeitos, Icey consegue ser uma rápida e divertida experiência para quem gosta de histórias complexas ou hack n’ slashes frenéticos. Se você não gosta de nenhum desses gêneros, também vale a pena dar uma chance ao jogo pelo extremo carinho que os desenvolvedores colocaram nele. Icey pode não ser para todo mundo, mas definitivamente encontra a “verdade” no coração de quem o aceita.

Prós

  • Mecânicas de combate bem divertidas e com variedades de combos estonteantes;
  • Preço em conta;
  • Estágios cheios de easter eggs e caminhos alternativos incentivam a exploração e o replay;
  • A narrativa é bem interessante e cheia de boas sacadas que quebram a quarta barreira.
  • Ótima dublagem, tanto em inglês quanto em japonês.

Contras

  • Apesar do ótimo potencial, o combate não é bem explorado e pode ficar enjoativo depois de um tempo;
  • Curta duração;
  • A história é bem confusa e pode assustar o jogador.
  • Ser obrigado a repetir os mesmos diálogos e cenas cada vez que se rejoga uma fase pode acabar enjoando;
  • Sistema de upgrade de habilidades é bem limitado.
Icey — Switch/PS4/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch

Revisão: Júlio César
Análise produzida com cópia digital cedida pela X.D. Network Inc.

Rhuan Bastos Rodrigues escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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