Crônica

#Mario30th: Super Mario Bros. (NES)

Toda história tem um começo. Super Mario Bros. foi o precursor do gênero, salvador da indústria e perpetrador das memórias da infância.

Como começar uma boa história? Uma questão que, apesar de custosa, pode ser facilmente sanada através de uma breve averiguação retroativa sobre um dos grandes projetos das lendas vivas Shigeru Miyamoto e Takashi Tezuka: Super Mario Bros. Trata-se da consolidação de uma forma de entretenimento interativo que tomou forma junto à ascensão dos videogames — os personagens Mario e Luigi, encanadores extraordinários de aventuras de fliperama como Donkey Kong e Mario Bros., passaram a fazer parte da vida privada dos jogadores. Em 1985, no console doméstico Nintendo Entertainment System, o jogo foi um dos pilares dos videogames e, com sua simplicidade e a preocupação pura com gameplay acima de qualquer outra característica — algo que, infelizmente, já está em falta —, fez com que seus blocos e canos talhassem uma marca eterna em nossas mais profundas memórias.
Onde tudo começou.

Memórias de um Encanador

Eu me lembro bem. Não como se fosse ontem, mas como um sonho nítido. É uma memória que surge eventualmente, sempre num plano de fundo que, por conta das decorações de barro e azulejos na casa da minha avó, me aparece tão castanho como as roupas do Super Mario na época. Quando pequeno, há vinte anos, meu entretenimento interativo se resumia às minimalistas pistas de Enduro num Atari 2600 o qual chamava de meu; mesmo numa época em que via problemas para encontrar a direção certa do controle! No início dos anos 1990 — pasme —, as crianças ainda brincavam no quintal com seus vizinhos. Consoles de gráficos superiores (leia-se, 8 e 16 bits) estavam apenas começando a pipocar nas casas dos primos de primeiro grau mais próximos. Foi numa destas visitas familiares amistosas que tive meu primeiro encontro com Duck Hunt, Hogan’s Alley e, jubilosamente, Super Mario Bros., o primeiro de todos. Oito mundos, quatro níveis. Cogumelos, canos, moedas e o mais imaculado dos céus azuis. Esta, sim, era coisa de mestre. Era possível sentí-lo fora de todas as suas capacidades; não havia competência prévia ou perícia, apenas a força da intuição na jogada.

Um controle era pouco para a criançada, e nunca fui sonoro no tocante “posso jogar?”. De certa forma, a mim bastava admirar os pontos fortes dos pulos daquele personagem de bigode e suas corridas, que, em mãos inexpertas, sempre terminavam tão rápido quanto começavam. Havia algo diferente numa plataforma de rolagem lateral. A certo ponto, finalmente senti a leveza do controle em mãos e pude mover o Pequeno Mario em seus primeiros passos, infelizmente, rumo à morte certa — aquele primeiro Goomba! Os controles eram precisos: de alguma forma, o jogador tinha plena capacidade de administrar a velocidade e a intensidade dos pulos do personagem. Certamente, maestria foi o que mais fez falta naquele dia, mas as parcas vezes em que guiei o baixinho de boné à bandeira final foram o bastante para desbloquear o meu interesse. Em pouco tempo, aprofundei-me, conheci e salvei a princesa das garras de Bowser, o rei dos Koopas, na época em que ele ainda estava verde.

A música-tema da aventura parecia se casar perfeitamente com o cenário; melodiosa e pegajosa, era difícil tirá-la da cabeça a partir do momento em que a conquistava. O som das moedas, estridente e singular, era a sincera representação auditiva do sucesso. Todos os demais sons de efeitos especiais, desde o tráfego pelos encanamentos secretos aos fogos de artifício da conquista do encanador, são de um requinte que se não se abala por sua própria singeleza. Pelo contrário, variações destes mesmos efeitos de 1985 continuam sendo utilizados pelas equipes criativas da Nintendo.

Admirável Mundo Novo

Hoje, tudo é intuitivo: impregnados na história, os games estão em sua fase mais aprimorada. Apesar da frequente inovação criativa, conceito que não é mais novo. Na mente de uma criança do século passado, porém, dominar os comandos, passar por alguns obstáculos e conduzir o herói às próximas fases é sinônimo de acesso privilegiado a outro mundo. E Mario é, de longe, o trintão que desde o início tem assumido a responsabilidade pelas nossas mais profundas incursões criativas e memórias de guerra.

E o tanto que fez ao coração dos jogadores, também fez a toda uma indústria. Super Mario Bros. chegou às prateleiras em 1985, mas teve uma estreia tímida no Brasil. Lá fora, ajudou a retomar a fé da indústria dos videogames, que passava por maus bocados com a recessão econômica conhecida como o crash norte-americano dos jogos eletrônicos de 1983. Um dos launch-titles mais famosos da história, permaneceu no pódio por um bom tempo como o mais lucrativo software de videogame do mundo, alcançando mais de 40 milhões de unidades vendidas pelo globo. Tamanho é o impacto de Super Mario Bros. sobre a cultura popular como a conhecemos que, em 2010, foi inaugurada uma rua com seu nome na comunidade autônoma de Aragão, na Espanha.

Vivemos agora numa geração que abraça visivelmente o colossal avanço da tecnologia. As silhuetas que figuravam entre os fliperamas nos anos 1980 há muito já têm quem carregue seu sobrenome, e estes, os filhos dos filhos, têm na infância experiências completamente novas e diferentes daquelas que nós, os jogadores da velha guarda, tivemos. No entanto, às novas gerações, também não há o que falte quando o assunto é a série Mario. Hoje, com novos gráficos e elementos literários, os consoles modernos comportam novas caras da velha, velha história que todos já conhecemos — aquela que começou nos 8 bits.

Índice Super Mario Bros. 2 (NES)


Revisão: Jaime Ninice
Capa: Felipe Fabrício
Eduardo Jardim é cartunista, imaginauta e fundador do Reino do Cogumelo, o qual gerencia como profetizam as escrituras do Light Prognosticus. Erudito em Mario, faz freelance no The Kingdom Enquirer em troca de Beanbean Coins.

Comentários

Fórum
Google+
Facebook


Últimas do Fórum

Ver mais

No Facebook

Ver mais