Crônica

Pokémon GO (Android/iOS) e a tarde que passei com meus amigos

Quando Pokémon GO finalmente chegou ao Brasil, resolvi sair com meus amigos e ver o que isso influenciou no nosso mundo.

Dia 3 de Agosto de 2016 talvez fique marcado no coração de muitos brasileiros como o dia em que oficialmente Pokémon GO (Android/iOS) foi disponibilizado em nossas terras para download. Lembro que eu, juntamente com vários amigos, acompanhamos as notícias do novo e criativo jogo dos monstrinhos de bolso desde o seu primeiro anúncio oficial, mais de um ano antes. Para a minha tristeza, meu celular não conseguiu rodar o jogo por causa de uma versão incompatível do sistema Android. Mas isso nunca me desanimou de fato, pois desde pequeno acompanho e curto bastante a onda de Pokémon, seja pelos games, animes, mangás, jogo de cartas e outros derivados.

Desse modo, apenas curtir o clima do jogo com meu grupo de amigos já foi incrível, mesmo que sem a minha conta própria. Assim, quando o tão esperado jogo mobile finalmente foi lançado por aqui, acompanhei de perto a alegria e união dos meus amigos em volta do jogo, ajudei minha namorada a capturar alguns bons monstrinhos enquanto ela dirigia e até acompanhei todos eles em uma aventura em uma das praças de minha cidade, durante uma boa tarde de sábado. Tudo que eu vi naquele primeiro final de semana de Pokémon GO no Brasil vale a pena ser lembrado e é por isso que este texto existe agora. Então antes de dar mais spoilers, vamos começar na ordem certa. Essa história se passa na cidade de Juiz de Fora/MG.

Esse meu jeito de viver…

Como falei ali em cima, desde o primeiro anúncio oficial de Pokémon GO, eu e alguns amigos ficamos eufóricos com as possibilidades que o aplicativo poderia trazer. A ideia do conceito de “explorar tudo e pegar todos” para o mundo real animou até os mais cético do grupo. Mas o tempo foi passando e esse sentimento foi ficando guardadinho em uma gaveta. Entretanto, com o lançamento oficial do jogo na Austrália no início de julho, tudo começou a pipocar de novo.

Vale lembrar que eu e meus amigos crescemos jogando e assistindo Pokémon, colecionando miniaturas e jogando cartas. Claro que temos alguns também no grupo que não prestaram muita atenção na franquia depois de Johto e não fazem ideia de quem é Infernape, Serperior ou até o Greninja. Mas Pokémon é Pokémon. Então, com o lançamento iminente do jogo, o assunto virou tema principal no nosso grupo de amigos no WhatsApp.
O mês de Julho foi praticamente todo de memes tipo esses daí no grupo...
Passamos o mês de julho inteiro na expectativa. Finalmente, na primeira semana de agosto, vi um print em outro grupo de WhatsApp de um sujeito baixando o jogo na Play Store. Corri para lá no meu celular para ver se era verdade, e de fato era, mesmo que no meu celular estivesse os pezarosos dizeres “este dispositivo é incompatível com esse aplicativo”. Mandei um print para o grupo dos amigos e, então, tudo começou a ferver. Todos que podiam começaram a baixar o jogo e a dedicar suas primeiras horas capturando alguns Zubat, Rattata e Clefairy. Daí, veio a ideia de nos encontrarmos em uma praça no centro da nossa cidade para caçar no sábado e ver tudo o que o aplicativo poderia fazer. E assim fomos...

É um novo mundo de aventuras!

Como eu não tinha o aplicativo compatível no meu celular, mesmo que tenha tentado atualizar o meu Android, fazer mandinga, cobrar favores e até testar o aplicativo no celular da minha mãe, não deu certo. Então, para não ficar simplesmente sentado olhando todos, resolvi imprimir um modelo de papercraft de um Pokémon que eu adoro e levar para a praça, armado de tesoura, cola e pinça. Sim, enquanto todos capturavam monstrinhos virtuais (que não eram Digimons), eu fazia o meu próprio de papel e cola. 
Eu no meu grupo de amigos, originalmente.
Quando desci do ônibus no centro da cidade, já me surpreendi com a diferença de público em uma praça próxima a qual íamos nos encontrar. O lugar que antes só tinha alguns moradores de rua conversando, agora exibia várias pessoas paradas em pontos diferentes, a maioria em grupos, mexendo em seus celulares e conversando umas com as outras. Enquanto andava para o ponto de encontro na outra praça, fiquei observando quatro garotos conversando e vi que realmente falavam de Pokémon. Achei aquilo sensacional, mas ainda mais sensacional foi perceber que a minha visão periférica estava vendo algo conhecido por trás daquele grupo, um pouco mais afastado: um dos amigos que eu ia encontrar na outra praça.

Para variar, é claro que ele também estava jogando. Quando pulei nele para cumprimentá-lo ele se assustou perguntando de onde eu tinha visto ele. Contei todo meu choque ao descer do ônibus e ele me explicou que ali tinha uma PokéStop em um monumento da cidade em homenagem aos soldados juizforanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Achei interessante aproveitar um monumento que os moradores daqui mal se lembravam e já comecei a curtir o clima do jogo. Depois de meu amigo reabastecer suas Poké Balls e capturar alguns Zubat, fomos ao encontro do resto do grupo.
E era assim que eu estava vendo o mundo naquele momento...

Um mundo diferente, uma nova emoção

Chegando finalmente no ponto de encontro, minha namorada já estava sentada nos esperando enquanto capturava um Nidoran macho. Alguns minutos depois, outros dois amigos nossos chegaram e uma terceira amiga logo após. Nunca vi meu grupo de amigos ser tão pontual em um encontro antes. A praça, a mais central da cidade, era lar de velhinhos que jogavam dama e purrinha o dia todo, alguns moradores de rua e, além disso, era ponto de encontro de praticamente a cidade inteira. Então, se alguém estava parado na praça, a chance de estar esperando alguém para ir a outro lugar era muito grande. Entretanto, com Pokémon GO, não foi isso que eu vi naquela tarde de sábado.

A praça estava abarrotada de gente. Chutando por baixo tinha cerca de 150 a 200 pessoas paradas por toda a praça. Absolutamente nenhuma estava sozinha, todas em duplas ou em grupos de até dez, caminhavam, conversavam, riam e usavam os seus smarthphones. Quando me deparei com aquela cena, juro que subiu um arrepio na espinha e o garoto de 12 anos dentro de mim sorriu para aquilo. O mundo realmente estava jogando Pokémon e gostavam daquilo!
Só uma pequena amostra...
Não pensem que eram só jovens, não! Mais de três vezes encontrei famílias inteiras que foram passear na praça enquanto capturavam os monstrinhos. Em um outro momento, minha namorada me apontou uma família onde os pais não jogavam, mas torciam para o filho pequeno conseguir capturar os Pokémon que encontrava. Uma amiga minha, mãe de dois meninos e com mais de 30, também foi para a praça com os pequenos, passando uma tarde toda se divertindo com os filhos. E além disso, não foram poucos os casais que eu vi fazendo sua jornada Pokémon em dupla. Enfim, foram cenas para se guardar na memória, com certeza!

Isso tudo eu observei enquanto estava sentado em uma escada no centro da praça, fazendo meu papercraft no mesmo momento em que minha namorada e meus amigos rodavam a praça capturando uma boa quantidade de criaturas. Além, também, do fato da praça possuir três PokéStops, e mais dois nas redondezas, o que ajudava na permanência de muitos treinadores por ali. Outra coisa que vale ser lembrada aqui é o fato de não ter acontecido um “evento” de encontro na praça, simplesmente vários pequenos grupos de pessoas resolveram ir pra lá naquele dia, o que foi sensacional.
Imagem por Tales Rodrigues


DRAGONIIIIIIIIITE!

Parece piada, mas não é! Em um determinado momento da tarde, enquanto já passava da metade da minha obra de arte pokemaníaca, meus amigos estavam ao redor conversando comigo, dois deles, assim como eu, não tinham o jogo no celular e me faziam companhia enquanto os demais corriam pela praça. Naquele momento, uma amiga da roda disse estar usando um aplicativo que mostrava onde tinha Pokémon no mapa. Desconfiei um pouco no início, mas ela disse que há duas quadras dali tinha aparecido um Blastoise. Cara, era um Blastoise.

Eu olhei pra minha namorada, ela entendendo na hora apenas falou: “Se quiser ir lá pode, eu não vou correr”. Peguei o celular dela e pedi para que tomasse conta das minhas coisas, o papercraft iria esperar. Comecei a correr na direção indicada no mapa da minha amiga, quando olhei para trás, um de meus amigos estava correndo junto comigo. Aquela sensação foi muito boa! Me senti uma criança de novo. Infelizmente, quando chegamos no local, não havia Blastoise algum. 
Nunca soube se o app que era furada ou se o Blastoise simplesmente foi embora antes de chegarmos. Mas no caminho, segurando o celular da minha namorada e sua bateria portátil, tive a chance de chocar um Psyduck graças a minha corrida, capturar um Zubat (que surpresa) e encontrar um Pinsir no meio de uma obra, antes de voltar até o grupo. Todos acharam graça da nossa corrida e voltamos a reunião normal. Passado algum tempo, outro fervor surgiu… Mas dessa vez não eram só boatos. Um grupo de jovens passou por nós e a palavra “Dragonite” foi proferida.

Todos armados com um smarthphone com Pokémon GO foram na direção da multidão que começou a se formar. Eu e meus dois amigos ficamos sentados tomando conta das mochilas e eu terminando meu papercraft. Cerca de meia hora depois, nosso grupo retorna aos risos e zoações. Minha namorada e dois amigos pegaram o tão esperado Dragonite. Outro chegou a encará-lo, mas o perdeu, enquanto um terceiro nem chegou a vê-lo. Ali eu vi que a sensação que eu passei correndo atrás do inexistente Blastoise, todos eles também tiveram correndo atrás daquele Dragonite. Finalmente consegui ver pessoalmente algo parecido com o famoso “Vaporeon do Central Park” que correu a internet semanas antes.

É mais um novo dia e a jornada continua!

Enfim o dia acabou, vários níveis foram alcançados, itens pegos e Pokémon capturados. O dia foi prazeroso para todos e durante toda a tarde encontramos, coincidentemente, vários outros colegas e conhecidos que não haviam marcado conosco, mas que também foram para a praça assim como nós. Foi um dia muito bom, cheio de risadas e situações engraçadas. Acreditem, até um policial militar parou por um momento a sua ronda para tentar capturar um Pokémon no meio da praça, se era um Growlithe ou um Arcanine, nunca saberei. 
Achei interessante trazer este relato para vocês, caros leitores, como uma forma de notificar como está o clima de jogatina de Pokémon GO ao redor do Brasil. Juiz de Fora é uma cidade de porte médio, na Zona da Mata de Minas Gerais, há cerca de 3 horas do Rio de Janeiro. Aqui, assim como no resto do mundo, foi bem clara a diferença que Pokémon GO deu aos ares dos locais públicos, principalmente nas primeiras semanas do lançamento. Aquele primeiro final de semana foi sensacional, espero que muitos outros possam aparecer.

Minha criança interior adorou presenciar um mundo onde gostar de Pokémon era normal e não motivo para bullying. Uma realidade onde famílias saem juntos para caçar monstrinhos virtuais e amigos preguiçosos animam a sair de casa e passar um dia inteiro em uma praça, apenas para encontrar com os companheiros e compartilhar experiências de jogo. Querendo ou não, a Nintendo e a Niantic conseguiram o que queriam: cada qual ao seu nível, as pessoas realmente saíram de casa e foram conhecer o mundo, mesmo que fosse um mundo pelo qual passavam todos os dias sem prestar muita atenção. 

 Eu ainda não tenho o aplicativo no meu celular, mas não vi problema nisso. Sempre tenho a chance de jogar pela tela de um amigo ou ajudar a minha namorada em alguma captura. Além disso, sempre fui fã da franquia, então é absurdamente fácil pra mim me manter no assunto dos monstrinhos mesmo sem jogar Pokémon GO diretamente. Daquela tarde de sábado, ficou a boa lembrança de uma situação que nunca antes havia imaginado ser possível, e claro, o grande papercraft que acabou sendo concluído em casa mesmo.



Revisão: Ana Krishna Peixoto
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

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