Crônica

Sob olhares: jogando Pokémon GO (Android/iOS) no interior

As dificuldades dos treinadores Pokémon são inúmeras longe dos grandes centros, mas o preconceito é a maior delas.


Sucesso mundial, o jogo de realidade aumentada Pokémon GO tem gerado inúmeras discussões, acontecimentos bizarros, situações constrangedoras, exemplos de superação e muita diversão. É inegável. Mas nem tudo são flores na caçada de monstrinhos, pelos menos para os treinadores que vivem longe dos grandes centros, como é o meu caso.

Sintomas da febre

Fui pego de surpresa na manhã seguinte a do lançamento de Pokémon GO na Austrália. Fui dormir cedo na noite anterior e, quando levantei para trabalhar, a minha timeline do Facebook estava lotada de amigos passando links para baixar o aplicativo. Assim como a maioria de vocês, fui o mais rápido que pude para baixar o jogo. Foram meses de espera, mas, enfim, estava testando essa maravilha revolucionária.


Estava tão ansioso e elétrico que montei o personagem de qualquer jeito, pois tinha apenas 40 minutos para jogar antes de sair para o trabalho. Mal o jogo começou, fui logo apertando na primeira coisa que se mexeu na tela, e, para a minha surpresa, já era dono de um lindo Bulbasaur (apertei tão rápido que só fui saber que era possível capturar os outros inicias horas depois).


O jogo era incrível. Cheguei no trabalho e já consegui um Pidgey. Fui almoçar na casa dos meus pais e arrumei um Zubat. Estava eufórico. Trabalhei o dia inteiro só pensando na chegada em casa a noite, e a espera valeu a pena, pois capturei um Abra assim que abri a porta. Infelizmente, como vocês devem imaginar, o jogo parou de funcionar logo em seguida.

A euforia 

Foram longos dias de espera. A cada novo rumor, a esperança de poder jogá-lo novamente aumentava. Contudo, a demora era um sofrimento, as pessoas já não falavam tanto no jogo. O trem da hype passava, eu pensava. E quando poucos faziam plantão, eis que Pokémon GO dominava o território brasileiro, como muitos sonharam ao longo de praticamente um mês.


Tudo parecia maravilhoso. Infinitas postagens de amigos capturando seus Pokémon favoritos, memes de todos os tipos, textos reflexivos dos “adultos” de plantão. Parecia que o país inteiro estava jogando e sendo feliz. Mas comigo não estava sendo bem assim.

A realidade

Sim, baixei o app alguns poucos minutos após sua liberação. Lá estavam meus monstrinhos conseguidos naquelas primeiras 24h de alegria. Tudo ia bem. Novos Pokémon aparecendo, ainda restavam muitas pokébolas. Mas os dias foram passando, os itens acabando, os Pokémon não apareciam mais com a mesma frequência em casa ou no trabalho. Eu tinha que caçar.


Foi justamente nesse momento que não me restavam mais opções, a não ser sair e procurar por novos bichinhos, que comecei a viver a dura realidade de jogar Pokémon GO numa cidadezinha do interior. Daí em diante, vieram dois grandes problemas. O primeiro: Não existe um único PokéStop na minha cidade. Nada. Indo além, não existem PokéStops nas cidades vizinhas, que são as que a minha esposa trabalha e a outra é a que eu trabalho. Nenhuma, muito menos um Ginásio. Como posso jogar nessas condições? Bom, você deve estar pensando: “gasta dinheiro, compra as moedas”. Poderia até fazer isso, mas, convenhamos, pouco adiantaria.


Sem conseguir novas Pokébolas, ovos ou qualquer item vindo de uma PokéStop, só me restava sair por aí procurando monstrinhos. Isso já me faria um treinador muito feliz, mesmo tendo que aguentar os screenshots do meu irmão ostentando seus Pokémon capturados em Natal, capital do nosso Estado. Porém, aí entra o segundo problema: sair na rua como um mestre foi bastante curioso, para não dizer constrangedor.

Espanto 

Caso você more em um grande centro, ou em uma cidade de médio porte, deve estar acostumado a ver todo tipo de pessoa andando por aí com seu celular mirando Pokémon. Crianças, jovens, adultos e idosos passeiam tranquilamente, sozinhos, acompanhados e em grupos. E as pessoas nem se importam, pois ninguém se preocupa com a vida dos outros em lugares assim. Cada um segue sua jornada, na vida ou no mundo Pokémon, da forma que bem entender. Mas numa cidade pequena, onde todos se conhecem e se sentem no direito de se preocupar com a vida do outro, a situação é bem diferente.


Como tenho amigos de todos os cantos do Brasil nas redes sociais, principalmente os colegas de GameBlast, vejo constantemente fotos de suas andanças por parques lotados de treinadores e tudo mais, pensei que as pessoas não se preocupariam em ver os outros se divertindo por aí com o jogo. Engano meu. As pessoas por aqui julgam a forma como você se veste, anda, trabalha, comporta-se, e, claro, joga Pokémon.

Jornada solitária 

Quando resolvi sair de casa para jogar, logo estranhei a falta de outros jogadores nas ruas. Não era possível que eu morasse num lugar tão isolado ao ponto de que ninguém mais estivesse interessado em Pokémon GO. Não via ninguém. Pior, as pessoas é que me viam, e não era com bons olhares.


Naquele momento do lançamento do jogo no Brasil, a cobertura da mídia já tinha feito com que qualquer um soubesse do que se tratava o jogo. Então até aquelas senhoras que costumam gastar horas preciosas de suas vidas sentadas em cadeiras de balanço nas calçadas em frente a suas casas e nas casas de vizinhos já sabiam sobre o jogo. Sendo assim, quando um cidadão de quase 1,90 de altura e 90 quilos, barbudo, passava com um celular na mão, elas/eles já imaginavam do que se tratava.

Sob olhares

Em meio a muitos olhares curiosos, espantados e de reprovação, continuei jogando e prestando mais atenção nos comentários. Ouvi de quase tudo nas minhas andanças: “Pensa que é criança essa marmanjo”; “Dessa idade, brincando com o celular na rua”; “Com certeza não tem o que fazer”; “Olha só que ridículo”; “Não vai demorar muito para atropelarem ou roubarem o celular desse maluco”; “Você viu na TV o monte de desgraça que esse jogo já trouxe? Não é coisa de Deus”.


Foi um dia bem intenso. Ouvi mais comentários negativos do que encontrei Pokémon de fato. Fiquei um pouco incomodado com a situação, mas ainda mais com a falta de outros jogadores. Não era possível que apenas eu estivesse jogando ali. Passei a procurar relatos de outros jogadores em comunidades, conversar com amigos de pequenas cidades, e todos diziam o mesmo: “as pessoas ainda não criaram coragem pra enfrentar o preconceito no interior”. Mas a situação mudaria um pouco.

Enfrentando o desafio 

Nos dias seguintes, observei o verdadeiro início da febre Pokémon. Muitas crianças jogando na rua com os amigos, pessoas comentando por toda a parte. Ouvia gritos de “PEGUEI” em frente a minha casa com muita frequência. Também ouvia relatos de vizinhos que riam da garotada procurando monstrinhos por aí. Mas, como bom interior que se preze, os olhares tortos ainda continuavam para os “crescidinhos” que insistiam em se divertir.


Eu, como não ligava com nada daquilo mesmo, continuei saindo. Aos poucos, outros jogadores mais velhos iam fazendo o mesmo, ainda que tímidos: escondendo o celular, fingindo estar em ligação, procurando ruas menos movimentadas. A minha própria esposa não gostava nenhum pouco da ideia do jogo, mas foi só baixar no celular dela que as caçadas em casal começaram.

Luta sem fim 

O preconceito ainda é um problema, pois muitas pessoas não estão aproveitando o jogo por medo do que os outros pensarão sobre elas, infelizmente. Mas não está fácil para ninguém, pois sem Ginásios e PokéStops, jogar é uma verdadeira batalha. Até a internet móvel local é péssima, nos deixando na mão sempre nas horas em que mais precisamos. Por sorte, a paixão dos jogadores e a característica de unir pessoas tão presente em Pokémon GO tem feito com que os treinadores do interior superem todas as dificuldades, divertindo-se com os poucos Pokémon que aparecem, viajando para outras cidades maiores e brincando, com a alma de criança que todos deveriam ter.


E você, caro leitor, tem passado por situações assim na sua cidade? Não deixe de comentar. 
Revisão: Ana Krishna Peixoto

Ítalo Chianca escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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