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Análise: Phoenix Wright: Ace Attorney — Spirit of Justice (3DS) é uma luta pela vida e pela justiça

Phoenix, Apollo e Athena retornam para enfrentar alguns dos casos mais intrigantes da franquia Ace Attorney.


Os membros da Wright Anything Agency estão de volta e têm pela frente missões no bom estilo Ace Attorney. Enquanto o renomado Phoenix Wright se aventura em Khura’in, uma terra que pune os advogados de defesa, Apollo e Athena seguram as pontas pelo chefe durante sua ausência. Marcando finalmente o retorno de alguns personagens queridos da franquia, Spirit of Justice tem muito a oferecer — o que era de se esperar pela marca que carrega.

De Los Angeles a Khura’in

A história começa com Phoenix, que viaja a Khura’in para um aguardado reencontro com sua antiga assistente e amiga Maya Fey. O que ele realmente não esperava era se encontrar envolvido em um julgamento logo após sua chegada na terra desconhecida. Aos poucos, Phoenix descobre que ser um advogado de defesa em Khura’in é muito mais arriscado do que jamais foi em sua terra natal (o que não é pouco, considerando as confusões nas quais ele já se meteu).

O extremamente religioso e devoto reino de Khura’in em nada é amigável com quem decide se interpor nos julgamentos. Na verdade, há uma lei que declara que “aqueles que apoiarem criminosos serão considerados tão culpados quanto eles”. Ou seja: basta falhar em provar a inocência de um réu que a mesma punição nele imposta será aplicada em quem se atreveu a defendê-lo. Persistindo por mais de duas décadas, isso acabou causando uma extinção em massa de advogados no reino.

Os julgamentos em Khura’in, desprovidos de um representante de defesa, levam em conta as circunstâncias apontadas pelo promotor e principalmente o Divination Séance, um rito desempenhado pela jovem princesa Rayfa. Através dos Séances, é possível descobrir o que um falecido vivenciou através de seus cinco sentidos nos seus últimos momentos de vida. Após visualizar as últimas impressões da vítima na Pool of Souls, a princesa tenta compreender o que aconteceu e seus insights são basicamente definitivos — ou melhor, eram, até a chegada de Phoenix Wright. A jovem Rayfa demonstra uma grande insegurança ao ter os problemas em seus insights expostos durante os julgamentos após a chegada de Phoenix em Khura’in, pois até então eles eram tratados como verdade absoluta.
Os Divination Séances trazem uma nova
forma de descobrir o que realmente aconteceu.
É claro que, quando um estrangeiro desconhecido decide interferir nos procedimentos usuais de Khura’in, ele se vê inicialmente sem o apoio direto de ninguém. Entretanto, Phoenix gradualmente marca seu território e mostra suas incríveis habilidades dedutivas e, para não perder a tradição, blefes que apenas ele consegue desempenhar. Sua jornada o leva a descobrir as razões por trás da existência de tal lei e a respeito das crenças do país, enquanto tem que lutar literalmente por sua vida em várias situações adversas. No meio tempo, outras pessoas que não concordam com a lei que pune advogados de defesa preparam-se para causar uma rebelião no reino de Khura’in, incentivados pela revolução que o próprio Phoenix está causando.

Enquanto isso, Apollo Justice e Athena Cykes se veem em circunstâncias complicadas na ausência do chefe, que colocam até mesmo a situação da Wright Anything Agency em risco. Para começar, um show de mágica de Trucy acaba culminando em um assassinato do qual ela é a principal suspeita. Para defender a garota e a dignidade da agência, Apollo e Athena têm que utilizar tudo o que aprenderam com seu mentor até o momento.

Em certo ponto do jogo, a história de ambos os lados se encontra de maneira surpreendente, reservando diversas revelações sobre o passado de Apollo, um momento de protagonismo para Athena e até mesmo um momento de conflito entre Phoenix e seus aprendizes. É interessante notar que todos os três têm certo equilíbrio na participação, o que não foi o caso de Dual Destinies. Com um desfecho intrigante, Spirit of Justice se encerra com um dos roteiros mais bem escritos da franquia, sabendo trazer comédia, drama e as clássicas reações exageradas — afinal, estamos falando de Ace Attorney.

Um seleto e divertido elenco

Os personagens que retornam em Spirit of Justice foram escolhidos a dedo dentre os que já faziam parte do universo de Ace Attorney. Após seu período como detetive, a divertida Ema Skye finalmente conseguiu se tornar uma cientista forense. Ela acaba aparecendo em quase todos os casos do jogo, o que promove a volta da busca por impressões digitais e vestígios de sangue nas cenas dos crimes. Já Maya, cujo retorno era provavelmente o mais aguardado pelos fãs, está quase pronta para assumir a frente de Kurain Village após passar por um longo treinamento em Khura’in. Edgeworth faz uma pequena aparição, utilizando sua influência para abrir portas para Phoenix e companhia. Até mesmo Payne (eu não vou julgá-lo caso você não se lembre dele) tem a chance de enfrentar Phoenix mais uma vez.
Os anos passam, mas Maya será sempre Maya.
Entretanto, a presença dos personagens antigos não roubou o brilho dos que foram introduzidos em Spirit of Justice. Destacam-se: Nahyuta Sahdmadhi, cuja personalidade está entre as mais interessantes de um promotor na franquia; o líder da revolução Dhurke, que surge para expor o elo entre Apollo e Khura’in; e a princesa Rayfa, que passa por um importante processo de amadurecimento quanto ao seu papel nos tribunais e consequente futuro como rainha. A história desses personagens é um dos pontos altos do desenvolvimento do roteiro, que faz questão de responder quase todas as perguntas que poderiam surgir com o desenrolar da trama.
Nahyuta vai fazer você sorrir em alguns
momentos, ranger os dentes em outros.

Hold it!

Uma coisa que não mudou por enquanto é o fato de que não é possível influenciar tanto no roteiro, que persiste em ser bastante linear em se tratando da oportunidade de escolhas. Embora não seja um ponto tão pesado dado o gênero ao qual o jogo pertence, é frustrante não poder apontar alguns fatos assim que são deduzidos pelo jogador, especialmente o de longa data, que já conhece os procedimentos usuais. Um outro aspecto que pode se tornar irritante é a insistência em repetir certos flashbacks (há um diálogo que se repete pelo menos três vezes em um curto período de tempo, por exemplo).

O trabalho de localização deixou o jogo com poucos momentos que nos fazem lembrar do meme Eat your hamburgers, Apollo, embora eles ainda existam. Afinal, desde o começo da franquia, a localização dos jogos alterou o cenário original, Japão, para Los Angeles; eles só não contavam com o crescente número de referências à cultura nipônica. Por mais que não possamos ver as piadas dos roteiristas japoneses em primeira mão, a adaptação dos tradutores é louvável e consegue manter a comédia nos diálogos.
Essa é uma piada recorrente que não deveria ser superada...

Take that!

Spirit of Justice teve todas as suas animações refeitas em relação a Dual Destinies, mas sem perder sua essência — não se preocupe, todas as caretas de Phoenix, Apollo e Athena estão lá — e é simplesmente incrível ver as animações de personagens como Maya e Ema pela primeira vez no 3DS. Isso sem falar na cara de raiva da princesa Rayfa, que é mais fofa que intimidadora. A trilha sonora continua empolgante como a dos demais jogos da franquia. Além dos toques característicos (destaque para a nostálgica música de Maya), a cultura do reino de Khura’in influenciou os novos temas, adicionando um interessante toque místico e religioso.
Adorável.
O novo Ace Attorney traz novamente as mecânicas de Psyche-Lock de Phoenix, faz um ótimo uso do Mood Matrix para descobrir as emoções conflitantes das testemunhas, e o bracelete que ajuda Apollo a revelar a verdade é utilizado em algumas ocasiões. Entretanto, o destaque do jogo realmente são os Divination Séances, que fazem parte do frescor à fórmula da franquia proporcionado por todo o novo ambiente de Khura’in. É necessário prestar bastante atenção ao que a vítima sentia e o que Rayfa deduziu a partir da visão para poder encontrar as contradições.

Em geral, a ideia por trás da aventura é a mesma: apontar as falhas nos testemunhos apresentados e investigar as cenas dos crimes. Com um interessante cenário novo, entretanto, é visível que a franquia Ace Attorney ainda tem muito potencial dentro do gênero de visual novels.

Como em seu antecessor, o jogador tem a opção de consultar seu assistente caso cometa alguns erros durante o júri. Em Dual Destinies, era necessário receber três punições para que a opção Consult fosse liberada, mas agora apenas duas são suficientes. Caso o jogador receba cinco punições no total, não é preciso se desesperar: o jogo continua a partir do ponto em que foi interrompido, com a barra novamente preenchida. Além disso, é possível salvar o progresso praticamente a qualquer momento.

Essas duas possibilidades, por mais que pareçam tornar o jogo mais fácil, não funcionam bem assim: é muito mais proveitoso acertar durante os julgamentos e prosseguir no jogo para descobrir o que vem a seguir. Entretanto, é ótimo poder escolher as ideias mais absurdas, acompanhar as reações dos envolvidos e então poder voltar ao ponto anterior sem maiores penalizações.

Spirit of Justice termina, mas o mesmo não se pode dizer quanto à vontade de continuar investigando e enfrentando as mais diversas situações nas quais apenas os membros da Wright Anything Agency conseguem se meter. Felizmente, vêm aí algumas DLCs para estender o tempo de jogo, incluindo a adição de um novo caso que envolve até mesmo o velho conhecido Larry Butz, que não aparece nos jogos da linha principal desde Trials and Tribulations.
Spirit of Justice é uma entrada sólida e equilibrada na franquia Ace Attorney, proporcionando algumas dezenas de horas de diversão. Talvez não seja o melhor jogo para se começar na franquia, mas apenas pelo fato de Ace Attorney Trilogy estar disponível na eShop do 3DS. Entretanto, não há nenhum empecilho para conseguir aproveitá-lo como introdução a um excelente universo narrativo.

Prós

  • Roteiro e trilha sonora equilibrados entre o cômico e o misterioso;
  • Animações bonitas e exageradas;
  • Alternância de cenários;
  • A mecânica de Divination Séances;
  • Excelente elenco, dentre personagens novos e velhos conhecidos.

Contras

  • Repetições de flashbacks;
  • Impossibilidade de apontar deduções a qualquer momento.
Phoenix Wright: Ace Attorney - Spirit of Justice — Nintendo 3DS — Nota: 9.0
Revisão: Bruno Alves 
Robson Júnior é graduando em Ciência da Computação pela UFCG. No Blast, atua como diretor de redação e revisor. Reserva algum tempo para jogar, ler e escrever, algumas de suas paixões. Você pode encontrá-lo no Twitter e no Alvanista.

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