Blast from the Trash

Alien vs. Predator (SNES): o troço mais genérico vindo do espaço sideral

SNES é um console maravilhoso cheio de clássicos, mas Alien vs. Predator não é um deles.


Os anos 1990, para a cultura pop no geral, foram muito conturbados. Você pode ser uma das pessoas que, assim como eu, ao pegar um quadrinho daquele tempo, suspira, nega com a cabeça tendo um sorriso de deboche no rosto e diz, na melhor voz solidária: “Ah, os anos 90”. Seja tendo uma aula nada precisa de anatomia humana com as páginas de Liefeld, seja atônito com o penteado super “Chitãozinho e Xororó” do Superman, a década deixou sua marca extremamente questionável no universo dos quadrinhos.



Foi na virada de 1980 para 1990 que também surgiu o crossover entre os dois personagens que protagonizam Alien vs. Predator, ambos antagonistas de franquias de filmes que misturam ficção científica e terror. Primeiro em quadrinhos escritos por Randy Stardley e Chris Warner, a batalha entre os seres intergaláticos se expandiu até onde foi a vontade do público de ver os dois trocando sopapos: quadrinhos, jogos e, eventualmente, filmes.

No começo dos anos 1990, então, Activision publicou um beat ‘em up baseado na franquia. O jogo foi desenvolvido pela empresa japonesa Jorudan Co., e conta com um título alternativo para o Super Famicom, Aliens vs. Predator, no plural. O estúdio cometeu alguns erros ao trabalhar com esse game, falhas que poderiam ser relevadas por seu pioneirismo, mas todo mundo sabe que não existe época mais brilhante para o gênero beat ‘em up do que durante a vida do SNES.

Esse foi, realmente, o primeiro jogo baseado no crossover entre os alienígenas. Era de se esperar que os desenvolvedores sofressem certa pressão para criar algo interessante, mas isso nunca deve ser uma desculpa plausível. Nessa altura do campeonato o brilhante Teenage Mutant Ninja Turtles IV: Turtles in Time (SNES) já havia sido lançado, mostrando todo o brilhantismo que o gênero beat ‘em up pode ter.

TMNT IV: O ápice do gênero, com um ano de diferença.

Enfim, existem certos aspectos que devem ser desconsiderados ao analisarmos um jogo beat ‘em up, começando pela sua história e estrutura narrativa. Existem pouquíssimos representantes do gênero que possuem qualquer tipo foco nesses aspectos, já que a premissa do estilo é a pancadaria generalizada e nada mais. Ainda assim, somos agraciados com uma história de introdução, como de costume.

Ela é apresentada em forma de cutscenes, que voltam a aparecer mais adiante com o andamento do jogo. É um esforço nobre de situar o jogador no enredo do mesmo, mas ele é fraco e raso, como esperado. Uma coisa que pode ser elogiada, no entanto: a qualidade das cutscenes. As cenas são brilhantemente pintadas com paletas de cores escuras e conseguem sintonizar o tom de suspense que um jogo baseado numa franquia de terror sci-fi tem. O resto do game continua com essa mesma pegada. Todos os cenários são muito bem desenhados e posicionados, assim como os personagens.


Talvez essa seja o primeiro ponto que desaponta no jogo. Existem dezenas de games desse estilo que utilizam uma tela de seleção de personagem e eles, geralmente, apresentam uma variedade diferente de golpes e combos. Alien vs. Predator conta com apenas o próprio Predador e sua lista de golpes é tão rasa e previsível que você conseguiria encaixar o sprite de qualquer outro personagem de jogo de pancadaria e não faria diferença alguma.

O jogo inteiro conta com apenas os punhos do Predador e uma série de chutes, rasteiras, enfim, ataques físicos no geral. Seu único golpe diferenciado é um canhão que possui no ombro. Diferentemente dos movimentos alternativos da maioria dos jogos, ele exige que o jogador segure o botão para encher uma barrinha, atirando em níveis de força diferente. Geralmente, isso deixa o jogador extremamente vulnerável, já que não pode se mexer, tornando o canhão inútil. Não existe um tiro menos carregado para que dê tempo suficiente para atirar e desviar, então é seguro dizer que você passaria o jogo inteiro apenas batendo nos inimigos.

A riqueza de detalhes merece crédito.

Com o decorrer do jogo, você deve se perguntar se o Predador eventualmente usa suas armas características, como a lança, o disco do pulso, etc. Através de itens espalhados pelo cenário, o jogador pode acessar cada um desses equipamentos por tempo limitado, usando uma das clássicas características do gênero. Isso é um tanto decepcionante, considerando como você anseia por usar essas armas e depende da constante boa vontade do jogo para tanto.

Cobrimos o próprio Predador (pouquíssimos parágrafos para descrever um personagem tão cheio de truques), agora vamos analisar os Aliens. Eles possuem uma certa variação em suas formas, mas, tirando sua força, não há muita diferença na estratégia empregada para detê-los. Os facehuggers também fazem uma aparição no jogo, sendo provavelmente o inimigo mais irritante de todos ao manter-se no chão. O que realmente chama a atenção são os chefes e seus design mais originais entre um e outro, sem contar com certa modificação em seus padrões de movimento e golpes (único momento do jogo onde o jogador é impelido a fazer algo diferente sem ser surrar o controle).


A trilha sonora merece um lugar especial no pódio de mediocridade desse jogo. Tirando a música de abertura, não há nada que remeta ao tom sombrio dos gráficos, nada para situar o jogador naquele universo misterioso de um filme de terror. Partindo da primeira fase, são pouquíssimas as músicas que possuem um tema que puxe o jogador para o ambiente sci-fi, e, mesmo assim, são arruinadas por pedaços mais agitados e genéricos que poderiam muito bem se encaixar em qualquer outro jogo.

Eu entendo que talvez os desenvolvedores tiveram o gênero beat ‘em up em mente quando encaixaram a trilha sonora, não o tema dos personagens e de seu universo em si. O fato é que Alien Vs. Predator não precisa de uma trilha sonora agitada que lembre o jogador o tempo todo que aquele jogo foi feito para bater em bichos feios. A trilha sonora deveria situar o universo que o rodeia: por mais cheio de ação que seja um jogo desse gênero, os alienígenas imploram por uma trilha mais bem estruturada, que invoque mais sentimentos de suspense, terror, até mesmo passagens mais minimalistas e não tão cheias de instrumentos tocando trilhas tão aleatórias em simultâneo. Eu sinto que muitas dessas músicas poderiam ter sido usadas em um jogo da franquia F-Zero (se ela fosse ruim).

Por fim, o jogo apresenta um level design desinteressante. Os cenários eventualmente parecem todos iguais, não há nem de perto o tipo de variação para te tirar da monotonia eventual que esse jogo precisa. Pense em jogos como o já citado Turtles in Time ou até mesmo clássicos bem mais antigos como Battletoads (NES). Há um empenho muito maior em trazer variação para o estilo de gameplay, para cada fase, tornando a experiência o menos repetitiva possível.

Uma série sem fim de plataformas descendentes é a coisa mais próxima de variação.

Para fechar o pacote tedioso, Alien vs. Predator é um jogo extremamente curto. Existem em torno de sete áreas e seis chefes. Um número totalmente normal para um jogo estilo arcade, no entanto, eu sinto que Alien vs. Predator poderia ter sido muito mais do que isso. Citando Turtles in Time de novo, veja como ele se estende, como fica cada vez mais interessante. O decorrer de Alien vs. Predator é uma interminável batalha interna e certamente não há nenhum sentimento de satisfação ao completá-lo, apenas o alívio de ter terminado uma tarefa entediante.

Claro, com um jogo tão excruciantemente genérico, fica o questionamento: o jogo ser curto é uma coisa ruim ou boa?


Revisão: Vinícius Veloso
Yorran Rosa Bergamaschi escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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