Jogamos

Análise: Golf Story (Switch) prova que misturar golfe com RPG pode ser uma tacada certeira

Além dos elementos de RPG, este competente simulador de golfe é recheado de bom-humor e irreverência.

Quem diria que em meio a grandes franquias consagradas como Mario, Zelda e Mario Kart, um jogo indie de golfe seria um dos imperdíveis títulos exclusivos do console híbrido da Nintendo. Golf Story é um RPG estilo 16-bit com todo aquele charme e irreverência dos clássicos da época, sendo Earthbound uma clara referência. O jogo segue a mesma linha dos bons indies saudosistas dos últimos anos, como Undertale ou Stardew Valley, no entanto as inspirações mais óbvias são os fantásticos RPGs de esporte da Camelot para o Game Boy Color: Mario Tennis e Mario Golf do fim da década 90.

E quem disse que golfe é chato?

Assim como nos velhos jogos da Camelot, o jogador encarna só mais um cara qualquer que decide testar ao máximo as suas habilidades em um determinado esporte, nesse caso o golfe. Somos apresentados a esse protagonista sem nome, que lembrando com saudades o tempo que jogava golfe com o seu pai, e após um desagradável divórcio, decide voltar aos campos, desta vez com o claro objetivo de se tornar o melhor. Como é de se esperar em um RPG, durante o processo você vai encontrando outros personagens, participando de torneios, subindo de nível, melhorando atributos, comprando novos equipamentos e até participando de alguns interessantes modos alternativos de jogo (frisbee e mini-golfe principalmente). Tudo isso envelopado por uma história simples, mas cativante, e o tradicional humor australiano da desenvolvedora Sidebar Games.



O foco da experiência é o golfe e as mecânicas são surpreendentemente complexas, além de muito agradáveis. Existem fatores externos como direção do vento e desnível do terreno (talvez a parte mais confusa do gameplay, dada a natureza 2D do jogo), mas a verdadeira diferença na trajetória da bola está nas mãos do jogador: aspectos como tipo de taco determinam a força e a distância, a escolha de onde bater na bola define a curvatura e a precisão da jogada, e a tacada é finalizada com o típico timing na hora de pressionar os botões. O feeling das jogadas é bastante satisfatório graças ao HD Rumble (a “tremida” do controle) do Switch - você realmente sente a pegada de cada tacada e a diferente sensação dos possíveis terrenos onde a bola pode cair, como na água, em um montinho de areia, ou quando ela enfim acerta o buraco.

A história se estende por mais ou menos umas 16 horas em oito áreas distintas (deserto, praia, neve e coisas do tipo), que são os diferentes clubes de golfe desse pequeno mundo, todos climatizados por trilhas-sonoras temáticas que incorporam perfeitamente o espírito tenso, porém calmo, do esporte. A diversão é garantida enquanto você tenta melhorar o seu número pessoal de tacadas em cada um dos buracos entre esses “mundos”, conquistando os percursos de golfe no caminho quase como um treinador pokémon faria com os seus ginásios. Geralmente, uma série de curtas missões se coloca entre você e o percurso de determinada área - tarefas que algumas vezes fogem do golfe, como participar de uma corrida, jogar bolas com a mão ou procurar um ou mais itens específicos e entregar para um NPC . Essas missões podem se tornar repetitivas às vezes, só que as situações são tão engraçadas e os diálogos tão bem escritos que dificilmente o jogador vai se sentir incomodado.



Poder participar deste mundo, por vezes um tanto cruel, de Golf Story é um deleite. Os intrigantes membros do clube de golfe do protagonista, mesmo em frente à indiscutível habilidade do jogador, tendem a duvidar da sua habilidade constantemente, criando diálogos e situações hilárias, além de instigar ainda mais o jogador (tanto na vida real quanto o personagem da trama) a querer provar o seu valor como golfista. Considero a personalidade do protagonista um ponto alto da história, contrariando o tradicional personagem principal de RPG calado e sem opiniões: o golfista sem nome possui convicções, além de uma certa ingenuidade otimista que o torna bastante carismático em frente a um mundo tão malicioso.

Porém, o universo do jogo não é composto apenas por NPCs questionadores que atrapalham a sua vida: cada zona conta com vários pequenos segredos a serem descobertos e locais para você interagir, que podem envolver o golfe ou não, embora a maioria dependa da sua habilidade com o taco. Mesmo com poucos elementos, explorar cada cantinho desses belos clubes de pixel art é muito divertido e é uma parte integral da experiência do jogo. Atividades como acertar tacadas em tartarugas no meio da água, ou usar o taco para cavar objetos encontrados com um detector de metal, surpreendem positivamente e não deixam o jogo virar apenas uma sucessão de partidas de golfe. Em uma das minhas andanças pelo mapa, por exemplo, eu encontrei um mini-game baseado no jogo Golf do NES, chamado Galf, completo com oito fases e um longo manual de instruções bastante piadista.


Uma incrível, porém curta, jornada

O maior ponto negativo de Golf Story é o tamanho, pois o mundo pode parecer um tanto vazio. Explorar cada uma das áreas é extremamente agradável, mas você consegue fazer todas as coisas disponíveis (incluindo avançar a história) relativamente rápido. As vezes em que você enfrenta diretamente um personagem controlado pela IA, por exemplo, são divertidíssimas, estando anos luz à frente da experiência de enfrentar o computador em diversos jogos, no entanto, você só participa desse tipo de competição pouquíssimas vezes durante todo o jogo. O sentimento geral do título é que ele ainda poderia ser muito mais, no sentido de quantidade de conteúdo mesmo, não na qualidade. Pessoalmente, aguardo ansioso um possível Golf Story 2 no futuro.

Talvez o intrincado sistema de golfe do jogo tenha roubado um pouco do espaço para mais conteúdo e isso é totalmente plausível. Por sorte, não só podemos relaxar e jogar umas partidinhas de golfe rápidas no modo Quick Play, como é muito fácil de se fazer isso com um amigo. Golf Story conta com um muito bem-vindo modo para dois jogadores que casa perfeitamente com a portabilidade do Switch. Nada como poder resolver aquela rixa com o brother rapidamente e na arena mais adequada - o campo de golfe.



Fica aqui também uma menção honrosa para como o diálogo funciona durante o modo história. Os balões de diálogo são vivos, ativos e animados, auxiliados por uma fonte bastante moderna (em contraste ao visual do resto do jogo) e pelo HD Rumble do Switch. Nunca as falas de personagens 16-bit foram tão expressivas quanto em Golf Story, o que diz muito sobre o espírito do jogo. Golf Story é um prazer de se jogar por ser curto e descomplicado, mas também oferece um bom nível de desafio e profundidade. Pelo preço, o bem amarrado RPG de golfe da Sidebar Games certamente merece uma vaga na sua coleção do Nintendo Switch.

Prós:

  • Lindos Gráficos estilo 16-bit;
  • História engraçada e cativante;
  • Simulador de Golfe competente;
  • Modo para dois jogadores.

Contras:

  • Mundo um tanto vazio;
  • Duração curta;
  • Às vezes pode ser um pouco repetitivo.
Golf Story - Nintendo Switch - Nota: 8.0
Revisão: Farley Santos
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo redator
Raoni Pinheiro escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook