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Análise: Neurovoider (Switch) — robôs, explosões e sintetizadores

O RPG futurístico de tiro da Flying Oak Games combina perfeitamente com o Switch.

Neurovoider começa sem enrolação: poucos minutos após ligar o console você já se encontra soltando raios e foguetes em diferentes robôs assassinos e mexendo a cabeça freneticamente ao som da empolgante trilha sonora synthwave, de Dan Terminus. Pode ter certeza que você também vai morrer em poucos minutos e logo começar tudo de novo, mas não tem problema nenhum, o processo só vai ficando mais viciante e divertido. O “RPG futurístico de tiro com dois analógicos” (em tradução livre) da Flying Oak Games segue o ciclo vicioso de destruição do hack’n’slash e o grind constante típico do gênero roguelike (ou mais apropriadamente, nesse caso, roguelite), como FTL ou The Binding of Issac: fases geradas randomicamente, muitos itens a serem coletados, alta dificuldade e morte permanente.

Antes de começar a destruição a muito a aprender

Após escolher um dos três níveis de dificuldade disponíveis (nenhum deles sendo realmente fácil), você encarna um cérebro que se liberta da sua prisão criogênica, e rapidamente é orientado por um pequeno robô a escolher entre três novos corpos robóticos; que são as diferentes classes disponíveis no jogo, todas com as suas próprias habilidades especiais. Dash, o menor e mais rápido, consegue correr entre balas e evitar dano; rampage, o balanceado, pode utilizar as duas armas em conjunto para disparar um ataque mais forte; e o fortress, além de ser mais lento e pesado, possui a habilidade de se desativar temporariamente para criar um escudo protetor. Independentemente da classe escolhida, você está livre para trocá-la a qualquer momento entre as fases, e usar qualquer combinação de duas armas (mapeadas no ZL e ZR dos Joy-Con) entre os vários tipos disponíveis, classificados pelo tipo de tiro, como balas, raios, líquidos, granadas, frags e foguetes.









Além da habilidade exclusiva da classe, o jogador está livre para escolher mais uma skill entre um grande número de movimentos especiais, ativos ou passivos. O tutorial já começa com uma pequena cura ativável, mas existem várias outras bem mais específicas: um curto teletransporte; uma vida extra por nível; ou até algumas, para os jogadores mais experientes, que dificultam o progresso, ou favorecem o desenvolvimento de uma build específica, como a habilidade de só receber um tipo de arma, por exemplo. Essa skill secundária não pode ser usada com tanta frequência por que depende da coleta de pequenos cristais, que aparecem após destruir inimigos, para ser reativada. No entanto, a habilidade de classe, assim como qualquer tiro disparado, consome uma barra auto-renovável de pontos de energia (EP), cujo bom uso é essencial para o progresso entre as incansáveis hordas de robôs de cada nível; se os EP acabarem, você superaquece e não pode fazer nada além de andar, até a barra se encher por completo.

O objetivo de cada nível é destruir todos os reatores, derrotando uma quantidade considerável de robôs malignos durante o caminho. Antes de entrar em uma nova fase, você irá se deparar com três opções de estágio para escolher; diferente locais que podem variar em três condições: o tamanho, que geralmente determina quantos reatores vão aparecer em cada fase; a quantidade de inimigos elite, os adversários mais durões que deixam itens melhores para trás; e a quantidade de equipamentos e armas presentes para serem coletados no estágio. Após passar por quatro estágios, você sempre enfrentará um chefão de dificuldade crescente e ao longo desses estágios, você sempre terá a opção de jogar um nível especial. Os níveis especiais são consideravelmente mais complicados, porém, além de possuirem uma grande quantidade de loot, completar um desses estágios dá o direito de pular um nível na hora que você quiser. 


Outro direito que você tem entre os estágios é o de resetar o RNG (o gerador de aleatoriedade) e mudar a escolha de níveis, potencialmente melhorando a oferta de itens e alterando a dificuldade das ameaças. A primeira vez que você escolher resetar as opções disponíveis será de graça, mas, posteriormente, você terá que gastar cada vez mais da moeda do jogo, os scraps (sucata mesmo), que só podem ser adquiridos quando você decide se desfazer de alguma arma ou equipamento coletado. Após o final de cada nível, você é transportado para essa tela de intermission e se depara com várias opções de gerenciamento do seu robô e possível investimento de scraps, que podem ser gastos gerando um novo item aleatório, melhorando as armas e equipamentos que já tem, ou até curando parte da sua vida, para que possa enfrentar o próximo desafio totalmente preparado. Afinal, entender e controlar todas essas possibilidades é crucial para o seu desempenho em Neurovoider.

Diversão infinita (e multiplayer, se quiser)

A primeira hora explorando o mundo de Neurovoider pode parecer complexa, e talvez até seja mesmo. No entanto, isso só ocorre por que o jogo é lotado de escolhas e possui um espaço enorme para a criação de uma experiência única. Às vezes, a sua run (tentativa de vencer o jogo) vai durar quatro minutos e logo em seguida a próxima já pode se transformar em uma longa jornada de uma hora e meia, que ainda assim termina em morte e frustração. A morte permanente com certeza é a parte mais frustrante dos roguelikes, mas esse aspecto também acrescenta um valor único para cada vez que se joga. Na tela inicial, o seu cérebro sempre recebe um nome original gerado aleatoriamente, como Erin77 ou Tula29, e partir daí, as suas escolhas que vão moldar como será a curta vida desse cérebro; a sua classe, a habilidade especial, as armas escolhidas e até como você decide gastar a preciosa sucata. O seu personagem pode morrer para sempre, mas o jogador com certeza vai aprender lições valiosas sobre o jogo com ele.



Depois de tirar o aprendizado básico do caminho, aí sim que começa a curtição de verdade, e pode acreditar que só vai ficando mais e mais divertido. Testar diferentes builds, melhorar os reflexos e finalmente conseguir passar daquele terceiro, ou último chefe, é bastante catártico. Você certamente precisa exercer bastante cautela ao longo de todo o jogo, mas o desafio complica mesmo durante os níveis especiais e os chefões. Mesmo com toda a segurança do mundo nos seus itens e escolhas, esses estágios sempre conseguem surpreender. Nos níveis especiais, é preciso enfrentar hordas gigantes de inimigos ou, às vezes, até encara um estágio no escuro completo; já os chefes consistem de sequências quase bullet hell muito estressantes, onde fica difícil até parar para piscar. São batalhas que costumam ser longas e pedem a atenção completa do jogador.

É importante lembrar que você não tem que experienciar toda essa loucura futurística sozinho, Neurovoider é totalmente jogável em modo co-op local de até quatro jogadores simultâneos. Claro que os seus amigos precisam estar dispostos a aprender a customizar diversas coisas e interagir com alguns menus, o que pode ser um tanto difícil em grupos maiores, mas se isso não for um problema, a diversão é garantida. Outro modo de jogo disponível é o desafio diário: uma só oportunidade de se jogar uma partida única a cada 24 horas, igual para todos os jogadores online e sempre na dificuldade normal. Essa é uma ótima alternativa para quando você quiser comparar as suas habilidades com os seus amigos, ou com outros jogadores ao redor do mundo, já que esse ranking diário é o máximo de modo online que o jogo oferece.



No gênero em que ele está inserido, Neurovoider é quase perfeito, o problema são as limitações dos próprios roguelikes. Acredito que esse não seja um tipo de jogo para toda hora, mas certamente é um jogo que pode ser muito agradável na hora certa e que tem o potencial verdadeiro de entreter o jogador para sempre. Só pela trilha sonora, jogar Neurovoider já valeria a pena. A frenética trilha eletrônica synthwave/synthcore, de Dan Terminus, se encaixa perfeitamente com a temática futurística cyberpunk e o intenso ritmo do gameplay. Alguns pequenos detalhes também enfeitam o mundo do jogo com maestria, como as dicas engraçadas que aparecem nas telas de carregamento, ou os nomes ridículos das armas, que aparentemente nunca se repetem.

O jogo é uma linda combinação de um gameplay competente, músicas e temáticas marcantes, e um leque gigante de opções para a personalização da experiência, mas que definitivamente não é para todo mundo, e que pode frustrar pela alta dificuldade e pelo tempo gasto em customizações e menus.

Prós

  • Conteúdo potencialmente infinito; 
  • Trilha sonora fantástica; 
  • Modo para quatro jogadores.

Contras

  • Dificuldade alta; 
  • Muito tempo gasto nos menus; 
  • Sem um modo online de verdade.
Neurovoider - Switch - Nota: 7.5
Revisão: Vinícius Veloso
Análise produzida com cópia do game comprada pelo próprio redator
Raoni Pinheiro escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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