Crônica

Tchau, Miitomo (iOS/Android)!

Chega ao fim o aplicativo social mobile que marcou uma virada importante na filosofia da Nintendo.



Hoje, 09 de maio, às 04h da manhã, o aplicativo mobile Miitomo foi oficialmente encerrado pela Nintendo. Confesso que desinstalá-lo mexeu mais comigo do que achei que fosse. Desde seu lançamento em território brasileiro, em julho de 2016, o app esteve sempre no meu celular. Claro, tivemos nossos altos e baixos. Cogitei removê-lo inúmeras vezes. Mas algo me impedia de fazê-lo. Agora, com o seu fim, entendo o motivo de tê-lo guardado comigo nesses anos.

Nintendo no celular?

Tempos atrás, a ideia de produtos oficiais da Nintendo em smartphones e tablets era uma coisa de outro mundo. Basta voltarmos para o começo dos anos 2010 para vermos uma Big N bastante protecionista de suas marcas. A empresa fazia questão de ressaltar que suas franquias apareceriam somente em suas plataformas. “A Nintendo deixaria de ser a Nintendo”, chegou a afirmar o antigo presidente Satoru Iwata sobre a possibilidade de uma vertente mobile para seus jogos.

Porém, com o início devagar do 3DS e as baixas vendas do Wii U, a pressão aumentou. Os consumidores casuais angariados pelo Wii haviam migrado para os smartphones e as clássicas marcas Nintendo estavam perdendo sua relevância no mercado. Profecias e comentários apocalípticos começaram: “A Nintendo vai falir”, “A Nintendo é a nova Sega, “A Nintendo deveria parar de fazer hardwares e se tornar uma third-party”. E, obviamente, “A Nintendo deveria lançar seus games no mobile”.

Em 2015, a empresa deu sua resposta e anunciou, durante uma coletiva para a imprensa, uma parceria com a operadora de serviços mobile japonesa DeNA para desenvolver jogos para celulares e tablets. Porém, a mensagem era clara: ela não estava abandonando o mercado de consoles, mas sim utilizando do ambiente mobile para alavancar suas propriedades intelectuais e promover seus próprios hardwares. Tanto que foi nessa coletiva que Satoru Iwata revelou que uma nova plataforma estava em desenvolvimento: o NX, codinome do Nintendo Switch.
Um sistema que englobasse dispositivos inteligentes e consoles era promessa da Nintendo
Eu fazia parte dos fãs que acreditavam que a Nintendo não deveria se render aos dispositivos inteligentes. Tinha uma visão muito simplória de games em smartphones e achava que os jogos da Big N eram muito mais complexos e superiores para estarem no meio de shovelware. Mas o teor desse anúncio me deixou mais aberto para o que viria. Jogos simples que impulsionariam os personagens Nintendo e instigariam consumidores a comprar games maiores nos consoles da empresa me parecia uma boa decisão. Foi deixado claro que todas as marcas estariam propensas a ter versões mobile. Então, começamos todos a pensar: qual seria a primeira franquia a ganhar um app? Mario? Zelda? Metroid?

“Amiigos”

Contrariando expectativas, a Nintendo convocou os Miis para lançarem sua empreitada mobile. Em 2016, anunciou o lançamento do Miitomo. Menos jogo e mais app social, o primeiro produto da Big N para dispositivos móveis buscava promover a interação entre usuários.

Cada pessoa criava seu Mii, que, por meio de um sintetizador de voz, falava com o usuário, fazendo perguntas que variavam de “Que lugares você visitou recentemente?” a “Se você pudesse fazer algum tempero sair do seu dedo mindinho, qual seria?”. O Mii compartilhava as respostas com as pessoas adicionadas no aplicativo, permitindo descobertas sobre seus amigos e novas conversas. Uma premissa meio boba e utópica, mas agradável ao mesmo tempo.
Um Mii, muitas perguntas

Além disso, o jogador podia customizar seu Mii com uma série de roupas e acessórios disponíveis na loja do app e em minigames similares às máquinas pachinko chamados Mii Solta. Moedas Miitomo e Bilhetes, necessários para adquirir itens e participar dos minigames, podiam ser ganhados ao entrar diariamente no Miitomo, ou adquiridos por meio de microtransações. Uma série de atualizações foram disponibilizadas durante os anos, permitindo, entre outras melhorias, mensagens diretas e customização do apartamento em que cada Mii fica. O aplicativo era uma espécie de versão bastante simplificada de Tomodachi Life (3DS).

Ao ser lançado no Japão, em março de 2016, o app alcançou números impressionantes, atingindo um milhão de downloads em três dias e aumentando o valor das ações da Nintendo. Três meses depois, ele chegou ao Brasil e eu não podia deixar de experimentar.

Boas memórias e oportunidades perdidas

A primeira coisa que me saltou aos olhos ao abrir o Miitomo pela primeira vez foi ver tudo em português brasileiro. Tirando menus de consoles e similares, é a primeira vez que a Nintendo lança uma localização oficial de um de seus produtos para o nosso país. E era uma ótima localização, com uma tradução muito bem adaptada ao nosso idioma e a nossa cultura. Não pude deixar de sorrir ao ouvir meu Mii falando em português comigo e ri várias vezes ao ver expressões e piadas feitas especialmente ao público brasileiro. É um sinal de que, se quiser investir no mercado brasileiro, a Nintendo está pronta.
Alguns exemplos do humor e da localização feita pensando no público brasileiro

Ao adicionar amigos que também decidiram se aventurar no aplicativo, pude ver as propostas sociais da Nintendo tomando forma. Era simpático ver meu Mii interagindo com outras pessoas e indo visitar outros Miis. Receber um eventual comentário sobre alguma de minhas respostas realmente me levou a conversas - mesmo que curtas - com pessoas com as quais não tenho muita proximidade. Ver as respostas dos meus amigos me permitia saber um pouco mais sobre eles.

Passei momentos bem engraçados com a minha namorada dentro do app. Depois de convencê-la a entrar, costumávamos trocar mensagens quase diárias sobre as roupas que tínhamos colocado nos Miis. Também foi uma maneira de nos conhecermos melhor, pois muitas vezes conversávamos sobre assuntos que víamos no aplicativo. Com alguns amigos e conhecidos, piadas internas se formaram por meio de comentários e respostas.

Porém, do jeito que coloco aqui, parece que o Miitomo foi a solução comunicacional do século. Longe disso. Tudo que descrevi aqui durou alguns meses. Depois disso, suas falhas começaram a se tornar cada vez mais evidentes. A mais prejudicial é a falta de variedade. Após responder algumas perguntas, trocar de roupas algumas vezes e compartilhar seus estilos online, não havia muito mais o que se fazer. Perguntas e níveis do Mii Solta começavam a se repetir, fazendo com que o aplicativo perdesse o ar de novidade muito rapidamente. Entrar todo dia nele deixou de ser divertido e se tornou uma tarefa maçante só para ganhar as Moedas Miitomo de graça.

Com o público pouco engajado a participar do app, muitos começaram a deixá-lo. E não há algo pior para um aplicativo social do que não ter como socializar com outras pessoas. O Miitomo chegou a esse ponto: não havia mais sentido em responder perguntas, adquirir roupas e reformar o apartamento, pois não havia pessoas para vê-los. A Nintendo criou campanhas de engajamento, como concursos e campanhas de retuítes, e atualizou o aplicativo com maneiras de compartilhar respostas e Miis online. Mas não foi o suficiente para mobilizar os mais de 10 milhões de usuários.

Esta sensação de isolamento poderia ser solucionada, pelo menos em parte, se outra falha fosse sanada: a pouca integração com outros jogos e consoles. Até hoje eu fico surpreso como ninguém na Nintendo tentou integrar o editor Mii do Miitomo ao 3DS, Wii U, ou Switch. O Miitomo tinha, de longe, a melhor customização de Miis. As roupas eram bem legais. Às vezes, a Nintendo promovia eventos em que os usuários podiam ganhar fantasias baseadas em personagens como Mario, Link e Inklings. Porém, elas ficavam limitadas ao aplicativo. No máximo, apareciam nos avatares do Super Mario Run (iOS/Android). Por que não sincronizar todos os editores Mii, para que roupas e acessórios estivessem disponíveis em todas as plataformas? Isso daria um incentivo a mais para que jogadores continuassem usando o aplicativo para mostrar seus novos looks aos amigos em outros consoles.
Tire uma foto com sua roupa preferida. Onde estão essas fantasias no Switch?

O legado

Porém, mesmo com todos esses problemas de comunicação em um aplicativo feito para se comunicar, por que não tive coragem de deletar o Miitomo? Agora, com o fim do aplicativo, acho que tenho uma ideia da razão.

O Miitomo é uma fotografia de um tempo em que a Nintendo deu seus primeiros passos no mobile. Ele é claramente um testador de águas para que a empresa pudesse lançar jogos mais ambiciosos, como Fire Emblem Heroes e Animal Crossing: Pocket Camp, conhecendo o feedback dos usuários de dispositivos inteligentes. Foi inteligente colocar os Miis como “boi de piranha” nesse sentido, pois as franquias maiores seriam lançadas com menos reações negativas. Assim, o Miitomo foi um produto muito importante, que representa uma virada na ideologia da Nintendo, e merecia uma ocasional visita.

Sempre que interagia novamente com meu Mii na tela do celular, lembrava como era agradável ouvir sua voz robótica, como era emocionante conseguir a roupa que eu tanto queria no Mii Solta e dos bons momentos de integração que tive por causa do aplicativo. A comunidade que se formou ao redor dele era bem estranha e bem fiel, como a do Miiverse, e eu adorava revê-la de vez em quando.

Quando vi que o app seria encerrado, não fiquei muito surpreso. Afinal, quase ninguém usava-o e a Nintendo precisa alocar pessoas para trabalhos mais importantes. Mas, quando abri-o depois de muitas semanas e encontrei esta mensagem abaixo, não pude deixar de ficar mexido. O Miitomo era como se fosse aquele amigo que, mesmo sem te ver por muito tempo, ficava feliz em te reencontrar. Obrigado, Miitomo! Pode não parecer, mas você foi parte integral dessa nova Nintendo que vemos hoje. Espero que nos encontremos novamente também!


Revisão: Vinícius Veloso
Daniel Morbi é jornalista, analista de mídias e entusiasta dos games desde que conheceu Pokémon Azul no Game Boy Color quando criança. De lá para cá, dedicou-se a plataformas Nintendo, apesar de se aventurar no Xbox e no PC ocasionalmente. É capaz de demorar anos para zerar um jogo e tem mais games do que consegue jogar. Você pode encontrá-lo no Facebook e, futuramente, em outras redes sociais, quando ele tiver coragem para alimentá-las.

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