Análise: Garage Bad Trip (Switch): você vai morrer, e muito

Com visual e trilha sonora de filmes de terror dos anos 90, Garage Bad Trip tem muitos problemas, mas ainda é um jogo divertido e desafiador.


Acordando em um porta malas de um carro, em uma garagem consumida pela destruição e com zumbis por toda parte, Butch luta por uma saída em meio ao caos. Essa frase pode resumir o jogo, mas Garage Bad Trip tenta trazer elementos a mais do que um título qualquer de zumbis.


Lançado exclusivamente para o Nintendo Switch, Garage entrega um twin stick shooter (jogo de tiro com visão isométrica) e visual e trilha sonora de filmes de terror dos anos 90. À primeira vista o jogo pode lembrar Hotline Miami, mas no decorrer do gameplay percebe-se que se trata apenas de um shooter genérico.

Um ponto positivo para a desenvolvedora, a tinyBuild GAMES, é que Garage Bad Trip vem totalmente traduzido para o português brasileiro. Mesmo com erros de gramática em diálogos específicos, essa ação é muito importante para o mercado de games, já que grande parte do público dessa mídia vem do Brasil.

Butch of the Dead

Começamos o jogo controlando Butch, um traficante que foi deixado preso no porta-malas de um carro. Ao sair de seu confinamento, ele se depara com um ambiente todo destruído e com mortos-vivos andando por aí. Butch ainda por cima perdeu sua memória; e então decide sair matando todo mundo em seu caminho para se proteger.

A história do jogo é contada através de diversos elementos: desde flashbacks a comerciais em televisões. Esses elementos servem para dar vida ao mundo do entorno do jogo, mas são usados de forma ineficiente, dando apenas uma pincelada sobre o que está acontecendo.

Ainda contamos com a ajuda de uma personagem misteriosa, apelidada de Anaconda. Ela nos dá informações sobre os chefões e lugares aonde devemos ir. De começo, Anaconda parece ser um personagem bem interessante, mas não passa de uma solução de roteiro para guiar o personagem principal pelo jogo.

Apesar de um desfecho intrigante e a tentativa dos desenvolvedores em trazer um storytelling decente; Garage Bad Trip traz uma história previsível e sem aprofundamento, com personagens pouco carismáticos e motivações fracas.
"Câmbio, Anaconda na escuta."

Esqueça Dark Souls

Os comandos teoricamente são simples: andar, rolar, mirar e atirar. Mas na prática isso não funciona. A movimentação de Butch é um tanto quanto confusa, principalmente quando se está andando no meio dos monstros. Perde-se a conta de quantas vezes os comandos falham na cara de algum inimigo e morre-se por conta disso. O rolamento do personagem, que serve para desviar dos ataques de inimigos não é fácil de usar, pois raramente Butch rola na direção que apontamos no analógico. A mira então é algo que nos deixa completamente frustrados, por não responder bem e ser muito sensível.

Devido a esse sistema de jogabilidade mal otimizado, Garage se torna extremamente difícil. Os chefões são uma dificuldade à parte, alguns até impossíveis de se derrotar em dificuldades como Normal ou Difícil (principalmente o último chefe).
Atire, atire e atire!
Existem jogos, como Destiny e Monster Hunter, nos quais há uma curva de aprendizado em relação ao gameplay, ou seja, você demora para aprender mas depois pega o jeito. No caso de Garage Bad Trip, essa curva não existe: o jogo permanece com a mesma mecânica do começo ao fim, sem incentivar o jogador a melhorar.
Se for acertado, morreu!
As missões são sempre aqueles populares objetivos de coletar chaves para abrir portas, tarefas muito comuns em jogos da velha guarda, como Doom e Duke Nukem. Isso, em conjunto com a jogabilidade, torna a experiência cansativa e repetitiva, tendo em vista que o tempo de jogo é de mais ou menos oito horas. Os puzzles não deveriam nem ser comentados de tão simples, em sua maioria são quebra-cabeças genéricos de puxar alavancas para abrir portas.

Outro ponto importante são os checkpoints. Muitos vão se lembrar de Half Life, que “congelava” durante uns cinco segundos assim que o jogador chegava em um checkpoint. A mesma coisa acontece com Garage Bad Trip; com diferença de que este é é um jogo de 2018. O loading é outro problema: sempre que passamos de uma mapa para o outro, temos uma tela de carregamento que varia de 15 a 20 segundos, tempo excessivo para um jogo atual.
Lembre-se de rolar, rolar é muito importante!

Armas, queremos armas!

Quanto ao arsenal do jogo, temos cerca de 15 tipos de armas diferentes, desde pistolas até granadas. Por mais que pareça bastante, não há diversidade, pois essas armas mudam apenas visualmente, o que denota uma certa preguiça por parte dos desenvolvedores.
Na dúvida, a shotgun é sempre a melhor opção.
Os itens do jogo também são bem rudimentares: comestíveis e kit médicos que recuperam a vida do jogador, energéticos que deixam o vigor de Butch infinito por determinado tempo e colete à prova de balas que faz exatamente o que o nome sugere. Há também alguns itens escondidos em bunkers subterrâneos, e para acessá-los é preciso usar códigos secretos que estão espalhados pelo jogo.

Acho que já passei por esse lugar…

Pode-se dar bons exemplos de level design aqui nessa análise, citando Mario ou até Zelda, mas Garage Bad Trip não é um deles. Primeiro que o ambiente do jogo é muito escuro, o que dificulta achar as portas e salas secretas (as portas não têm sinalização nenhuma, logo você precisa adivinhar onde elas estão).

Existem alguns símbolos no chão que tem o intuito de guiar o jogador a lugares específicos, mas esses símbolos são subjetivos e a escuridão não ajuda (mesmo aumentando o brilho do Switch).
Os inimigos tem reações rápidas, bobeou morreu.
Em questão dos cenários, o jogo deixa a desejar. Os mapas são extremamente semelhantes, às vezes diferenciando-se apenas em relação à posição dos objetos nas salas. Quando finalmente o jogo dá uma repaginada no ambiente, ainda dá para sentir que o design dos mapas são similares.

Apesar disso, os inimigos são bem diferenciados. Nós encontramos variados tipos de skins para os adversários. Um detalhe é em relação aos chefes, eles são perturbadores e muito bem detalhados, o que torna a luta contra os mesmos imersiva e assustadora.

Apesar dos gráficos em pixel art bem desenhados e estilosos, o design do jogo atrapalha, trazendo um tom de repetição na arte. Ainda assim é interessante parar para analisar os desenhos do jogo, pois eles são notáveis e competentes por si mesmos.
Não usem drogas, crianças.

Som na caixa, DJ

Mais um ponto forte para o jogo: a trilha sonora. Misturando um Rock Metal com batidas de guerra, Garage Bad Trip traz uma ótima experiência sonora, principalmente em ambientes com muitos monstros. Em batalhas contra os chefes, por exemplo, a trilha vai se intensificando conforme a vida do inimigo cai, deixando o jogador cada vez mais tenso e inspirado a continuar no confronto.
Apesar dessa fase ser monótona, a música de fundo é boa.

Precisamos falar sobre o Capítulo 10

Ao chegar no Capítulo 10, os desenvolvedores deixam um bilhete alegando que perderam o código do capítulo, e que por isso não poderemos jogar essa fase. Eles ainda dão um resumo do mesmo, contando que esse seria um dos pontos altos do jogo. Infelizmente, transcrever esse bilhete seria dar spoilers da história.

Nesse caso não dá para entender se isso foi uma espécie de “zoeira” por parte dos desenvolvedores ou se eles realmente perderam a fase durante a programação de Garage. De um jeito ou de outro, foi um ato de relaxo lançar um jogo incompleto.


Vale mesmo a pena?

Se você for um amante de jogos de zumbis, Garage Bad Trip pode lhe agradar. Mesmo com seus problemas, o jogo ainda consegue trazer um ambiente desafiador e macabro, em algumas partes até que divertido. Se o jogo um dia retornar com uma sequência, espera-se mais atenção dos desenvolvedores, pois Garage Bad Trip tinha mais potencial do que foi entregue.

Prós

  • Trilha sonora bem produzida e diferenciada;
  • Gráficos em pixel art bem desenhados;
  • Batalhas desafiadoras contra chefes.

Contras

  • Level design mal executado;
  • História e personagens sem aprofundamento;
  • Gameplay repetitivo e controles mal elaborados;
  • Pouca variedade de armas e itens;
  • Capítulo 10.
Garage Bad Trip - Switch - Nota: 5.5

Revisão: Diego Franco Gonçales
Análise produzida com cópia digital cedida pela tinyBuild
Gustavo Miranda é engenheiro de software e estudante de publicidade durante o dia e luta contra o crime em Gotham na penumbra da noite. Prefere trabalhar nas madrugadas com a presença da sua ilustre felina denominada Samus. Está no Facebook e Instagram.

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