Blast from the Past

Castlevania de NES continua um clássico divertido e desafiador

Lançado há 32 anos, Castlevania mostra sinais de idade mas ainda é um jogo imperdível para qualquer fã do gênero.


Muitas vezes o que lembramos de jogos antigos que jogamos em nossa infância é carregado de memória afetiva. Ao revisitar grandes clássicos dos video games percebemos que o que guardamos carinhosamente nas nossas cabeças não condiz com a realidade do que vemos na tela. Gráficos parecem mais bonitos na nossa mente e a jogabilidade, depois de experimentarmos jogos mais modernos, soa antiquada e desajeitada. Algumas vezes, mesmo quando isso acontece, podemos nos surpreender positivamente. Inspirado pelo lançamento de Bloodstained: Curse of The Moon (Multi), jogo independente de Koji Igarashi, um dos responsáveis pela era de ouro de Castlevania, decidi voltar ao clássico de NES através do portátil Nintendo 3DS e a experiência não poderia ter sido melhor.

Todos os problemas listados acima apareceram. O visual não estava tão bacana quanto eu achava lá atrás, a jogabilidade travada não é tão agradável quanto eu lembrava, mas mesmo assim, Castlevania é um dos melhores jogos disponível na vasta biblioteca do nosso querido “Nintendinho”.

Matador de Monstros e Vampiros

Não é de se admirar toda a base de fãs que a série conquistou durante sua existência. Desde a introdução do primeiro jogo conseguimos perceber que existe algo de especial acontecendo. O tema, que envolve castelos, Transilvânia, Conde Drácula, vampiros e monstros é fascinante. Com poucos minutos de jogo já somos apresentados a zumbis, cavaleiros medievais e morcegos gigantes, tudo perfeitamente posicionado para instigar nossa curiosidade a avançar mais e descobrir o que está por vir. Percorrer os corredores do castelo do Conde Drácula na Transilvânia enquanto enfrenta inimigos baseados nos clássicos do cinema como o monstro de Frankenstein e até mesmo a Morte, trazia e ainda traz uma enorme satisfação.



Casos de Família

Os Belmont são conhecidos por serem caçadores de vampiros e não é a primeira vez que um membro da família decide eliminar o maior sugador de sangue de todos os tempos. Todas as tentativas foram bem sucedidas em interromper os planos do vilão, porém não conseguiram eliminar de vez com a ameaça, que sempre retorna para mais um tentativa de torturar a existência da humanidade.

Simon Belmont, seguindo o legado de sua família, decide invadir o castelo do Conde Drácula a fim de eliminá-lo e acabar de vez com seu reinado de terror. Enfrentando servos do vampirão, consegue atravessar o lugar e confrontá-lo. Após uma luta cruel e mortal, Simon consegue impedir que o Conde concretize seus planos, mas mais uma vez não é capaz de matá-lo completamente, deixando-o apenas adormecido por mais alguns anos. A trama simples está ali apenas como ponto de partida para a aventura começar. Não é preciso muita atenção no roteiro para entender o que se passa no game e rapidamente nos vemos imersos naquele universo tão cativante.

Antiquado, mas adaptável

Levou alguns minutos para me adaptar à velha realidade dos comandos. A impossibilidade de controlar os pulos e o recuo ao tocar um inimigo tornam o desafio dos controles um dos quebra cabeças presentes no jogo. Como todo bom level design, o game te ensina aos poucos o que é preciso fazer para avançar. Inimigos mais fáceis surgem como primeiros obstáculos e as armas secundárias são apresentadas já nas primeiras áreas. Era comum na época que os jogos viessem com manuais de instrução que serviam como tutoriais para ensinar a jogar. Nomes de inimigos, comandos e habilidades estavam todos explicados ali, porém, poucas pessoas realmente liam o que estava escrito e já partiam para a jogatina, o que causava certa frustração nos menos familiarizados. Para contornar esse problema os desenvolvedores posicionavam itens, inimigos e armadilhas em locais estratégicos para incentivar a experimentação e exploração. Logo na primeira fase vários elementos recorrentes aparecem. Descobrimos que o coração não funciona como energia mas como munição para a arma secundária que pegamos logo em seguida.Quando tentamos eliminar um morcego que ataca quando estamos subindo uma escada, percebemos que pressionar o direcional para cima e o botão de ataque ativa essa arma extra. Ao chicotear um inimigo perto de uma parede, o tijolo se quebra revelando um item especial e com isso estamos preparados para encarar as partes mais difíceis da aventura.

Água benta, cruz e chicotes

Além de seu fiel chicote, Simon conta com diversas armas especiais para eliminar seus inimigos. Machados que fazem um movimento circular para o alto são úteis para acertar aqueles morcegos voadores que incomodam tanto. A cruz que funciona como bumerangue é extremamente eficiente contra as cabeças de Medusa que atacam em movimento de onda em sua direção. O maior problema é que esses itens não são encontrados quando precisamos deles, sendo preciso um conhecimento prévio do que está por vir para manter a arma secundária que queremos, pois só é possível carregar uma por vez. Se pretende utilizar a água benta contra algum chefe, evite coletar a adaga por exemplo.
A natureza aleatória do game talvez seja o maior motivo de dificuldade. Itens não estão localizados no mesmo lugar, alguns inimigos possuem padrão de ataque diferente a cada vez que os enfrentamos e outros não param de surgir enquanto estamos dentro de alguma área. Esse fator torna o jogo imprevisível na maioria das vezes, o que requer atenção total do jogador e destreza de movimentos. Mesmo que a energia esteja completa, cair de um buraco resulta em morte. O pulo não pode ser controlado, portanto calcule bem antes de executá-lo e certifique-se que não existe nenhum inimigo que possa te acertar durante o processo. Ao sofrer um dano, Simon recua para trás e isso resulta em muitas e muitas mortes. Encostar naquela cabeça de Medusa ao lado de um precipício é fim de jogo.

Paciência e dedicação para enfrentar os desafios

Morrer é uma constante em Castlevania e de inúmeras formas. Para deixar as coisas ainda mais complicadas o erro sempre terá uma punição severa. Voltar ao início da tela ao perder uma vida não é tão ruim quanto retornar todo o estágio após selecionar Continue na mensagem de Game Over.

Quando eu jogava no início do anos 90, muitas vezes já desistia no início, pois não tinha paciência para continuar e refazer todos aqueles pulos desesperadores. Confesso que a possibilidade de salvar o jogo em qualquer lugar que o Nintendo 3DS proporciona me ajudou muito na conclusão nessa nova tentativa, mas no console original o game precisava ser terminado de uma vez só, pois não existia Password e muito menos bateria no cartucho para salvar o progresso. Toda essa dificuldade dos games da época serviam para prolongar a experiência do jogo, pois por limitação, os produtores não podiam construir muitos estágios e se fossem fáceis, em poucos minutos o jogo poderia ser concluído. 

A batalha contra o chefe final, o próprio Conde Drácula, é brutal. Calcular cada pulo em seu exato momento, associá-lo aos golpes de chicote e arma especial dentro de um sistema travado me causou algumas dores no dedo. E como se não bastasse a dificuldade do chefe, antes de enfrentá-lo, é preciso atravessar um dos mais famosos e intensos corredores do mundo dos jogos antigos, onde cabeças de medusa, cavaleiros e seus machados atacam em um padrão que praticamente cobre todo o alcance de Simon e requer atenção extrema. Passar sem ser atingido nenhuma vez é crucial para que se tenha alguma chance contra Drácula, mas sem dúvidas, não é tarefa fácil.

Esse nome não me é estranho

Após concluir o game, os créditos apresentam brincadeiras com os nomes dos desenvolvedores e personalidades do cinema. O diretor H. Akamatsu recebeu o pseudônimo de Trans Fischer, baseado no diretor dos filmes do Monstro de Frankenstein da Universal, Terrence Fisher. O roteirista virou Vram Stoker, trocadilho com o nome Bram Stoker, autor do romance gótico Drácula, que por sua vez inspirou o filme dirigido por Ford Copolla. Eles não são os únicos homenageados no jogo, vale a pena finalizá-lo para conferir as referências.




Música gótica nada suave

Já em seu primeiro capítulo, a série Castlevania se destaca em algo que vai acabar se tornando uma de suas marcas registradas, a trilha sonora. Extraindo o máximo possível do hardware do Nintendinho, os compositores Kinuyo Yamashita e Satoe Terashima criaram uma das mais icônicas trilhas sonoras do console de 8-Bit. Inspirados pela cultura gótica e elementos do cinema de terror, os tons lembram acordes de órgãos e riffs de guitarra. A cada nova fase uma música mais surpreendente te transporta para o clima de suspense do game. A maioria das canções compostas por eles foram reutilizadas em outros jogos da série, inclusive a icônica Vampire Killer. Experimente ouvi-las ainda hoje, são sensacionais.

Jogar Castlevania do NES em 2018 foi uma experiência gratificante. Ver que elementos dos clássicos posteriores, como Castlevania: Symphony of The Night, já estavam presentes desde os primórdios da série e serviu para perceber o quanto a série evoluiu sem deixar as origens para trás. Os comandos são antiquados para nosso padrão atual, mas o cuidadoso level design faz com que nos acostumamos rapidamente e a imersão seja inevitável. Os desafios são impiedosos, mas a satisfação ao concluir cada estágio é garantida. Castlevania é um clássico e mesmo em 2018 é possível se divertir muito o jogando.

Revisão: João Paulo Benevides
Flavio Maciel escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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