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Análise: 20XX (Switch) traz de volta o gostinho de controlar um certo robô azul da era 16 bits

O game proporciona uma diferente experiência a cada partida jogada, que pode ser totalmente aproveitada de forma cooperativa, inclusive online.


Desenvolvido pelo estúdio Batterystaple Games em parceria com a Fire Hose Games, 20XX é um jogo de ação e plataformas com características de roguelike, totalmente inspirado na aclamada série Mega Man (Capcom). Aos olhos atentos, já na introdução há uma referência a segunda aventura do Blue Bomber.


No ano de 20XX… Humanos se encontram em perigo, e heróis robôs são contratados para combater tais ameaças. É assim que começa o jogo. Com uma introdução simples e sem muitas explicações. Aliás, em nenhum momento existe uma preocupação com um desenvolvimento mais aprofundado da história, deixando-a apenas como pano de fundo para focar na diversão e no gameplay.

Já vi isso antes em algum lugar...


Para alcançar o objetivo é preciso estar no controle da situação

O tutorial no início ensina os controles, que seguem as características de Mega Man X (SNES). Sua precisão se trata de um dos grandes destaques do título. Ao soltar o botão direcional ou o analógico, o personagem para de se mover no mesmo instante. Se alterar a direção durante um salto, ele vira imediatamente. Cada movimento errado seguido de uma derrota é culpa do jogador, o que incentiva a continuar tentando chegar mais longe na aventura.


Algumas das opções são customizáveis, inclusive com a possibilidade de realizar configurações diferentes para cada jogador. Infelizmente não é possível mapear os botões de ação, e a primeira característica negativa do título está nesse sentido. O uso dos Joy-Con pode incomodar bastante, principalmente jogadores de mão grande, já que o dedão fica encostando no analógico direito. Por outro lado, a jogabilidade é tão precisa que o odiado D-pad do Pro Controller não incomoda no game.

O jogo é bastante divertido e imersivo. Há momentos em que os problemas parecem desaparecer — inclusive este relacionado aos Joy-Con — diante do desafio de se manter vivo explorando os estágios. Seu desempenho é excelente mesmo com várias coisas acontecendo simultaneamente na tela, sem quedas na taxa de frames por segundo.

No tutorial, conhecemos o assistente AL.


Um mundo colorido, detalhado, e povoado de vilões

A arte do jogo aparenta ser desenhada a mão, dando a impressão de se jogar um colorido cartoon, com cenários ricos em detalhes e belíssimos planos de fundo. Os personagens e inimigos se destacam do ambiente, facilitando a identificação durante as partidas mesmo em momentos de poluição visual devido a vários tiros, armadilhas e inimigos.

Paisagens ao fundo contrastam com construções de tons escuros em segundo plano, que por sua vez contrastam com as plataformas de cor mais clara no primeiro plano e demais elementos do jogo — de cores berrantes e com muitos efeitos de luz — passíveis de interação.

O game possui cutscenes, mas estas, além de mal animadas, não acrescentam valor à experiência de jogo, apenas servindo como piadas sobre o desempenho do jogador. A tela de apresentação dos chefes também não foi feita com tanto esmero e possui alguns erros na digitação quando se joga em português, com até mesmo o texto aparecendo na frente da cabeça do boss no desenho.

Infelizmente nem tudo é perfeito, não é gêmeos astrais?

O mesmo não pode ser dito das animações durante o gameplay. Há muitos detalhes interessantes, como o cenário embaçado devido ao calor próximo a lava incandescente, um jato de vento jogando plataformas para cima, o rastro deixado pelo personagem ao usar o dash e animações dos chefes. Isso demonstra o carinho e o empenho dos desenvolvedores para que tudo ficasse muito bonito e vibrante.

Há uma boa variedade de inimigos, todos muito bem desenhados e animados. Um consenso nos jogos é que se um lacaio muda de cor, ele é mais forte que o anterior. Em 20XX um mesmo tipo de monstro pode variar além da cor o seu tamanho, design, padrões de ataque, resistência e diversas outras características que os tornam bastante distintos entre si.

Armadilhas e inimigos por toda a parte... Que sufoco!

Devido às características de roguelike, cada partida se torna única. Todos os inimigos se misturam bastante e aparecem cada vez mais fortes e em maior número de acordo com a progressão do jogador. Não importa em qual fase o jogo começa, a dificuldade aumenta à medida que se vai mais longe. Além dos inimigos, os cenários possuem diversas armadilhas, portas, caixas e baús de localização gerada de forma procedural.

Os efeitos sonoros acompanham a qualidade do game, não tornando-se cansativos após longas horas de jogo. As músicas possuem tons que lembram games das eras 8 e 16 bits, e é de fácil recomendação para quem gosta trilhas sonoras de jogos dessa época.

A cada partida jogada os inimigos, armadilhas e recompensas mudam de lugar.

Uma aventura cheia de aleatoriedades e o desafio da sobrevivência

Em 20XX podemos escolher como personagem Nina, que remete a jogabilidade de X, ou Ace, que lembra o Zero. Nina possui um canhão blaster em um dos braços e seus tiros carregados atravessam inimigos, sendo ideal para combater vários deles em uma linha reta. Ela é bastante carismática, com seus olhos grandes e cabelos loiros. O visual de Ace lembra mais o de Proto Man, com óculos escuros. Ele ataca com uma espada laser, que pode ser carregada para realizar um ataque mais potente. Seus golpes são mais fortes e ignoram escudos inimigos. 

Diferente do padrão de Mega Man, ao se iniciar o jogo não é possível escolher a fase, sendo esta aleatória. Ao vencer a batalha contra o chefe há diversas opções na sala seguinte. A primeira delas é que é possível escolher entre pegar o poder dele, um item ou uma quantidade de porcas, que servem como dinheiro dentro das fases. Os poderes obtidos dos bosses não substituem o ataque normal, sendo possível usar três deles simultaneamente e trocá-los a qualquer momento no menu.

Nada como uma empolgante batalha contra um roedor motorizado atirando shurikens.
Finalizando antes do tempo que é mostrado no canto inferior esquerdo, é possível ganhar um baú bônus. Neste lugar aparecem também os outros dois personagens do jogo, que estão sempre dizendo frases satíricas e sacaneando Ace e Nina: os dois cientistas que aparecem na introdução. Por fim, é possível escolher a próxima fase/boss a enfrentar entre três opções diferentes, ou salvar e sair para terminar depois a partida.

Infelizmente o jogo possui poucos cenários, mesmo havendo uma distinção interessante entre eles. Um laboratório abandonado tomado pelo verde, um local que lembra um fábrica ou mina, bastante calorenta com seus rios incandescentes, templos desgastados em uma grande altitude, com seu belíssimo céu que varia de cor e até um ambiente que parece uma estação de transmissão com neve caindo e plataformas escorregadias.

Os chefes funcionam com o já conhecido “sistema jan-ken-po” presente em Mega Man, onde o poder de um é forte contra o outro. Porém o efeito em 20XX é menos devastador que no jogo de inspiração. Uma boss battle muda completamente quando o mesmo inimigo é o primeiro ou a oitavo a ser enfrentado, fazendo com que o jogador precise se adaptar a mais de uma situação envolvendo o mesmo chefe. Tais poderes continuam tendo uma importância significativa dentro do jogo e ajudam a superar alguns momentos que sem eles poderiam se tornar muito mais frustrantes.

A tranquilidade inicial logo desaparece após passar algumas fases.


As definições de possibilidades foram atualizadas

O game possui um sistema de morte permanente. Cada vez que um personagem tem seu fim, o jogador volta a Arca. Este lugar serve para iniciar novos jogos, além de várias outras funções importantes. Durante as partidas é possível, além das porcas, encontrar itens chamados de Chips de Alma. Estes chips são usados para comprar aprimoramentos permanentes, desbloquear itens que a partir de então poderão ser encontrados no jogo ou adquirir alguns outros que funcionarão na próxima partida.

Os aprimoramentos permanentes podem ser ligados ou desligados de acordo com a preferência do jogador. Já os outros itens existem em vários tipos e possuem diversas funções diferentes. Descobrir o funcionamento deles é um dos grandes charmes e ponto de diversão no jogo, pois podem alterar pouco ou bastante a jogabilidade. Um tipo de item que vale a pena mencionar são os Núcleos. Um deles possui a função de habilitar o dash no ar que esteve disponível a partir de Mega Man X2 (SNES). São incrementos poderosos que inclusive alteram o visualmente os personagens.

Itens, muitos itens. Para todos os gostos.


Além de repetir o jogo normal até encontrar todos os itens, existem alguns outros modos de jogo que acrescentam ao fator replay. Para os players mais competitivos existem desafios diários ou semanais — com direito a comparação de pontuações online —, divididos entre normais e hardcore. Também está disponível um modo Boss Rush bastante desafiador, e é possível digitar uma seed para jogar uma partida aleatória — Nesse caso o jogo cria os elementos da fase baseado no que foi escrito.

O game funciona solo ou cooperativo entre dois jogadores. O multiplayer é tanto local quanto pela internet, sendo possível jogar com um amigo ou alguém que esteja procurando por uma partida. Em dois jogadores quando um está longe do outro a câmera vai se afastando, até que seja possível ver grande parte do cenário, mas por consequência os personagens ficam muito pequenos, dificultando visualizá-los. O botão “A” ganha novas funções, como enviar emotes e se teleportar para onde está o colega.

Existem três níveis de dificuldade, que acabam não possuindo muita diferença na jogabilidade. Na Normal é preciso fazer tudo com apenas uma vida, podendo usar as melhorias permanentes. Abaixo existe a dificuldade Honrado (fácil), que possui as mesmas opções, mas com três vidas. Na dificuldade Desafiador (difícil) além da vida única as melhorias permanentes não funcionam, e é possível ativar modificadores de caveiras — alterações na jogabilidade que possuem a função de dificultar ainda mais o jogo. Alguns dos desafios também permitem o uso das caveiras.

Em dois jogadores a câmera se afasta quando se distanciam um do outro, revelando detalhes do cenário.


Encerrando a jornada

20XX entrega uma excelente experiência, sendo fácil recomendação tanto para aqueles que amam a jogabilidade da trilogia inicial de Mega Man X, quanto para os fãs de jogos de plataforma ou de roguelikes. O game possui um fator replay gigantesco e diversão garantida sozinho, jogando com os amigos ou online. Os controles beiram a perfeição e o jogo possui uma polidez visual e sonora impressionante, demonstrando todo o carinho de um projeto feito de fãs para fãs.

Prós:

  • Polimento gráfico e de animação durante o gameplay;
  • Músicas envolventes;
  • Controles extremamente precisos;
  • Fator replay alto devido a características de roguelike;
  • Boa variação de inimigos e desafios;
  • Faz uso dos recursos multiplayer do console, tanto online quanto offline;
  • Diversos recursos que alteram a experiência de jogabilidade.

Contras:

  • O uso dos Joy-Con ou do modo portátil pode ser um problema para mãos grandes e o jogo não possui opção de mapear os botões;
  • Cutscenes e apresentações dos chefes não seguem o nível de qualidade do jogo;
  • Poucos cenários disponíveis.
20XX - Switch - Nota: 8.0
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fire Hose Games
Lucian Helan é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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