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Análise: Inside (Switch): Puzzles em um tom sombrio

O título de plataforma da desenvolvedora Playdead preza pela experiência.









Inside é um jogo diferente. Não existe um menu principal e talvez você passe alguns segundos olhando para a tela inicial, que não pede nenhum tipo de aperto de botão ao jogador. A desenvolvedora Playdead não poderia ter iniciado este jogo de uma melhor forma, instigando a nossa curiosidade desde o primeiro segundo. A sensação é de que a história já está ali, pronta para ser contada, só esperando pelo controle do jogador. E quando finalmente apertamos o botão, um garoto de camiseta vermelha sai do meio de algumas árvores, e de repente, também estamos ali dentro daquele mundo.

Uma experiência realmente singular

Se existem regras, nós é que temos de descobri-las sozinhos. Não há qualquer tipo de diálogo ou cutscene em Inside, muito menos algum tutorial explicando controles ou uma direção. Habitamos a pele deste garoto com o simples objetivo de seguir em frente. A natureza de plataforma side-scrolling do título também combina perfeitamente com a constante sensação de progresso e de fuga que a experiência proporciona. Desde o próprio nome do jogo, a impressão que temos é a de estar dentro de alguma coisa, e de precisar sanar a necessidade de sair e escapar dessa realidade, o que quer que ela seja.



Elementos específicos e misteriosos enfeitam o cenário e, potencialmente, aterrorizam a vida do garoto protagonista. Logo no ínicio, a ação se passa em uma escura e tenebrosa floresta, e enquanto você tenta avançar, homens armados em caminhões e cachorros ferozes tentam impedir o seu progresso, na maioria das vezes resultando na morte do personagem. E essas mortes são bastante gráficas e desagradáveis, mesmo com o visual não realista, meio livro infantil do jogo.

As mortes podem ser constantes, mas os checkpoints também são. Naturalmente, também não existe game over ou um número de vidas. O progresso nunca é frustrante e raramente você vai se ver obrigado a voltar atrás, ou repetir grande parte de alguma área. O avanço da história funciona através de uma sucessão de puzzles, e mesmo os mais inteligentes ou intrigantes não pedem mais do que poucos minutos para a sua resolução. Logo após cada um deles você já fica esperando pelo próximo, no entanto, o processo não chega a ficar repetitivo, já que a cada nova "área" pequenos elementos são adicionados aos quebra-cabeças, que, embora parecidos, sempre mantêm um saudável grau de originalidade e frescor.




Tudo acontece, de certa forma, rapidamente. Em meio aos cenários sombrios e deprimentes, a sensação de aprisionamento, e a busca pela "liberdade", estão sempre presentes. Este não é o tipo e jogo que você para de jogar, ou que você divide a jogatina em múltiplas sessões. Jogar Inside pode ser comparado com a experiência de Journey (PS3, PS4) ou de Abzu (PS4, PC, XBO) — O jogador é lançado em um mundo estranho sem nenhuma informação e deve seguir em frente. E a promessa de descobrir o que raios está acontecendo ali facilmente nos mantém presos em frente à TV (ou do próprio console, no caso do Switch) até o final. E o fim de Inside é chocante, para falar o mínimo. Na verdade, quanto menos você souber sobre o jogo em geral, mais você ganha na hora de pegar o controle e ajudar o garoto de camiseta vermelha a seguir o seu caminho.



Muita subjetividade em meio a um espetáculo técnico

Inside é um jogo bonito. Bonito o bastante para se parar e falar sobre isso. Luz e sombra são elementos fundamentais na composição da estética de Inside (e até mesmo em alguns aspectos do gameplay). A atmosfera realmente parece uma evolução natural do belíssimo título anterior da desenvolvedora, Limbo (também lançado para o Switch recentemente), só que o nível de polidez é claramente muito maior. A Playdead passou seis anos desenvolvendo o mundo 2.5D de Inside e todos os detalhes que o preenchem. A direção de arte é excepcional e ajuda muito a contar a história não falada do jogo — cada cantinho do cenário parece pertencer exatamente àquele lugar, e cada jogo de luz complementa com maestria o sentimento de determinada área ou parte do jogo. E a física mais do que realista é a cereja no bolo das sensações que Inside quer passar ao jogador — cada pulo, cada queda e cada movimento do protagonista são altamente perceptíveis e transmitem um peso bastante humano para tudo o que está acontecendo.



A aventura é pequena, mas sem pontas soltas. Tanto em um nível conceitual, narrativo, ou, principalmente, técnico, tudo parece estar ali por uma razão. O jogo instiga e provoca indagações e faz isso com maestria. A falta de diálogo, ou texto, abre a experiência para um campo subjetivo e infinito em que cada pessoa pode ter a sua própria interpretação do que está acontecendo e, de fato, diferentes pessoas terão vivências diferentes ao jogar Inside, por mais linear que o jogo seja. A imaginação é uma presença constante durante a aventura e essa é a maior beleza do título da Playdead.

Por outro lado, o replay de Inside é praticamente nulo. Até existe uma motivação para um possível segundo playthrough, mas não acredito que muitos jogadores vão fazer questão de realizá-lo. A experiência é extremamente válida, só que ela dura pouco e é praticamente única — spoilers podem realmente ferir o propósito de Inside. Algumas pessoas podem achar o título muito parecido com Limbo, o que é verdade. No entanto, Inside realmente parece um longo passo à frente e uma melhoria clara do seu predecessor. Também pode existir quem argumente quanto aos puzzles serem um tanto parecidos demais entre si, mas a forte imersão, e a tensão constante da aventura, tendem a eclipsar qualquer percepção de repetitividade do título.



Inside é um jogo interessante — criativo, bem feito, polido, tenso, diferente e bonito. Com certeza vale a pena jogar e criar a sua própria interpretação sobre essa história tão quieta e melancólica. O último ato surpreende bastante e o final consegue ser libertador e opressor ao mesmo tempo. Um daqueles jogos que só jogando para entender (ou, até assim, não entender nada).

Prós

  • Uma história única contada sem nenhum diálogo;
  • Puzzles divertidos;
  • Arte impecável.

Contras

  • Pode se tornar repetitivo;
  • Muito curto.
Inside - Switch / PS4 / XBO / iOS / Windows - Nota: 8.5  
Plataforma utilizada para análise: Nintendo Switch 
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Playdead
Raoni Pinheiro escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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