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Análise: 2064: Read Only Memories INTEGRAL (Switch): surpreendente, irreverente e envolvente

Além de flertar com um mundo cyberpunk muito próximo da nossa realidade, o jogo também traz personagens complexos e diversos.


Mesmo antes da Nintendo lançar o seu primeiro console no mercado, já existiam diversos games que tentavam explorar a sensação de ser um astuto detetive. Ao longo dos anos, mais e mais jogos surgiram com a promessa de lhe entregar essa experiência, cada um à sua maneira. 2064: Read Only Memories INTEGRAL (Switch) não tenta revolucionar o jeito que essa história é contada, mas sim a própria narrativa. Caso você seja fã de um bom livro de ficção científica ou thriller policial, prepare-se para vivenciar um mistério eletrizante que começa com um simples desaparecimento, mas evolui para algo muito maior.

Futurista e pé no chão

Read Only Memories se passa num futuro bem mais próximo que a maioria dos cyberpunks que você costuma ver por aí. O ano é 2064 e não só a tecnologia evoluiu, mas também a sociedade. Robôs foram completamente integrados na rotina das pessoas, mas ainda não pensam por si sós. O progresso tecnológico também deu origem a ciborgues e híbridos, humanos que apresentam características animalescas devido a terapia genética. Os avanços geram resistência de grupos conservadores e o clima é de profunda tensão racial. Parece que algumas coisas nunca mudam.

No meio dessa guerra política, um cientista especialista em robótica chamado Hayden acaba sendo sequestrado e sua última criação, Turing, o primeiro robô pensante, decide que o seu personagem é a pessoa mais capaz para resgatá-lo. A partir daí, você deve se unir a Turing para descobrir a verdade sobre o desaparecimento de seu amigo.
O jogo mostra maturidade não apenas nos temas, mas também no jeito que lida com as relações.


Ao longo do enredo, Read Only Memories se mostra um jogo bastante consciente do gênero que habita. O gênero point and click e o estilo cyberpunk, populares nos anos 1980, foram escolhidos a dedo para atrair a atenção de um público mais adulto. Isso permite que os roteiristas consigam desenvolver uma história bastante madura, sem se preocupar em precisar ser muito óbvio ou pedante. Essa liberdade permite que se explorem temas relevantes de maneira sutil ao mesmo tempo que desenvolve uma trama policial complexa que convida o jogador a decifrá-la.

Um mergulho em San Francisco

A cidade escolhida para sediar o jogo também é bastante inteligente: Neo-San Francisco. Hoje em dia, San Francisco é conhecida mundialmente por ser o berço da tecnologia e diversidade. Os desenvolvedores a escolheram exatamente para analisar como ambas podem evoluir num futuro bem otimista. Além de novos lugares, o jogo inclui imaginações de locações bem conhecidas do mundo real, como o Parque Golden Gate e o Distrito Castro, o que torna a experiência ainda mais crível.

Se hoje em dia, o Distrito Castro é uma vizinhança bastante conhecida por ser acolhedora à população queer, em Neo-San Francisco ela foi reimaginada para acolher os híbridos, ressaltando ainda mais a analogia política entre os grupos. A luta dos híbridos em conquistar direitos iguais aos demais humanos se mostra um tema recorrente no jogo e é apresentada de uma maneira muito honesta.
A situação dos híbridos apresenta paralelos com a luta LGBT+ nos anos 1960 e de muitos negros até hoje.


Nessa alusão clara ao embate entre conservadores e liberais, o game evita fortemente uma polarização de ambos os grupos. Não existem apenas híbridos amigáveis e gentis, assim como conhecemos conservadores empáticos e cordiais. O jogo se esforça mais em mostrar as motivações e a luta de cada lado, evitando a antagonização e ressaltando a possibilidade de diálogo. Trata-se de uma abordagem bem mais eficaz e agradável que contrasta com a militância confrontativa que vemos nas redes sociais.

A força da comunidade

Aliado aos elementos point and click tirados diretamente de clássicos, como Snatcher (1988) de Hideo Kojima, Read Only Memories incorpora elementos sociais bastante presentes na franquia Ace Attorney. Como no jogo do famoso advogado, os personagens secundários são bastante carismáticos e é difícil não gostar mesmo dos mais apáticos. Só esqueças as personalidades caricatas e extravagantes. Espere uma representação mais séria e menos juvenil. Além disso, o elenco de suporte como um todo apresentam uma função crucial para o desenrolar da narrativa.

Todos os personagens carregam uma bagagem complexa que ajuda a explicar como eles foram moldados nas pessoas que conhecemos no presente momento. Esse passado pode surgir para ressaltar algum tema do jogo, como conflitos familiares e o sofrimento de minorias, ou alimentar o enredo. Acima de tudo, sua finalidade acaba sendo de moldar a personalidade de Turing, que ainda está aprendendo a lidar com sua recém-adquirida consciência.
Conflitos familiares podem acabar revelando pistas sobre o mundo e dicas para solucionar o mistério.


Além de conquistar aliados por escolhas de diálogo, também é importante ficar atento ao cenário. Coletar itens e interagir com o cenário é uma das grandes marcas dos jogos point and click e, apesar de ainda presente neste jogo, acaba sendo subutilizado. Os itens só se mostram eficazes em raras ocasiões nas quais é necessário superar uma pessoa que se recusa a cooperar. O foco em aliados é interessante para enriquecer a trama, mas a versatilidade dos itens poderia ser melhor explorada.

Saber é poder

O enredo é um delicado cruzamento de sci-fi com drama policial. Ele consegue prender o jogador com seu mistério ao mesmo tempo que explora as nuances éticas e filosóficas de novas tecnologias, marca de uma grande ficção científica. A história é bastante sucinta e o jogador estará pulando de uma pista para outra boa parte do tempo. Mesmo quando as pistas parecem te levar para um beco sem saída, não se engane. O que parece uma história paralela acaba se mostrando conectada com tudo.

A atenção a detalhes dos roteiristas é estonteante. O passado de um personagem explica o que acontece com outro personagem e tudo se soma de uma maneira bastante coesa. Todas as pistas são espalhadas ao longo dos diálogos do jogo e desvendar o quebra-cabeça de o que aconteceu de fato enquanto a história se desenrola é bastante satisfatório.
Não é só "Os Simpsons" que preveem com uma precisão perturbadora.


Os questionamentos que surgem como subproduto da trama também são bastante pertinentes para o momento político em que vivemos. Além de trazer toda a questão da diversidade, o jogo faz duras críticas à sociedade informacional que nos tornamos, em que o consumo excessivo de informação nos torna suscetíveis à manipulação de grandes corporações. É preocupante ver eventos que eram para ser distópicos estarem acontecendo já no presente em alguns países, mas é um importante alerta para ficarmos mais atentos com as reais intenções das empresas que se fingem de boazinhas.

Mais punk que cyberpunk

Para acompanhar esta incrível obra de ficção científica, a versão para Nintendo Switch conta com uma seção bem recheada de extras. Além de já contar com o epílogo Endless Christmas, que estreou nas outras versões de console, o híbrido da Nintendo traz bastante conteúdo exclusivo, incluindo: perfil dos personagens, coletânea de músicas, vídeos e trailers que mostram a trajetória do jogo desde o crowdfunding e um artbook digital incrível com detalhes da concepção de personagens. Há também uma fase extra chamada Punks que, apesar de não trazer nada de novo para a história, ajuda a contextualizar melhor dois dos personagens mais adoráveis do jogo.

Em um momento no qual a indústria está cada vez mais preocupada em trazer jogos acessíveis a uma parcela cada vez maior do público, é bem raro encontrar um jogo que consegue alcançar isso através de uma escrita perspicaz e respeitosa. 2064: Read Only Memories INTEGRAL respeita o seu público não apenas entendendo as diferenças de cada um, mas também confiando que somos mais do que capazes de refletir e dialogar sobre assuntos complexos também em videogames. Com seus personagens carismáticos, este jogo celebra o que há de melhor na nossa humanidade: a nossa empatia.
Bom lembrar que a polarização só nos torna mais fracos.

Prós

  • Mistério cheio de reviravoltas e conexões surpreendentes;
  • Personagens profundos que desafiam estereótipos e promovem diversidade; 
  • Dublagem adiciona uma emoção extra aos diálogos;
  • Visual mistura inspirações retrô e futuristas para representar um futuro convincente;
  • Experiência adventure que muito lembra clássicos dos anos 1980;
  • Material extra da versão de Switch tem muito a acrescentar.

Contras

  • Quantidade ínfima de minigames;
  • Pouco uso dos itens coletados.
2064: Read Only Memories INTEGRAL — PC/PS4/XBO/Mobile/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Midboss
Gabriel Mattos faz joguinhos na UFRJ, quando deveria estar estudando Computação. Estuda computação, quando deveria estar escrevendo. Escreve, quando deveria estar dormindo e não dorme, porque fica sempre no Twitter. Também pode ser encontrado noInstagram.

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