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Análise: Hello Neighbor (Switch) prova que a preguiça pode arruinar qualquer coisa

Título indie de Survival Horror tem uma premissa cativante, mas falha feio em todos os outros quesitos.


Atire a primeira pedra quem nunca imaginou quando era criança que aquele vizinho rabugento da casa ao lado escondia um segredo macabro dentro do seu porão. Se você também pensava isso, saiba que Hello Neighbor (Switch) explora justamente essa ideia, mas com um porém. Desta vez, realmente existe algo lá dentro e só você pode solucionar esse mistério.

Lançado originalmente no final de 2017 pela TinyBuild Games, o polêmico jogo indie de Survival Horror finalmente chegou ao console híbrido da Nintendo. Apesar de utilizar gráficos cartunescos, o título combina uma narrativa aterrorizante com elementos de exploração, stealth e puzzles para tentar conquistar o público.

Lembranças do passado

A história começa quando um jovem garoto joga sua bola de futebol sem querer no quintal do vizinho. Enquanto tentava recuperar o seu pertence, a criança foi surpreendida com uma visão assustadora na janela da casa. Dentro da residência, o vizinho estava trancando uma porta e escondendo nela algo que parecia ser uma mulher gritando e se debatendo com todas as forças. Diante daquilo, o corajoso garoto resolve invadir a casa secretamente e solucionar o mistério sem ser pego pelo vizinho.

Para adentrar nos confins da residência, o jogador precisa explorar cada cômodo possível a procura do item necessário para destrancar o caminho que leva ao próximo ato do jogo. A perversa estrutura da casa, que mais parece uma mansão, é lotada de caminhos secretos, puzzles complexos e chaves escondidas espalhadas por todos os lugares.

O clima de horror presente no jogo é surrealista e abusa de pequenos detalhes para causar sensações no jogador. São minúcias sutis, mas que instigam curiosidade e apreensão na nossa mente.

É importante citar que Hello Neighbor não se foca apenas na exploração de cenários macabros, mas também aposta no stealth para construir tensão psicológica na jogatina. Avançar pelos diversos caminhos disponíveis requer muito mais cuidado do que parece, pois, se você for visto pelo vizinho, ele irá te perseguir loucamente que nem um psicopata. As perseguições que acontecem nesses momentos são muito tensas e empolgantes, graças ao ótimo uso de efeitos sonoros e visuais para aumentar a tensão do momento.

Se não bastasse ter uma velocidade insana, o vizinho também não depende só de força física para te capturar. Graças a uma ambiciosa inteligência artificial, o inimigo pode aprender e se adaptar de acordo com os movimentos do jogador. É incrível notar como a aproximação da infiltração pode mudar drasticamente de uma hora para outra por causa desse fator. Na prática, essa mecânica é muito bem implementada e promove de forma natural o uso da improvisação na gameplay.

Caso prefira, também é possível diminuir a velocidade e o nível da inteligência artificial do vizinho ao selecionar a opção “Friendly Mode”. É uma opção de fato interessante para quem não quer ser intrometido a todo momento, mas em troca te faz abrir mão da adaptação inteligente do vizinho, que é de longe a coisa mais legal do título.



Infiltração frustrada

Apesar de ter muitas ideias promissoras, nem tudo funciona tão corretamente assim em Hello Neighbor. Premissas que eram ótimas no papel foram transformadas em verdadeiras aberrações do game design por causa da preguiça dos desenvolvedores em concretizar e lapidar as ideias no jogo.  Bugs e inconsistências envolvendo a péssima física do jogo são os problemas mais recorrentes, mas nem de longe chegam perto do maior defeito do jogo: a dificuldade injusta. Graças a ela, se irritar será algo muito frequente na jogatina.

Prosseguir na campanha é uma tarefa arduamente insana por causa dos motivos mais bestas possíveis. Quase todos os puzzles obrigatórios para avançar são tão sem pé nem cabeça que é quase impossível completar o jogo sem usar um guia. Muitas vezes eles requerem realizar ações excentricamente aleatórias e não apresentam nenhuma dica ou pista do que é necessário fazer. Some isto a perseguição frenética do vizinho e você tem uma receita perfeita para deixar qualquer um perdido e irritado.

Tentar resolver os puzzles avançados de Hello Neighbor é como pedir para uma criança resolver uma conta de cálculo avançado. Ela claramente não tem como saber o que fazer, mas os desenvolvedores, por alguma razão divina, acreditam que ela consegue acertar por meio da tentativa e erro. Não preciso nem dizer que isso é um erro grotesco de level design, né?

Todo o clima sombrio e tenso que o jogo constrói com cuidado é simplesmente jogado fora em um segundo por causa da dificuldade infernal. Até os momentos que deveriam ser de ação e adrenalina perdem a emoção por causa dos constantes distúrbios causados pela falta de polimento do jogo.

Quebrando cabeças com o hardware

Por incrível que pareça, os controles da versão de Switch ainda conseguem piorar a situação. Apesar de ser ajustável, não existe um meio termo para a sensibilidade da mira. Ou ela é muito rápida, ou muito lenta. Normalmente isso não é um problema, mas o próprio game design desfavorece e prejudica quem não alterna as sensibilidades nos momentos apropriados.

Colocar o cursor em cima de pequenos objetos, por exemplo, requer uma sensibilidade menor e mais precisa para não se tornar algo irritante. No entanto, você estará ferrado se o vizinho te avistar usando essa sensibilidade, pois é impossível realizar as curvas e viradas rápidas necessárias para fugir dele sem uma sensibilidade alta.

Ainda há outros problemas técnicos que poderiam muito bem ser consertados na versão de Switch. Se deslocar rápido demais ou entrar em salas com muitos objetos, por exemplo, resulta geralmente na oscilação da taxa de frames por segundo. A renderização dos cenários também é problemática e falha ocasionalmente.

A trama, pelo menos, é abordada de uma maneira muito cativante, apesar de tomar alguns rumos questionáveis. Observando melhor com calma, é normal achar que a história realmente poderia ser bem melhor se fosse repensada com mais cuidado. Muitos detalhes ficam no ar e precisam ser interpretados com sutileza para entender o final confuso. O pouco tempo disponível para desenvolver a narrativa também não é dos mais agradáveis e, no fim, deixa aquela sensação azeda de que “algo” ficou faltando.








Potencial desperdiçado

É realmente uma pena saber que tanto potencial foi desperdiçado em vão. Desde o primeiro anúncio, Hello Neighbor sempre prometeu coisas incríveis, porém acabou esquecendo que é necessário se esforçar para colocar em prática o que é perfeito no papel.

Frustrante, mal polido e inacabado, Hello Neighbor é o exemplo perfeito de um título que só gera interesse por causa da ótima premissa, porque se dependesse do resto, seria provável que o jogo fosse esquecido eternamente na poeira das prateleiras virtuais.

Prós:

  • Premissa muito interessante;
  • Transmite tensão e adrenalina de forma magistral;
  • Inteligência artificial do vizinho se adapta ao jogador.

Contras:

  • Quedas de frames comprometedoras;
  • Controlar a mira é um pesadelo com os Joypads;
  • Físicas de contato lotadas de bugs e glitches;
  • Puzzles obrigatórios quase impossíveis de se desvendar sem detonado;
  • Inimigos injustos e irritantes;
  • Potencial desperdiçado

Hello Neighbor – Switch/PS4/PC/XONE – Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Switch 

Análise produzida com cópia digital cedida pela TinyBuild Games
Revisão: Vinícius Fernandes

Rhuan Bastos Rodrigues é um estudante de jornalismo que sonha em poder noticiar o anúncio de Half-Life 3. Apaixonado por jogos e pela Nintendo desde criança, também ama esportes e pretende escrever um livro sobre o assunto no futuro. É capaz de colocar todos os episódios de Neon Genesis Evangelion em um abrigo anti-nuclear apenas para nunca correr o risco de esquecer eles. Pode ser encontrado endeusando a Capcom no Facebook, Steam e Twitter.

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