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Análise: Okami HD (Switch) é a versão definitiva de um dos mais belos jogos já criados

Com jogabilidade adaptada aos recursos do Switch, a versão em alta definição mostra que Okami ainda é um jogo de qualidade ímpar.


Lembro-me quando Okami foi lançado para o PlayStation 2. A aventura chamou minha atenção por dois motivos: o primeiro era que as revistas da época aclamaram o título como um dos melhores já criados, destacando principalmente seu aspecto visual. O segundo foi que Okami se comparava a um “The Legend of Zelda para o console da Sony” e como fã declarado de jogos que mesclam exploração, puzzles e colecionáveis, eu precisava jogá-lo a todo o custo. Mas havia um porém.

Eu não tinha um PlayStation 2, logo, precisei convencer um amigo meu que possuía o console a se interessar por Okami. Concluída essa missão, juntamos dinheiro e compramos o jogo. Passei muitas tardes na casa dele me aventurando por Nippon e pude sentir o quanto Okami era exatamente o que as revistas descreviam. Era um jogo cativante.


Também joguei a versão de Okami para Wii, que agilizou e facilitou um pouco a jogabilidade central do Celestial Brush, mas esperei para ver o título no Wii U, algo que infelizmente não aconteceu. Talvez os deuses estivessem esperando o Nintendo Switch. No console híbrido da Big N, Okami HD encontrou o lar perfeito e brilha mais uma vez.


O sol há de brilhar mais uma vez 

Como uma clássica história do folclore japonês, Okami HD retrata uma lenda que aconteceu há 100 anos. Orochi, um terrível demônio de oito cabeças, foi selado por um lobo branco chamado Shiranui e Nagi, um guerreiro espadachim, salvando Kamiki Village e Nami, a amada de Nagi. Entretanto, após um século, o selo de Orochi foi quebrado e o mal se espalhou novamente. Amaterasu, a deusa do sol e reencarnação de Shiranui, é invocada por Sakuya, guardiã de Kamiki Village e espírito da floresta, para restaurar a natureza e a paz no local.

Dois aspectos acompanham o jogador durante toda aventura, são eles a ambientação oriental, com uma belíssima trilha sonora de instrumentos clássicos japoneses que acompanha muito bem a jornada, e a representação de pintura. Okami já era visualmente impressionante quando foi lançado em 2006 e a alta definição enalteceu ainda mais o jogo. O estilo artístico inspirado na técnica de pintura sumi-ê transmite a sensação de uma obra de arte viva, com traços fortes e cores vibrantes. A história é contada através de pinturas desenhadas em pergaminho e o jogador faz parte dessa arte.



Mesmo na forma de lobo, Amaterasu possui o Celestial Brush, um pincel divino capaz de interagir com o ambiente. A deusa ficou muito tempo adormecida, logo Okami HD gira em torno da recuperação dessas habilidades com o artefato, que são obtidas gradativamente durante a jornada. Para utilizá-lo, basta pressionar o botão R para pausar a ação e uma espécie de papel cobre a tela. Daí basta desenhar a técnica desejada. Uma ponte está quebrada? Complete-a com o pincel para restaurá-la. Quer transformar a noite em dia? Desenhe um sol no céu. Precisa explodir uma parede rachada? Rabisque uma bomba.

As técnicas com o Celestial Brush são bastante variadas, há 13 no total, cada uma cedida por deuses representados pelos doze animais do zodíaco asiático com a adição do gato. Amaterasu pode controlar a água, criar ventos, manipular a eletricidade e até desacelerar o tempo. Você pode desenhá-las na maneira tradicional, usando o direcional analógico direito, realizando movimentos com o Joy-Con no modo Dock (similar à versão de Wii) ou simplesmente tocando na tela no modo portátil, todas bastante funcionais e permitindo escolher a que melhor lhe agrade. As possibilidades transmitem a sensação de que Okami HD é um jogo que nasceu para o Switch. Essas mecânicas são muito exigidas no jogo e presentes na exploração, na resolução de enigmas e durante as batalhas.


Okami HD incentiva a interação do jogador com os cenários. O mesmo traço que destrói pedras e objetos nas vilas causa danos nos demônios inimigos em batalhas. Conforme o jogador desbloqueia novas técnicas do Celestial Brush, o leque de possibilidades aumenta e a liberdade em confrontos também. Por exemplo, caso se depare com um inimigo de fogo, você pode utilizar a técnica do vento para apagá-lo e deixá-lo vulnerável ou pode iniciar um traço em sua chama e riscar até outros inimigos para queimá-los. Os confrontos também incentivam a agilidade e domínio de técnicas, já que ao derrotar inimigos mais rapidamente e sem sofrer danos, Amaterasu recebe mais dinheiro como recompensa.


Entre gratidão e as marcas do tempo

Se por um lado o estilo visual continua surpreendendo, por outro Okami exibe as marcas do tempo. É claro que a versão do HD manteve a aventura original intacta, mas é perceptível o quanto alguns de seus aspectos realmente são do passado. A aventura é extremamente linear e o jogador não pode explorar outras áreas enquanto não resolver o foco central da trama. Além disso, o jogo é guiado demais. Issun, o pequeno ser da raça Poncle que acompanha Amaterasu ao melhor estilo “Navi”, é bastante tagarela e engraçado, mas seu excesso de dicas e explicações não permite ao jogador descobrir os segredos sozinho.

Entretanto, mesmo se passando doze anos de seu lançamento original, a quantidade de conteúdo presente em Okami continua surpreendendo. É absurdo a infinidade de sidequests, colecionáveis e minigames presentes na terra de Nippon e você pode ter certeza que levará dezenas de horas para completá-los. Há dezenas de animais para alimentar, listas de inimigos para encontrar e eliminar, movimentos de batalha para aprender, árvores para restaurar, baús para coletar itens raros e personagens para ajudar. Você passará muito tempo revisitando áreas para utilizar a técnica do Celestial Brush obtida recentemente para descobrir um novo segredo.



E por falar neles, o trabalho com os NPCs (personagens não-controláveis) é um ponto forte do título. Cada personagem é único, engraçado e possui sua própria personalidade. Seus sentimentos são transmitidos através de balões e eles sempre reagem a cada ação realizada com o pincel celestial. Okami HD ainda traz um interessante sistema de gratidão para melhorar as habilidades de Amaterasu. Cada vez que ela auxilia um aldeão, alimenta um animal ou restaura a natureza, recebe pontos de Praise. Esses podem ser convertidos para aumentar a barra de energia, a quantidade máxima de tinta do Celestial Brush ou a capacidade de dinheiro. Você escolhe no que deve investir.

A versão do console híbrido da Big N também utiliza o HD Rumble para representar as ações de Amaterasu, como pequenas vibrações durante a corrida pelos cenários e os movimentos em batalhas. Porém, o único aspecto exclusivo que não combinou bem foi o minigame da pescaria. Os controles de movimento não são tão receptivos para puxar os peixes fisgados na direção contrária.


Obra-prima dos videogames

Ao melhor estilo The Legend of Zelda, Okami HD apresenta dungeons bem estruturadas, com puzzles criativos e chefes enormes. Assim como a clássica série da Nintendo, o jogador utiliza a nova técnica do Celestial Brush obtida no local para avançar pelos desafios, derrotar o chefão e para avançar para a próxima área do mapa. Se você gosta de jogos nesse estilo, vai se sentir familiarizado com Okami.

Para quem curte uma grande aventura, Okami HD é indispensável. A história principal exige várias horas para concluí-la e as dezenas de coisas para fazer pelas regiões de Nippon farão o título permanecer na memória do seu Nintendo Switch por muito tempo. Por ser um jogo carregado de cutscenes e diálogos, talvez a ausência da opção de legenda em português seja um empecilho para quem pretende se aprofundar na trama ou descobrir todos os segredos do jogo.

Okami HD é uma obra-prima interativa. É uma pena que uma série com tanta qualidade e dedicação tenha se estagnado com apenas dois jogos. O relançamento do primeiro título talvez seja uma forma da Capcom tentar destacar um jogo que possui brilho próprio e precisa apenas de um pouco mais de reconhecimento. Se pudéssemos pedir um desejo aos deuses, gostaríamos de ver Okami ganhar continuidade e que não precisássemos esperar 100 anos para isso. Infelizmente, ainda não temos um Celestial Brush para tornar isso realidade.



Prós

  • Estilo visual inspirado na técnica sumi-ê ficou ainda impressionante em alta definição;
  • Personagens únicos e divertidos;
  • A jogabilidade com o Celestial Brush ficou ágil e mais precisa com o uso do Joy-Con e da touchscreen do Switch;
  • Trilha sonora cativante;
  • Possibilidade de realizar melhorias nas habilidades de Amaterasu com recompensas.

Contras

  • O uso dos controles de movimento é confuso no minigame da pescaria;
  • Excesso de dicas não permite ao jogador descobrir os segredos por si só;
  • Ausência de opção de legenda em português.
Okami HD — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom

Alex Sandro de Mattos é formado em Gestão de TI. Entre se aventurar por Hyrule e se perder em Silent Hill, gosta de publicar fatos interessantes e bobagens no Nintendo Blast. Pode ser encontrado jogando games 2D e também no Facebook.

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