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Análise: Bad North (Switch) traz estratégia minimalista sem deixar de ser desafiador

Escape de vikings em uma aventura difícil e com muitas opções táticas.


Muita gente não gosta de títulos de estratégia em tempo real por causa da presença de várias mecânicas que deixam as coisas bem complexas: unidades e recursos para gerenciar, construções para administrar e assim por diante. Bad North é um representante do gênero que tem como principal destaque ser bem minimalista, focando somente em algumas poucas características. O resultado é uma experiência acessível, mas não se deixe enganar: é um jogo que pode ser muito brutal.

A fuga desesperada de um povo

Em Bad North, controlamos um grupo de pessoas que está fugindo constantemente de ataques de vikings. Para isso, esse povo navega por inúmeras ilhas se defendendo das investidas inimigas. A ação estratégica acontece em tempo real e o conceito principal é muito simples: cada ilhota é uma pequena fase e precisamos impedir que os vikings destruam todas as casas. Para isso, comandamos até quatro batalhões e a principal ação é direcionar cada grupo para algum dos espaços da ilha — os guerreiros atacam automaticamente os oponentes que entram em seu campo de alcance. A vitória é alcançada ao derrotar todas as ondas de inimigos.

A jornada tem alguns aspectos de roguelike. Os estágios são distintos, pois seus elementos são criados por meio da técnica de geração procedural — ou seja, o jogo monta uma ilha aleatória respeitando algumas regras internas. Além disso, as rotas e equipamentos disponíveis em cada partida também mudam. A morte dos comandantes é permanente, e não ter nenhum batalhão disponível significa recomeçar a aventura desde o início. Ao contrário da variação mais branda roguelite, Bad North não tem progressão ou desbloqueáveis entre as partidas, ou seja, cada uma delas é completamente independente.


O conceito principal é bem minimalista, no entanto o jogo apresenta algumas camadas de complexidade. Moedas são adquiridas para cada uma das construções intactas no final de cada estágio e elas podem ser utilizadas para melhorar as unidades com técnicas especiais ou classes. São três categorias: os cavaleiros são rápidos e contam com escudos para se defenderem; os lanceiros impedem o avanço de tropas inimigas ao custo de menor versatilidade no ataque; os arqueiros atacam à distância, mas são completamente vulneráveis. Por fim, cada batalhão pode equipar um item capaz de prover alguma habilidade de suporte ou movimento especial.

Controlar o pequeno exército é bem fácil, pois os comandos são simples e intuitivos: um botão para circular entre as unidades e outro para confirmar a ação, sendo também possível utilizar a tela de toque do Switch no modo portátil. Entre os dois eu gostei mais dos comandos tradicionais por causa da agilidade e precisão. A ação fica em câmera lenta enquanto estamos escolhendo os comandos, o que permite pensar com calma o próximo passo. Por fim, é um jogo perfeito para momentos em que não temos muito tempo, pois cada fase dura alguns poucos minutos.


Tensão ao enfrentar os vikings

Bad North é muito fácil de entender, mas isso não significa uma aventura tranquila, pelo contrário: ele é muito difícil e repleto de momentos brutais, o que vai de encontro ao tema de um povo em fuga. As primeiras ilhas apresentam situações simples, como um grupo de inimigos atacando por vez, mas rapidamente isso muda. Quando você menos espera, vários grupos de vikings estão atacando simultaneamente diferentes pontos da ilha, sendo muito comum a presença de mais inimigos do que de aliados — é fácil se desesperar e ser completamente sobrepujado.

Um detalhe muito interessante é a importância da topografia das ilhas. A maioria delas apresenta pontos em que é possível conter o avanço dos inimigos quando posicionamos as tropas de maneira correta. Além disso, algumas técnicas e itens são mais fáceis de utilizar quando a unidade está em um terreno mais elevado: arqueiros acertam inimigos antes mesmo deles chegarem na ilha, bombas são mais fáceis de lançar e assim por diante. A topografia, em conjunto com as classes e itens, cria muitas opções de estratégia. Em muitas fases, bloqueei o avanço de vikings com um grupo de lanceiros enquanto os arqueiros lançavam flechas, por exemplo — esse tipo de estratégia me lembrou bastante um tower defense.


Bad North é um jogo sobre se adaptar às situações. Os inimigos podem chegar de qualquer direção e é essencial mudar rapidamente de estratégia para conseguir vencer. As partidas são repletas de dilemas: será que dá tempo de mandar um esquadrão ferido se recuperar em uma casa antes da próxima onda? Qual é a melhor opção de divisão de forças para enfrentar três diferentes grupos de inimigos? Ou será que é melhor abandonar as casas e fugir da ilha? Diferentes tipos de inimigos também forçam a mudança constante de táticas.

Qualquer erro pode ser fatal, resultando em uma experiência tensa e até mesmo desesperadora. Por sorte, o jogo oferece ferramentas suficientes para resolver os problemas, basta usar de estratégia e um pouco de experimentação. Para mim, a melhor característica de Bad North é conseguir sair ileso de um estágio complicado — a vitória traz um misto de alívio e realização. Contudo, claro, é muito fácil se frustrar com o jogo, pois perder definitivamente um batalhão bem equipado diminui bastante as chances de vitória no futuro.


Beleza e limitações

É curioso como o visual de Bad North esconde a brutalidade da estratégia. O jogo conta com ambientação bela e pacífica, com gráficos simples e cores suaves, cada ilha lembrando uma pequena maquete em movimento. Observar os pequeninos guerreiros lutando é hipnotizador por causa do alto nível de detalhes das animações, e gostei bastante de ficar olhando as pequenas minúcias de cada fase — cachoeiras, cavernas, a influência do clima e mais.

As ilhotas passam uma sensação bucólica, porém sempre me surpreendo em como elas estão transformadas no final das batalhas: sangue pinta o chão, cadáveres estão espalhados pelos cenários e barcos ficam encalhados nas encostas. É uma mudança meio assustadora, mas compatível com a temática. Quase não há trilha sonora, porém as poucas composições soturnas aparecem nos momentos mais intensos do combate, reforçando a tensão da experiência.

Bad North é belo e oferece boas opções de estratégia. Entretanto, ele tem algumas coisas que me incomodaram. A primeira delas é a falta de variedade de situações: mesmo com fases geradas proceduralmente, fiquei com a sensação de repetição, pois as batalhas são bem parecidas, mesmo com diferentes tipos de inimigos. Algo que, ao meu ver, poderia ser facilmente  resolvido com a inclusão de objetivos alternativos ou estágios com regras diferentes.

Também senti falta de incentivos para jogar de novo, pois fora uma dificuldade difícil, não há desbloqueáveis, modificadores ou nada do tipo. Por fim, os elementos aleatórios, em alguns momentos, me pareceram desbalanceados: em uma partida inimigos do tipo elite apareceram logo no início da jornada e destruíram meu exército rapidamente, já outra aventura foi bem fácil por ter muitos arqueiros como oponentes.


Minimalista e cruel

Bad North se destaca como título de estratégia ao se concentrar em poucas mecânicas. O resultado é um jogo acessível, mas nada fácil: as batalhas apresentam momentos muito complicados que exigem domínio das tropas e experimentação. A combinação de comandos simples, um pouco de customização e grande influência da topografia oferece várias camadas interessantes de complexidade. De negativo, há uma sensação de repetição por causa da variedade reduzida de situações e ausência de extras. Por trás de um visual agradável, Bad North esconde uma experiência tensa e brutal, e é justamente isso que o torna ótimo.

Prós

  • Mecânicas de estratégia simples e bem construídas;
  • Andamento ágil, com fases curtas e ação intensa;
  • Visual agradável, com ilhas que lembram pequenas maquetes.

Contras

  • Ausência de desbloqueáveis e incentivos para novas partidas;
  • Elementos aleatórios às vezes atrapalham a experiência;
  • Pouca variedade a longo prazo.
Bad North — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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