Jogamos

Análise: Octopath Traveler (Switch): histórias divergentes se cruzam com batalhas épicas

O jogo se perde um pouco entre suas oito histórias, mas entrega um estrutura sólida de batalha e exploração.


Para quem estava esperando o lançamento de um jogaço, para finalmente estrear a chegada da  Loja Nintendo no Brasil, Octopath Traveler (Switch) é uma ótima pedida. Produzido pela Square Enix, o jogo chama atenção principalmente pelo seu visual ousado que mistura estruturas tridimensionais com uma pixel art retrô, modernizando o estilo que tanto agrada os marmanjos. Essa ideia de atualizar as tradições do gênero vai além da arte, transbordando levemente para a história e até seus sistemas mais consagrados. O resultado é um título que mesmo acomodado em sua nostalgia, traz à mesa novas ideias que são muito bem vindas.

Não era uma vez, eram oito

A proposta de Octopath Traveler para a narrativa é uma forte ruptura dos moldes inflexíveis que estamos acostumados a ver na grande maioria das obras do gênero. Costumamos ter um herói valente, de moral variável, que parte em uma jornada com amigos que conquista especialmente para ajudá-lo. Ele almeja derrotar um grande vilão, um verdadeiro monstro, normalmente a personificação de tudo que é mal. Uma única história em que todos têm seus papéis bem definidos para salvar o mundo da destruição.

Esqueça tudo isso ao ligar esse jogo! Para começar, essa grande jornada para derrotar um verdadeiro monstro que centraliza toda maldade do mundo não existe aqui. Não existe um único mal, existem vários. Não é o destino do mundo que está em jogo, mas sim o destino de cada um de seus oito protagonistas. Cada personagem traz a sua própria história e é aí que reside uma das maiores forças e um dos maiores defeitos do jogo.





Entre o progresso e o regresso 

Octopath traz uma abordagem muito mais humana a sua narrativa, com personagens complexos enfrentando vilões que representam problemas reais. Em um momento, sentimos as dores de um guerreiro que, sem um reino para servir, questiona seu lugar no mundo. Minutos depois, somos confrontados com o preciosismo intelectual que vemos no meio acadêmico através de um mago estudioso. Em outro momento, estupro, tráfico de mulheres e a vida sombria de um bordel pelos olhos de uma dançarina que sonha com vingança.

Muitos temas sérios e contemporâneos encontram no jogo um espaço para serem analisados sobre a lente mais leve da fantasia medieval. Quando o jogo consegue de fato explorar esses temas, em algumas histórias, vemos todo potencial dessa narrativa fragmentada. Entretanto, as maiores falhas surgem exatamente quando os escritores insistem em visitar estereótipos fáceis que já foram explorados neste gênero a exaustão.

É assim com a história de Ophelia, uma clériga sensível em uma peregrinação religiosa, Tressa, uma mercadora desajeitada e H'aanit, a caçadora que superou seu mestre. Isso sem falar do ladrão Therion: sua aventura se resume inteiramente no fato dele ser um ladrão e o uso de uma quantidade tão exagerada de flashbacks para tentar mascarar sua falta de personalidade, algo que deixaria as séries de herói da Netflix com inveja.

Uma pedra no caminho

Dividir a atenção do jogador em oito histórias acaba sendo um tiro no pé para o enredo. Num geral, a progressão do jogo se torna bastante arrastada e mesmo que as histórias tragam boas premissas, elas acabam se perdendo ao longo da aventura e terminam mal desenvolvidas. Muito cuidado foi posto no primeiro capítulo de cada personagem, apresentando com clareza o drama a ser desenvolvido, mas nunca o desenvolvendo realmente. Há muita repetição de estruturas e soluções preguiçosas, bastante previsíveis de roteiro, principalmente na rota de Therion.
Precisa de um item raro super específico? Claro que um vendedor acabou de chegar na cidade com exatamente o que você procura!


Todo potencial de explorar os temas propostos acaba se perdendo em uma narrativa rasa. O cuidado em trazer quantidade não acompanha a qualidade que se espera de um bom RPG e as histórias acabam sufocando umas às outras. Possivelmente, se as aventuras se interligassem de algum modo, veríamos uma coesão melhor que resultaria num arco mais completo, mas isso precisou ser sacrificado para permitir que os jogadores pudessem escolher quando e quais histórias jogar.

Essa liberdade de escolher as histórias que se deseja seguir é um pouco ilusória. Mesmo que de fato seja possível completar o capítulo de qualquer personagem na ordem que você quiser, o nível dos inimigos que você enfrentará em cada capítulo te induz a seguir uma certa sequência. Ainda é possível quebrar essa ordem com um grinding intenso, ao custo de diluir ainda mais a experiência narrativa do jogo.
Girando prum lado e pro outro para agilizar o grinding




Lute no seu ritmo

Felizmente, o jogo tem muito a oferecer fora do âmbito narrativo e aqui ele executa tudo com muita eficiência. Diversos sistemas tradicionais de JRPGs marcam presença com uma leve repaginada que traz uma cara única ao jogo. As batalhas em turno, por exemplo, que costumam ser estáticas e arrastadas em outros jogos, se mostram bastante dinâmicas com a adição de Shield PointsBattle Points.

Shield Points representam a defesa de um adversário que é reduzida quando atacados com suas fraquezas. Quando esse número chega a zero, a defesa do adversário é quebrada, ele perde um turno e fica mais suscetível a ataques. Essa é a hora perfeita de gastar seus Battle Points para finalizá-lo de uma vez.
Quebrar as defesas dos adversários te dá um tempinho para respirar


Battle Points são pontos de ação extra. Todo turno que você não gasta seus pontos, um BP é adicionado a sua reserva. Eles podem ser utilizados para maximizar o poder de alguma habilidade ou conseguir golpes extras com seu ataque padrão. Esses golpes extras podem agilizar a quebra da defesa dos inimigos, mas são mais efetivos quando usados contra um inimigo com a defesa baixa. Saber a hora certa de gastar seus BPs vai da estratégia de cada um e é uma forma inteligente e divertida de dinamizar as batalhas.

É bom que esses recursos ajudem a acelerar as batalhas, porque as batalhas contra os bosses são enormes. Eles têm números altíssimos de Shield Points e estão sempre acompanhados de lacaios com habilidades irritantes. Mesmo com uma boa estratégia, dificilmente você vai vencê-lo se seu nível não for superior ao recomendável. São batalhas memoráveis que poderiam durar um pouco menos.





Trabalhar para conquistar 

Outro fator importante nas batalhas é o sistema de Jobs. Cada personagem tem a sua classe principal que não pode ser alterada e lhe garante vantagens exclusivas dentro e fora de batalha. Em batalha, essas habilidades variam desde revelar as fraquezas de um adversário a invocar feras para te ajudar no maior estilo Pokémon. Combinar essas vantagens únicas com classes secundárias que lhe complementam tornam as batalhas ainda mais fluidas. Fora de batalha, chamadas de Path Action, elas trazem novas maneiras de interagir com NPCs que se mostram essenciais para completar grande parte das side quests.

O mapa do jogo está lotado de side quests que variam de tediosas a surpreendentes. A maioria é facilmente solucionada trazendo os itens certos ou usando as Path Action de duelar ou inquirir, mas algumas se desenrolam de maneira interessante. Uma delas, por exemplo, só é resolvida ao perder uma batalha e outra se estende ao longo de diversos capítulos. Os problemas da população ajudam a trazer as cidades a vida e complementam a construção de mundo feita brilhantemente pela equipe de arte.
A maioria das sidequests exige a Path Action de um personagem específico




Um diorama vivo

A arte do jogo é um show a parte. Combinando estruturas 3D com pixel art, cada novo cenário parece um verdadeiro diorama. Efeitos visuais, como partículas e iluminação dinâmica, contrastam com o mundo retrô em uma improvável harmonia. Todavia, o ambiente tridimensional acaba sendo muito mais limitado que os mapas 2D de jogos antigos. Na maioria dos cenários, só é possível se movimentar por caminhos estreitos, o que atrapalha bastante a exploração uma vez que há poucos caminhos a seguir.

A trilha sonora é uma das melhores já feitas para o gênero, sendo o elemento mais sólido de todo título. Ela consegue ser imponente e convidativa ao mesmo tempo, o que combina bastante com a proposta do jogo. Cada personagem é representado por um instrumento específico com um mesmo tema que é usado para conectar as músicas mais tranquilas de diálogo com a música agitada de batalha. Esse artifício ajuda a agregar personalidade a cada aventura e garante uma surpreendente coesão que tanto falta na história.

O efeito de névoa e a iluminação dão um charme extra a essa floresta pixelada
Apesar de ter alguns problemas de enredo, Octopath Traveler é um ótimo JRPG que consegue renovar antigos dogmas do gênero tão bem quanto seu irmão de estúdio, Bravely Default (3DS). Seu combate tem mais camadas de estratégia que a maioria dos RPGs de turno, graças a sistemas interligados que agilizam as partidas. Juntando isso com uma apresentação artística primorosa, temos um jogo recomendado para qualquer fã do gênero. Não é nada revolucionário, mas com certeza pavimenta o caminho para novos jogos da Square brilharam no Nintendo Switch.

Prós

  • Visuais impecáveis mesclando pixel art com estruturas 3D;
  • Trilha sonora cativante e funcional;
  • Algumas histórias exploram temas maduros e relevantes;
  • Batalhas de turno dinâmicas;
  • Classe principal tem habilidades exclusivas que tornam cada personagem insubstituível;
  • Sistema de classe secundária versátil.

Contras

  • A estrutura de narrativa, apesar de promissora, atrapalha o ritmo do jogo;
  • Histórias se desenvolvem de maneira preguiçosa;
  • Grinding obrigatório para quebrar a ordem dos capítulos ou ignorar certas histórias;
  • Cenários, em sua maioria, compostos de caminhos estreitos que limitam o jogador.
Octopath Traveler - Switch - Nota: 8.0


Revisão: Vinícius Rutes
Octopath Traveler está disponível na Loja Nintendo
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo
Gabriel Mattos faz joguinhos na UFRJ, quando deveria estar estudando Computação. Estuda computação, quando deveria estar escrevendo. Escreve, quando deveria estar dormindo e não dorme, porque fica sempre no Twitter. Também pode ser encontrado noInstagram.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook