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Análise: The Low Road (Switch) — bastante charme e pouca diversão

O melhor (e o pior) do mundo da espionagem industrial na década de 70.

Ah, aquela época de ouro da espionagem industrial dos anos 70 — uma verdadeira linha tênue entre o cool e decadente. Por um lado, você é um agente secreto (e provavelmente possui um bigode). Por outro, não é como se você fosse um agente do FBI, desvendando segredos internacionais e informações cruciais para o seu governo. Não mesmo. Você, na verdade, se ocupa lidando com intrigas entre empresas privadas. Talvez você dê sorte e pelo menos consiga sair a campo e roubar algum grande segredo industrial ou algo do tipo. No entanto, muitas vezes o trabalho se limita a fazer ligações em um escritório pequeno e decadente. E esse é o maior medo da novata, Noomi Kovacs, logo no começo de The Low Road.

Apontando e clicando sempre que dá

O ano é 1976 e Noomi Kovacs recém se formou como a primeira da turma em uma prestigiosa escola de espionagem. O próximo passo? Sair por aí desvendando crimes a torto e a direito, certo? Aparentemente não. Noomi, no seu primeiro dia, descobre que o seu trabalho se limita apenas a burocracias e papeladas. Após descobrir que apenas um agente de toda agência L.I.E.S. pega missões na rua, Noomi dá um jeito de diminuir o número de agentes até ela ser a única que resta. Evento que dá partida à toda a trama do jogo.




The Low Road da pequena desenvolvedora canadense, XGen Studios, acerta em cheio em alguns pontos cruciais, mas falha em funcionar bem, ou em realmente ser divertido (o que eu considero algo importante para um videogame). O título pertence ao gênero point-and-click e pode ser considerado praticamente um visual novel, ou quase que um "livro interativo", no bom português. O desenrolar da história é tão crucial para o apreciamento do jogo, que comentar muito sobre a narrativa por aqui iria estragar maior parte da experiência. A trama é interessante, só que mais graças ao carisma dos personagens do que a história em si. Para um jogo que depende tanto da narrativa, sinceramente, The Low Road deixa bastante a desejar nesse ponto.

Acredito que o maior problema seja a duração do título, tanto da história em geral quanto de cada pequena "área" dos sete capítulos. The Low Road falha em parecer um jogo de verdade — a história começa e termina do nada, as áreas são pequenas, os puzzles são simples, os controles são horríveis, e as opções point-and-click do mapa são bastante limitadas. Até vale a pena pegar um parágrafo a mais emprestado só para expressar a ineficiência dos controles, e como o jogo não foi pensado para o Switch (The Low Road é um jogo de PC, basicamente).



A, B, X E Y são os botões de ação, mas fazem a mesma coisa. A mecânica principal do título é apontar e clicar, mas mesmo assim você precisa pressionar o analógico da direita toda vez que quiser ter certeza se algum objeto é interativo ou não. Usar alguns dos (ínfimos) itens coletáveis com algum objeto não faz sentido nenhum, mecanicamente falando. Eu zerei o jogo e, honestamente, não tenho certeza até agora. Nos segmentos mais puzzle do jogo, que são até interessantes, em que você controla apenas o braço de Noomi e interage com alguns objetos, o botão, ou os botões, de ação são o R, L, ZR e ZL. Os outros botões não fazem nada e a XGen escolheu o jeito mais complicado possível de se realizar a ação. Tudo é muito mais difícil do que o necessário em The Low Road.

Falando de point-and-click, por mais que o título lembre os clássicos da Lucas Arts em vários momentos, sempre parece que falta alguma coisa. O sentimento que fica realmente é de um certo vazio. Entretanto, certos aspectos realmente me impedem de simplesmente odiar o jogo. A trilha sonora é fenomenal. Sério mesmo, uma das melhores trilhas de jogos que eu já ouvi. Com uma pegada meio folk, meio psicodélico e às vezes até um tanto David Bowie, a trilha original de Eric Cheng é bastante marcante e vale a pena ser escutada, mesmo sem jogar o jogo. As transições entre capítulos são genuinamente empolgantes e 100% graças à trilha, a história não adiciona nenhum peso à essa empolgação. 



A dublagem também é incrível. A interpretação de todos os personagens está praticamente impecável, principalmente a da protagonista. A Noomi, realmente carrega o jogo — é difícil resistir ao espírito um tanto sacana/sincero da Agente Kovacs, enquanto ela, aos poucos, prova porque era a número um da sala na escola de espiões. Completando a trindade sagrada dos pontos positivos, eu não poderia deixar a arte de fora. Não só de uma fenomenal sonoplastia que vive o homem, afinal. Todo o visual de The Low Road é super charmoso, não dá pra negar: o jogo é estiloso. Uma pena que esse belo e adorável visual cartoon acabe funcionando como uma capa para um interior vazio e não muito divertido.

Prós

  • Trilha sonora impecável;
  • Visual de primeira;
  • Dublagem competente.

Contras

  • Jogabilidade truncada;
  • História fraca;
  • Duração curta.
The Low Road - Switch/PC - Nota: 6.5 
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Ana Krishna Peixoto 
Análise produzida com cópia digital cedida pela XGen Studios


Raoni Pinheiro escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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