Morphies Law (Switch) e o mito grego de Ícaro

Até porque histórias mitológicas tornam tudo um pouco mais interessante.


Rever os mitos é uma atividade enriquecedora e, muitas vezes, possível de ser contextualizada com nosso dia a dia. Para tanto, a mitologia grega é reconhecida mundialmente por suas metáforas atemporais que nos leva à reflexão de nossas ações e dos comportamentos humanos no século XXI — da mesma forma que o mito do Narciso consegue, até nos dias atuais, repercutir em nossa sociedade individualista.


Com isso, não distante de nossa realidade, os jogos conseguem, também, gerar certa reflexão no que tange à diferentes perspectivas e aos diferentes mitos presentes nas histórias da humanidade. Assim, ao resgatar o mito grego de Ícaro é possível inferir uma analogia bem curiosa com Morphies Law (Switch), título exclusivo temporariamente para o híbrido da Big N.

Senta que lá vem história

Na mitologia grega, Ícaro é filho de Dédalo, um famoso inventor de Atenas conhecido por simbolizar a engenhosidade desenvolvida pela sociedade. Ele foi responsável por criar o labirinto de Creta para aprisionar o Minotauro, criatura mitológica resultada da possessão de Pasífae pelo rei Minos como castigo enviado por Poseidon, uma vez que ela se recusou a sacrificar aquele animal. Dédalo tem certo envolvimento com esse acontecimento, já que foi o mesmo que construiu a estrutura onde Pasífae foi possuída.

Logo depois, Dédalo ajudou Ariadne a tirar Teseu de dentro do labirinto de Creta, logo após este derrotar o Minotauro. Ao saber de sua traição, o rei Minos o aprisionou, junto com seu filho Ícaro, e é nesse ponto que inicia nossa narrativa — fundamental para nossa análise. Com os dois presos no labirinto, eles estavam cientes de que o rei Minos controlava o mar e a terra, sendo impossível escapar por estes meios.
"Minos controla a terra e o mar, mas não o ar. Tentarei este meio" — disse Dédalo.
Dédalo projetou asas, coletando penas de aves de vários tamanhos, amarrando-as com fios e usando cera para juntá-las. Ele foi moldando com as mãos, de forma que as asas artificiais se tornassem perfeitas como as de um pássaro de verdade. Ao finalizar sua obra, Dédalo equipou as asas em Ícaro e o ensinou a voar, alertando seu filho que ele deveria voar a uma altura média, nem tão próximo do sol, para que a cera não fosse derretida pelo calor da radiação solar, nem tão baixo, para que o mar não pudesse estragá-las.

Como sabemos que em histórias fantásticas a estrutura narrativa possui entraves, Ícaro, ao começar a voar, se apaixonou pela bela imagem do sol, se atraindo cada vez mais por ela. Dessa forma, o filho de Dédalo voou na direção do radiante brilho, ignorando as orientações do pai até que a cera usada nas suas asas começou a derreter e Ícaro caiu no mar.

Por fim, Dédalo lamentou a morte de seu filho e, em sua homenagem, chegou seguro à Sicília e enterrou o seu corpo, nomeando o local de Icaria. Há uma curiosa metáfora do equilíbrio humano em voar em direção à cativante liberdade interior, representada pelo radiante sol, que pode nos trazer infinitas possibilidades, incluindo a morte em casos extremos.

É hora de morfar

Certo. Mas qual a relação disso com Morphies Law? Explico. A curiosa proposta do game é ser um shooter com uma constante mudança de massa corporal dos Morphies, de acordo com a frequência que você acerta o adversário ou é acertado por alguém. Dessa forma, caso você atire nas pernas dos inimigos, você irá roubar massa corporal deles e desenvolverá grandes pernas que poderão te trazer benefícios durante a partida.


Veja bem, a mecânica adotada pelo jogo nos permite realizar uma curiosa analogia com o mito de Ícaro. As proporções extremas entre corpos minúsculos e gigantes possuem seus contratempos, sendo o equilíbrio entre os dois o ideal a ser seguido na jogatina. O mesmo acontece com Ícaro, uma vez que equilibrar o seu desejo em ir além para aproximar-se do sol e tomar cuidado para não molhar suas asas é uma perfeita comparação com o game.

Dessa maneira, caso o jogador consiga crescer e desenvolver grandes membros ao acertar vários jogadores, ele está, teoricamente, fadado à morte. Isso ocorre porque o avatar atinge um extremo de sua finalidade — assim como Ícaro falha ao agir de modo extremista da sua vontade — e, com isso, sua área vulnerável aumenta, condenando-o à morte em uma partida dinâmica.


Igualmente ocorre com o formato minúsculo. O avatar se torna mais rápido e ligeiro para se esquivar dos inimigos, porém seus poderes são enfraquecidos e não haverá muita coisa para ser feita. Acontece algo semelhante com Ícaro, uma vez que o mínimo também não é positivo, pois traz a condenação marinha e a impossibilidade do uso das suas asas. É tudo fruto do equilíbrio durante as disputas entre Morphies, em vista que chamar a atenção ou possuir um tamanho irrelevante não são as melhores maneiras de progredir no game.

É possível ir mais além com essa abordagem do equilíbrio grego, afinal esse contexto é aplicável inclusive em nosso dia a dia, já que não adianta viver exageradamente em função do trabalho e das obrigações comandadas pelo chefe, muito menos passar o resto da vida sem uma ocupação e em função da preguiça, certo? No final das contas, vale perceber como tudo pode estar conectado à nossa realidade, seja um título indie ou uma antiga história mitológica que, até nos dias atuais, repercute como reflexão para nossas ações — ou mesmo para nossos jogos.
Paulo Vinícius é estudante e apaixonado por games desde seu primeiro contato com Duck Hunt e Ice Climbers do nintendinho em 2002. Fanático por Pokémon e admirador de diversas franquias, reúne seu tempo livre para escrever e tentar colocar suas séries em dia. Está no Facebook e Instagram.

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