Plug and Blast

Wii Speak: o início do chat de voz em consoles de mesa Nintendo

Características do serviço Nintendo Switch Online já podiam ser encontradas no dispositivo que permitia conversas pela internet no Wii.

Em setembro de 2018, após resistir bravamente por anos, a Nintendo finalmente se rendeu ao modelo de assinaturas pagas para jogos online com o Nintendo Switch. Além de permitir gameplays em rede, o serviço Nintendo Switch Online foi lançado com alguns benefícios, os quais continuam sendo alvo de uma boa dose de controvérsia. O principal deles é o chat de voz disponibilizado por meio de um aplicativo para smartphones e tablets.


Anunciado na primeira apresentação do console em 2017, foi só o app ser inaugurado em uma versão gratuita que as críticas surgiram. Entre muitas reclamações, a falta de uma maneira simples de ouvir os sons dos games e as vozes de amigos no mesmo headset (levando à criação de setups monstruosos) causou rejeição ao recurso. As pessoas esperavam alguma alternativa mais prática a ser anunciada quando o serviço se tornasse pago.

Hoje, com as assinaturas em vigor, sabe-se que não foi esse o caso. Porém, durante a introdução do Nintendo Switch Online exibida no mais recente Nintendo Direct, algo chamou a atenção. O locutor disse que até pessoas que não estiverem ativamente jogando podem participar da conversa, assim todos se divertem. Este é um argumento novo para justificar o app. Porém, na história da Big N, esse discurso foi usado há 10 anos no lançamento do primeiro aparelho feito pela empresa para chat de voz em seus consoles de mesa: o Wii Speak.

Conectando ambientes

Em 2008, vivíamos uma situação surpreendentemente parecida com a atual. Naquela época, em conferência na E3, a Nintendo também anunciou um novo Animal Crossing a ser lançado na sua plataforma mais moderna — nesse caso, o Wii. Aproveitando os ganchos com os temas “criatividade” e “comunidade”, o criador da série, Katsuya Eguchi, revelou que Animal Crossing: City Folk seria compatível com o que chamou de “microfone comunitário”. Era a primeira divulgação do Wii Speak, novo dispositivo que chegou às lojas ainda naquele ano.

Indo em uma onda contrária à das demais fabricantes de hardwares para games, que focaram suas experiências online ao redor de headsets, este microfone USB foi desenhado para ser instalado junto às televisões, próximo ao sensor bar. Dessa forma, ao invés de captar somente a voz do jogador principal, o Wii Speak era capaz de transmitir o áudio do ambiente inteiro em que se localizava. Na época, o criador de Mario, Shigeru Miyamoto, afirmou que, além de uma opção para chat de voz, o Wii Speak forneceria uma maneira de conectar salas de estar pela internet.
O formato do Wii Speak permitia que as vozes de todos fossem ouvidas.


Nesse aspecto, o periférico e o Nintendo Switch Online se assemelham bastante ao permitirem que várias pessoas possam fazer parte das conversas, mesmo aquelas sem o controle em mãos. Ao comparar os dois sistemas, no entanto, é possível ver como o serviço de chat de voz da Nintendo evoluiu ou se estagnou nessa última década.

Nativo desde o início

A primeira característica que distancia o Wii Speak do Nintendo Switch é justamente o modo como cada um estrutura seu chat de voz. Enquanto o app do Switch atua como um Skype ou Discord glorificado, o Wii Speak funcionava de maneira nativa com o Wii. Ou seja, as vozes eram transmitidas por meio do próprio videogame, sem a necessidade de programas paralelos. Pode até ser desconcertante saber que a Nintendo trabalhava dessa forma e, anos depois, resolveu priorizar um aplicativo de celular em vez de aprimorar esse sistema no console híbrido.

Mas, mesmo assim, o Wii Speak dava suas derrapadas. Por ser um microfone multidirecional, o aparelho era suscetível a captar ruídos indesejáveis, como o trânsito do lado de fora de casa ou até mesmo o áudio do próprio game, já que o microfone tinha que ficar próximo às TVs. Porta vozes da Big N, incluindo Miyamoto, tentaram acalmar os consumidores dizendo que o dispositivo possuía filtros que eliminavam tais barulhos. No geral, a qualidade do áudio era razoável, apesar de as vozes soarem bastante comprimidas. Mas sons de fundo e ecos podiam ser ouvidos, mesmo que de leve, como exemplificado no vídeo abaixo.
Curiosamente, a capacidade de realizar chat de voz nativo estendia-se até para softwares que não usavam o Wii Speak. Ao ser lançado para Wii em 2010, Call of Duty: Black Ops trouxe uma mudança. Em vez de usar o microfone da Nintendo, a Activision firmou parceria com a fabricante PDP para produzir um headset para o game, vangloriando-se de ser o primeiro a ser disponibilizado para a plataforma da Big N. Outros jogos também tiveram chat de voz via headset, porém com um detalhe: títulos feitos para o Wii Speak não eram compatíveis com os fones de ouvido e vice-versa. Algo parecido aconteceu com alguns games de Switch, como Fortnite, que resolveram ignorar a solução da Nintendo e desenvolveram uma alternativa própria para bate-papos.
O Headbanger Headset, primeiro a ser lançado para o Wii.

Não fale com estranhos

Quando o assunto são os jogos, poucos fizeram uso pleno do dispositivo. Além de Animal Crossing, somente outros 12 títulos utilizaram-no, entre eles Endless Ocean 2, The Conduit, Monster Hunter Tri e algumas edições das séries esportivas 2K. Isso dentro de um período de dois anos em que o microfone esteve em atividade.

Para aproveitar o chat de voz, a grande maioria dos games compatíveis (se não a sua totalidade) se submetia a uma restrição corriqueira quando se fala em Nintendo: somente com amigos. Em entrevista à publicação Wired, em 2008, Katsuya Eguchi afirma que a empresa queria manter um ambiente seguro para todos, sem linguajar inapropriado. Portanto a troca de Friend Codes era necessária para usufruir do recurso. Pelo menos nesse quesito o Switch leva vantagem, pois alguns games, como Mario Kart 8 Deluxe e Arms, permitem conversas com desconhecidos.
Em Animal Crossing: City Folk, jogadores podiam conversar somente com amigos que visitavam suas vilas.


Entretanto, assim como o Switch, o chat de voz do Wii não era integrado ao sistema operacional. Isso significava que era necessário entrar em modos específicos dentro dos jogos para falar com os outros e que não era possível conversar com pessoas jogando games diferentes. Apesar de outras plataformas da mesma geração também seguirem esse modelo, como o PlayStation 3, o Xbox 360 tornou esse conceito de party chat como o padrão atual.

Além disso, certos títulos, como Jeopardy e Wheel of Fortune, não usavam o Wii Speak online. Em vez disso, o apetrecho era empregado como um método de controle por voz, assim como a Microsoft fazia com o seu Kinect. Essa foi uma maneira criativa de usar o microfone, que tinha um potencial que, infelizmente, foi subutilizado.

Sala de estar virtual

Porém o ponto central do marketing do Wii Speak foi o software específico para conversas Wii Speak Channel. Cada microfone vinha com um código para inserir no Wii Shop Channel e baixar o canal. Nele, usuários podiam criar lobbies para falar com colegas e familiares registrados na lista de amigos do console.
O Wii Speak Channel aceitava até quatro consoles Wii conectados, mas a quantidade de participantes era ilimitada.


Por não estar integrado ao sistema operacional do Wii, como dito acima, o chat de voz somente funcionava enquanto o canal estivesse aberto. Para engajar os jogadores a utilizá-lo, alguns modos únicos foram incluídos, como um que permitia exibir fotos salvas em um cartão SD durante as conversas. A vice-presidente executiva de marketing da Nintendo da época, Cammie Dunaway, reforçou que isso seria um atrativo para as pessoas compartilharem experiências, principalmente durante a época de fim de ano de 2008.

Havia também a possibilidade de enviar mensagens de voz para outros consoles por meio do Message Board. Existia uma vontade explícita de transformar o Wii em uma espécie de central de comunicação, no qual todos podiam falar com pessoas queridas. Como um telefone glamourizado, com um toque da Nintendo.

O legado

Hoje, o Wii Speak já se tornou objeto histórico. Com o fim do serviço online do Wii em maio de 2014, todas as aplicações que usavam o dispositivo em rede não funcionam mais. Ter um microfone desses em 2018 é algo somente para colecionadores ferrenhos da Nintendo.

Porém o produto deixou um legado interessante. Desde então, todas as tentativas da Big N em desenvolver um sistema de chat de voz envolveram um aspecto mais comunitário, abraçando todos ao redor do videogame. Foi a mesma coisa com o não tão aclamado Wii U Chat, que usou o GamePad para transmitir vozes e imagens de pessoas pela internet. Agora, a história se repete com o Nintendo Switch.

De lá para cá, a tecnologia de conversas online mudou bastante. Porém, mesmo tentando se atualizar com as tendências desse meio, é possível notar que a empresa japonesa preza muito pela filosofia de que todos fazem parte do jogo, até mesmo os que estão apenas assistindo.

Revisão: Luigi Santana
Daniel Morbi é jornalista, analista de mídias e entusiasta dos games desde que conheceu Pokémon Azul no Game Boy Color quando criança. De lá para cá, dedicou-se a plataformas Nintendo, apesar de se aventurar no Xbox e no PC ocasionalmente. É capaz de demorar anos para zerar um jogo e tem mais games do que consegue jogar. Você pode encontrá-lo no Facebook e, futuramente, em outras redes sociais, quando ele tiver coragem para alimentá-las.

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