Jogamos

Análise: Disgaea 1 Complete (Switch) é a versão definitiva do RPG tático que não conhece limites

Anjos, demônios e Prinnies celebram os 15 anos da franquia com uma remasterização à altura do excelente título de estreia.


Lançado originalmente em 2003 para PS2, Disgaea: Hour of Darkness foi um marco para o subgênero dos RPGs táticos. Misturando humor descontraído, visuais carismáticos ao estilo anime e mecânicas inéditas, o título injetou ânimo em um estilo que vinha caindo no esquecimento desde o início de sua respectiva geração de consoles, e foi o responsável por espalhar a palavra a respeito do trabalho da produtora Nippon Ichi no Ocidente.

A fama foi merecida. Em uma época na qual os principais JRPGs migravam do modelo tradicional para se tornarem superproduções, Disgaea trouxe mecânicas extravagantes revestidas de uma bela roupagem retrô, mostrando o quanto as conhecidas fórmulas de batalha por turno ainda tinham a oferecer, desde que abordadas de forma inventiva o suficiente. O sucesso abriu confiantemente o caminho para games adjacentes como Phantom Brave (Multi) Makai Kingdom (PS2), além é claro das sequências da série principal, que conseguiram adicionar ainda mais camadas de complexidade ao já bem-sucedido modelo.

Disgaea 1 Complete (Switch) comemora em grande estilo o aniversário de 15 anos da série, propiciando uma remasterização definitiva do game onde tudo começou. Incluindo todos os conteúdos extras adicionados ao longo dos ports posteriores do jogo — Disgaea: Afternoon of Darkness (PSP), Disgaea DS e Disgaea PC — e repaginando a experiência toda com os sprites em alta definição que tem sido utilizados desde Disgaea 4 (PS3). Trata-se de uma oportunidade perfeita tanto para revisitar o jogo e relembrar o excelente título de estreia da série quanto para experienciá-la pela primeira vez.


Anjos e Demônios

King Krichevskoy, Overlord soberano da dimensão infernal do Netherworld, morreu. De olho no vácuo de poder deixado pela tragédia, diversos demônios organizam movimentos para dar o golpe de estado e ascender ao posto dos sonhos. Já são passados dois anos nessa situação quando o herdeiro legítimo do trono, príncipe Laharl, desperta de um misterioso coma profundo, convocado por Etna, a fiel vassala de seu falecido pai. Sem se comover demais com a morte do velho (afinal de contas, demônios não têm coração), Laharl decide pôr ordem no castelo e organizar uma armada que possa instituí-lo em seu lugar merecido como novo Overlord.



Com essa premissa simples, contada no traço expressivo de Takehito Harada, inicia-se a saga da franquia mais hiperbólica dos SRPGs. Por trás do desafio aparentemente linear de se ganhar forças e dominar o Netherworld escondem-se grandes conspirações celestiais, um conflito iminente com a espécie humana que pode sinalizar o apocalipse e um debate a respeito da natureza dos anjos, humanos e demônios e de tudo aquilo que os une e os diferencia. 

Trazendo um elenco carismático e um enredo repleto da mais pura comédia nonsense, o jogo pontua sua trama deliciosamente estapafúrdia com ótimos desenvolvimentos de personagem, indo da auto-sátira dos videogames até o trato contundente de temas como o luto e o heroísmo, passando por referências desconexas à cultura pop japonesa. Não se trata apenas de um ótimo enredo por si só e nem somente de uma excelente comédia, mas da combinação muito bem balanceada de ambos.


Disgaea consegue ser um desses raros títulos que conquista logo de cara uma identidade própria, assumindo um gênero conhecido e transformando-o em algo original. Os já citados designs de Harada se alinham muito bem com a composição musical de Tenpei Sato, ajudando a criar a atmosfera de leveza e descontração característica da franquia. 

A história é contada principalmente através de diálogos, com portraits estáticas (com emoções variadas) dos personagens e com ajuda de seus sprites. O trabalho de localização é excelente do texto à dublagem, mantendo sempre o bom humor e a caracterização irreverente do elenco, sendo um dos poucos jogos no qual a opção de reverter as vozes para o japonês permanece sempre ignorada por mim.


O carismático trio de protagonistas — formado por Laharl, Etna e a aprendiz de anjo Flonne — possui uma dinâmica divertidíssima que proporciona ótimos momentos comédicos, sem deixar de lado o desenvolvimento orgânico de personagem. Suas diferentes personalidades são bem exploradas tanto nas piadas recorrentes quanto no eixo central da história, na medida em que descobrimos mais sobre cada um deles e acompanhamos suas transformações.


Ao longo do caminho, marcam presença também figuras inusitadas como os Prism Rangers (sátira das séries Super Sentai/Power Rangers) e o trio de Defenders of Earth, formado por Gordon, Jennifer e Thursday, cujo visual e personalidade faz referência aos clássicos televisivos de ficção científica do passado (uma mistura de Flash Gordon e Perdidos no Espaço com o estilão dos animes/tokusatsus antigos).




O formato episódico da história ajuda a encaixar o aspecto não-linear da narrativa: cada capítulo funciona como um trecho mais ou menos auto-contido, facilitando a vida de quem deseja se aventurar pelas toneladas de desafios opcionais. Fica a critério de seu estilo de jogo a opção entre fechar a história em 30 ou 100 horas — sendo que, mesmo com este término, a experiência pode estar apenas começando, se assim o jogador o desejar.

O sistema de New Game+ do jogo incrementa a narrativa, oferecendo uma série de finais alternativos a serem perseguidos em cada ciclo da história. Por exemplo, é possível fechar um ending tão cedo quanto ao final do primeiro capítulo — com direito a uma ópera em japonês para coroar o brevíssimo playthrough.

Ao receber um final, é dado ao jogador a opção de se iniciar um novo ciclo, portando todos os dados do ciclo atual de volta ao início da história. Somado às opções de customização do nível de dificuldade, o sistema garante uma exploração sempre renovada e razoavelmente desafiadora das diferentes ramificações da trama, que vão do cômico ao trágico.


A remasterização definitiva não acrescenta novos conteúdos de história se comparada às edições posteriores do título lançadas para PSP. DS e PC, nem mesmo na introdução dos novos personagens bônus. Porém, em relação à versão original do PS2, as adições são várias.

A principal delas é o Etna Mode, uma história paralela adicional que pode ser habilitada ao final do primeiro ciclo, na qual a misteriosa vassala assume o papel de protagonista, mudando os rumos de toda a trama. Além dele, marcam presença a adição de pequenas cenas extras no recrutamento de personagens bônus advindos de outros jogos da Nippon Ichi, sempre fazendo uso do humor nonsense que se tornou parte da marca da produtora.


Crônicas da Batalha Infernal

Se é certo que a narrativa não deixa a desejar em nenhum momento, é no campo de batalha que Disgaea mostra seu verdadeiro brilho. Adotando a jogabilidade tática em grade com perspectiva isométrica tornada popular a partir de jogos como Tactics Ogre (Multi) e Final Fantasy Tactics (Multi) — que por sua vez muito devem às séries Fire Emblem e Shining Force —, o título parte para uma verdadeira releitura do gênero em vários aspectos.

Conhecido principalmente pelo level cap praticamente inexistente, que permite elevar os stats dos personagens e o valor de dano das técnicas para muito além da casa dos milhões, Disgaea faz mais do que tirar as estribeiras do modelo de batalha tática por turnos em que se inspirou. A dinâmica do jogo é transformada em um nível fundamental através de mecânicas simples e inventivas, trazendo um combate que consegue ser ágil e dinâmico sem abrir mão do aspecto tático.

Deixando um pouco de lado a movimentação mais compassada que é típica desse estilo de batalha, o game traz mapas populosos e diversos subsistemas que tornam as lutas mais aceleradas — e por vezes caóticas. Muito caóticas! 

O confronto se dá em turnos divididos entre o jogador e a CPU. O jogador pode dispor de até dez personagens simultaneamente no mapa, os quais são convocados a partir de um portal comum, o Base Panel. A qualquer momento, é possível depositar um personagem e convocar outro, o que aumenta o leque de opções táticas consideravelmente.

Com a movimentação rápida e livre de suas unidades em qualquer ordem, o jogador pode explorar diversas possibilidades de ataque. Como é de praxe, cada personagem pode se mover e executar uma ação por turno, sendo que aqui a ordem dos fatores não altera o produto. Atacar para depois partir em “recuo estratégico” (também conhecido como: “corra pela sua vida!”) é um recurso tático básico, por exemplo.


Por sua vez, a função de Throw possibilita aos personagens lançarem uns aos outros pelo campo, cobrindo mais espaço com um personagem às custas da ação do outro. Precisa alcançar um ponto distante do mapa antes de entregar o turno para o oponente? Basta empilhar alguns personagens em uma torre humana, e prosseguir com um efeito dominó de lançamentos que deixe alguém iniciar sua movimentação a quilômetros de distância do painel-base.


Assim, o foco se encontra mais no combate unidade-a-unidade do que no ajuste ao nível micro do posicionamento de personagens. Por exemplo, ao mesmo tempo em que a direção em que o personagem termina o turno não faz diferença alguma (nem mesmo é regulável), as variações de altura e distância no mapa cumprem papel mais em limitar a movimentação e o alcance das técnicas do que no cálculo direto do dano.

Outra função que dinamiza as batalhas é o fato de que cada ação depende de ser “autorizada” pelo comando Execute antes de acontecer. Isso cria a possibilidade de movimentar as unidades pelo mapa para receber cura e ajudar na formação de combos, para então cancelar o movimento e utilizar as mesmas unidades para outra finalidade. Com isso, a movimentação tática acaba sendo mais veloz e menos “travada” do que o tradicional nos sistemas do gênero.



Contrabalanceando a facilitação no ramo da movimentação está o sistema de Geo-Panels. Com a grade dos mapas dividida em um tabuleiro de cores, cada setor colorido traz o efeito dos Geo-Symbols que se localizam neles. As pequenas pirâmides podem conceder efeitos benéficos e prejudiciais tanto aos aliados quanto aos inimigos, sendo que há diversas maneiras de se manipular seus resultados. Os Geo-Panels ajudam a estabelecer toda uma nova camada estratégica aos combates, além de divertir propiciando muitas situações imprevisíveis (para bem e para mal).

Por sua vez, as diversas opções de skills moldam estilos de jogo diferenciados para cada tipo de arma. Além das variações de stats, cada classe conta com mais de uma opção de armamento para compor seu arsenal. Os personagens da história contam também com skills únicas adicionais. E que skills



As habilidades do jogo são um show à parte, complementando perfeitamente o ritmo frenético da movimentação em campo. As tradicionais esferas de fogo e golpes de espada rapidamente vão dando lugar a tufões de lâminas, golpes de kung-fu aéreo à la Dragon Ball, invocação de criaturas causando verdadeiras catástrofes naturais e — porque não — a invocação de um meteoro flamejante seguida do lançamento de um pedaço do mapa direto no coração do sol. 

É bastante divertido se surpreender ou relembrar os detalhes extravagantes das técnicas mais avançadas do jogo. Combinando perfeitamente com o ritmo mais acelerado das batalhas, a experiência de Disgaea acaba sendo a de um SRPG que se assemelha menos à tradicional guerrilha medieval e mais ao que seria visto nos momentos mais extravagantes de um anime do estilo shonen.



O grinding hiperbólico e a democracia demoníaca

Toda a divertida extravagância observada na história e nas mecânicas do jogo se reflete afinal em uma das características mais conhecidas da série: os limites absurdamente altos para stats. Porém apenas a possibilidade de se atingir o cobiçado level 9999, apenas para renascer seu personagem no primeiro nível com bônus estratosféricos de stats não seria o bastante para garantir uma experiência tão divertida e viciante quanto a que o título felizmente oferece. 

Mais do que abraçar o grinding, Disgaea faz do grinding uma arte, um verdadeiro estilo de jogo que perpassa praticamente todos os elementos da experiência. Praticamente tudo que se faz no game está atrelado ao progresso de um contador: desde a tradicionalíssima EXP acumulando níveis para os personagens (que, ao chegarem no máximo de quatro dígitos, podem começar de novo e atingir novos níveis de poder anteriormente inalcançáveis) até a possibilidade de se subir os levels de cada item, passando por recompensas advindas dos altos gastos no hospital e nas lojas de equipamento. 

Com uma estrutura bastante aberta e alinear de progressão, o jogo se divide em duas frentes principais: as batalhas do modo história e o Item World. A primeira traz capítulos com desafios fechados, que podem ser repetidos à vontade após a primeira vitória. A segunda, por sua vez, é um dos grandes pontos fortes do game. 

O Item World é um sistema de dungeons randômicas proceduralmente geradas. Cada item do jogo — das espadas às poções, passando por chicletes — pode ser “descido” via Item World, o que significa superar um determinado número de andares na dungeon, aumentando o level individual da peça em questão. 



Cada level superado na dungeon corresponde a um level a mais para o item, sendo que o máximo varia de acordo com a raridade: 30 para os comuns, 50 para os raros e 100 para os lendários. Divertido, imprevisível e bastante desafiador, o modo leva ao limite os sistemas de Throw e Geo-Panels, trazendo cenários táticos desafiadores com recompensas sempre variadas.

A melhor maneira de se obter itens raros e mais poderosos, por exemplo, é levando seu Thief para passear pelo Item World, onde as unidades frequentemente surgem equipadas com bens altamente “roubáveis”. Também é possível tentar a captura de unidades, lançando-os no painel-base.



Por fim, podem ser encontrados e capturados monstros especiais chamados de Specialists (Innocents, em outras versões), os quais concedem características especiais aos item. Por exemplo, um Gladiator aumenta o stat de ATK, um Statistician aumenta a EXP ganha, um Hypnotist faz com que os golpes tenham chance de causar o status Sleep, enquanto um Pharmacist aumenta a resistência do usuário ao status Poison. Ao todo, são 27 tipos diferentes de Specialists.

O jogador rapidamente se encontra em um ciclo interminável de progressão. Tendo dificuldades para derrotar determinado mapa da história, você decide “upar” uma espada. Na descida, encontra um novo arco, amuletos raros e junta dinheiro suficiente para mais uma peça de equipamento que procurava. Então percebe que um dos amuletos raros pode se beneficiar de uma rápida “upagem” via Item World. E o ciclo começa novamente.

Tudo isso sem falar que os ítens são apenas uma parte de uma figura muito maior. O sistema de progressão dos personagens é repleto de opções de microgerenciamento. Além das unidades da história, é possível utilizar-se de Mana (moeda espiritual obtida com cada derrota de inimigo) para criar novas unidades genéricas, as quais são completamente moldáveis aos desejos e preferências do jogador. 



As classes disponíveis seguem alguns arquétipos tradicionais do gênero como guerreiros, magos, curandeiros e arqueiros. Algumas classes possuem uma variação feminina e masculina, com diferenças sutis de vantagens e desvantagens. Cada personagem acumula levels de proficiência em cada arma e skill, sendo que tais características são transferíveis para além da morte.

Como assim para além da morte? Bem, como estamos falando de guerras no mundo espiritual, é compreensível que a reencarnação (chamada de Transmigration em algumas versões da série) faça parte das táticas de batalha tanto quanto o estoque de poções. Sendo assim, o sistema multiclasses de Disgaea consiste no renascimento de sua unidade sob uma nova forma, herdando stats e características adquiridas na vida anterior. A progressão pode ser feita verticalmente (formas mais poderosas da mesma classe vão sendo habilitadas a partir de determinados levels, e são indicadas por uma coloração diferente) ou horizontalmente (transformação de uma classe em outra).


Com isso é possível, por exemplo, adquirir proficiência em espadas com a classe Ronin e subsequentemente reencarnar como Thief, herdando as habilidades superiores de espadachim para a nova larápia. Também é possível criar monstros e transmigrar entre os humanóides e as criaturas, desde que a alma em questão passe pela penintência de uma reencarnação inteira como Prinny, o adorável "fantasma-pinguim-demoníaco" que serve como mascote da série. Ao todo, são 17 classes humanóides, 20 tipos de monstros e dezenas de personagens únicos recrutáveis.

Por falar em penitência, não ache você que basta oferecer aos deuses a quantia certa de Mana para efetuar a transmigração e a criação de seus soldados. Tais processos, assim como a disponibilização de equipamentos melhores, inimigos mais fortes e inúmeras outras funções adicionais só podem ser obtidas mediante o pagamento de Mana e subsequente aprovação da Dark Assembly, o senado demoníaco.



Ou você achou que só porque o mundo inferior é governado por um Overlord supremo não haveria espaço para uma discussão republicana? Bem, é mais ou menos isso...  Caso o seu projeto seja rejeitado pela assembleia, toda a Mana investida terá sido gasta em vão. Como em toda boa democracia, o segredo do progresso está na formação de alianças chantageosas e pagamento de propinas. 

Entra em cena o divertido sistema de subornos, através do qual você pode presentear os digníssimos membros da bancada com os equipamentos e itens que já não lhe servem mais, a fim de conquistar seu valioso apoio. Sendo eles demônios, é de se esperar que haja uma boa cota de trairagem envolvida. Mas não é motivo para se preocupar, uma vez que caso o resultado da votação não seja de seu agrado, é possível tomar o poder à força, fazendo da câmara o palco de mais um combate tático no qual Laharl tenta ganhar respeito à moda demoníaca.



Apesar de estar longe de ser daqueles que não suporta o grinding, também não me considero um entusiasta do ritmo repetitivo que a obtenção de poder e itens raros adquire na maioria dos clássicos do JRPG. Disgaea renova totalmente o conceito, mudando aquilo que ele tem de ruim e mantendo o que o torna viciante. Não há nada de repetitivo na progressão dos mais variados levels em que se desenvolve o jogo: são atividades rápidas, desafiadoras e variadas entre si o suficiente para que o jogador se encontre sempre envolvido e em busca do próximo passo. Além disso, a progressão orgânica do tipo "seja recompensado por simplesmente jogar" também ajuda: cada uso de skill e de arma acumula experiência para seus respectivos levels.

Apesar de serem diversos sistemas e opções, a sensação de "muita informação" é dissipada com algumas poucas horas de jogo, e os tutoriais e informações in-game são completos o bastante para garantir que o jogador iniciante não se perca demais. Uma vez entendidos os básicos do game, a sensação de liberdade e a variedade da jogabilidade fazem do título uma experiência única em termos de SRPG.

Netherworld em alta definição

Com centenas e mais centenas de horas de conteúdo, a versão Complete não apenas traz pela primeira vez aos consoles de mesa todos os conteúdos adicionais anteriormente restritos às versões portáteis, como possui uma vantagem óbvia sobre a versão para PC lançada em 2016: a remasterização gráfica não apenas da interface, mas de todo o game em sua inteireza. 

Os sprites em alta definição trazem releituras das figuras clássicas do primeiro game ao estilo inaugurado por Disgaea 4, e devem agradar mesmo quem não faz questão de visuais HD. É impressionante a fidelidade dos sprites em relação aos artworks originais, como se fosse feita uma transposição direta dos desenhos de Harada para o formato isométrico. As animações são bastante fluídas, e os personagens apresentam várias expressões detalhadas que adicionam à simplicidade charmosa das cenas de história. É uma pena que os elementos tridimensionais e as transparências não tenham recebido o mesmo cuidado: não é raro se deparar com texturas sofrendo com resizing ruim, ou com efeitos de técnicas que não se saem tão bem num ambiente em alta definição.



A música de Sato é a mesma da versão para o PS2, apresentada em alta qualidade aqui — para quem se acostumou com os remixes do DS, como eu, é bem legal ouvir os arranjos originais. Por outro lado, pode causar estranhamento aos puristas as mudanças gráficas em relação a algumas classes e monstros.

Por exemplo, os Skulls, Male Healer e os dois tipos de Martial Artist foram substituídos por suas versões posteriores, enquanto monstros como o Treant e Shadow foram trocados por suas "versões futuras" Eryingi e Death, respectivamente. As mudanças são apenas gráficas, com as habilidades clássicas mantendo-se em sua maioria as mesmas. Embora sejam apenas detalhes, seria muito legal se tivessemos tido as opções de escolha pela trilha sonora do DS ou das versões clássicas das classes.



Embora não traga muitas novidades para o jogador veterano, a edição remasterizada é sem dúvida a melhor maneira de revisitar a experiência, que traz muito a oferecer, mesmo que tenha menos opções de customização e sistemas se comparado aos seus sucessores. Justamente por conta disso, trata-se também da melhor maneira de se iniciar no mundo de Disgaea para os novatos: ao invés de mergulhar de cara em Disgaea 5 Complete (Switch), este pacote é o ideal para ficar craque nos aspectos mais básicos da franquia.



Disgaea 1 Complete constrói um mundo marcante habitado por um elenco carismático, não deixando nunca de entreter com sua trama épica e jogabilidade diversificada e envolvente. Extremamente cativante e preocupantemente viciante, o jogo encanta pela vastidão de conteúdo e total ausência de limites (em todos os sentidos do termo). 

Trazendo um pós-game virtualmente infinito, a busca pela mais completa máquina de destruição isométrica é capaz de render centenas e mais centenas de horas de jogo aos entusiastas do gênero, sendo uma bela adição à biblioteca do console híbrido da Big N. Afinal de contas, nada tão divertido quanto uma sessão curta e recompensadora de grinding para garantir uma sessão de jogatina rápida no modo portátil.


Prós

  • Sistema de batalha combina o que há de melhor no SRPG com um ritmo mais acelerado;
  • Diversidade de mecânicas inventivas multiplica a diversão;
  • Personagens carismáticos e ambientação inventiva proporcionam um enredo memorável;
  • Diversidade de opções de criação e customização de personagens;
  • Remasterização em HD à altura da bela arte de Harada;
  • Excelente trilha sonora de Tenpei Sato;
  • Excelente trabalho de localização para o inglês;
  • Altíssimo fator replay, especialmente para os entusiastas do gênero;
  • Centenas e mais centenas de horas de conteúdo — "grindar" literalmente nunca foi tão divertido.

Contras

  • Remasterização das texturas, transparências e elementos tridimensionais ficou aquém da ótima qualidade dos elementos 2D.
Disgaea 1 Complete (Switch/PS4) — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America
Giba Hoffmann é gamer pra todo jogo, mas tem predileção por títulos retrô e um bom e velho JRPG. Sonic, Donkey Kong Country, Ratchet & Clank, Final Fantasy e Disgaea são algumas das séries que formaram a paixão pelos games, desde que ganhou seu Mega Drive, muitos (nem tantos!) anos atrás. Além de escrever para o Nintendo Blast, pode ser encontrado tagarelando no Plano Crítico e no Aventurine Brasil.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook