Entrevista

Just Dance (Multi): Entrevistamos Diegho San, bicampeão mundial da Just Dance World Cup

A trajetória do ícone brasileiro do Just Dance: as decisões na carreira, a superação da timidez nas finais, as conquistas dos títulos e as portas que se abriram em sua vida.


Quem vê Diegho San, o brasileiro que já venceu duas vezes a Just Dance World Cup, arrasando nas coreografias nos eventos com o Just Dance provavelmente não imagina que, fora dos palcos, ele é tímido e não dança muito. Sua paixão pelo jogo existe há mais de nove anos. A decisão de melhorar o seu desempenho para os campeonatos foi só o começo de uma história inacreditável e, hoje, Diegho é a maior referência no assunto.


Simpático, o carioca de 28 anos é Nintendista de coração - nossa conversa aconteceu entre algumas disputas de Mario Kart 8 e Mario Tennis no Switch. Tivemos o prazer de ouvir Diegho nos contar tudo sobre sua história representando o Brasil nos campeonatos, o enorme orgulho de trazer dois troféus para casa e a felicidade de poder trabalhar fazendo o que mais gosta: jogando Just Dance.

Nintendo Blast: Com o que você trabalhava antes de decidir se dedicar totalmente ao Just Dance?
Diegho San: No início de 2014, eu trabalhava em uma metalúrgica aqui no Rio, no setor de qualidade. Nessa época, começou o primeiro torneio mundial do Just Dance, só que eu fui péssimo nas primeiras sessões. Quando eu jogava em casa com os meus amigos eu sempre ganhava deles. Então eles começaram a implicar comigo, perguntando: “cadê você nos rankings? Você não era o bonzão?”. Só que eu trabalhava muito, tinha muita coisa para fazer, vários relatórios para entregar… ficava tudo tão acumulado que eu ralava até nos fins de semana. Esses comentários foram me irritando muito, então decidi largar o emprego para poder praticar.

Assim que saí de lá, eu treinei uma semana inteira com o Just Dance 2014. Treinei direto, direto… e quando chegou no Domingo, consegui ficar em nono lugar. Aí eu percebi que poderia ter uma chance de ganhar. Continuei praticando, fui subindo no ranking até que, na última sessão, fiquei em primeiro.

Nintendo Blast: E como foi o processo de enfrentar as competições online e chegar ao mundial?

Diegho San: Eu competia online no Wii U, três vezes no Domingo. Acordava de madrugada, jogava de 4h até as 5h, depois de 9h às 10h e aí de 14h às 15h. Só a melhor contava, mas eu jogava as três. Isso durou oito Domingos seguidos, e era bem puxado. No último, eu passei em primeiro lugar, ganhando a hospedagem e a passagem para Paris para representar o Brasil lá.


As duas vezes que eu fui campeão foram na capital francesa. Na segunda, eu não precisei passar pelas classificatórias e fui convidado direto para defender o meu título, em 2015. Mas foi muito pior, porque é uma pressão tão grande estar lá no palco… e aí passaram os vídeos onde eu aparecia dançando. Era o meu sonho. Pela segunda vez eu estava ali, na final, e consegui me tornar o campeão de novo. Eu chorei demais, não acreditava em tudo aquilo… achava que depois da primeira vez, nunca mais ia conseguir isso de novo.

Nintendo Blast: Como foi o seu primeiro contato com o jogo?

Diegho San: Eu era muito ruim, fazia caretas, dançava com os dedos esticados… (risos). As pessoas me filmavam dançando e era muito bizarro. Foram duas amigas que me deram o primeiro Just Dance. Depois que as pessoas começaram a me perguntar sobre isso, eu comecei a pensar: “Por que elas me deram o jogo?”. Acho que foi porque eu não dançava nada quando eu saía com elas. Todo mundo dançava, fazia de tudo, e eu ficava sentado no meu canto.

Aí, quando elas me deram o jogo, eu nem sabia do que se tratava. Elas compraram, me deram de presente em 2009, e me pediram para só colocar o jogo no videogame em um dia que estivesse todo mundo lá em casa. Quando aconteceu, foi muito engraçado. Todo mundo adorou. Mas a gente fazia tudo errado… porque o Wii tinha o Remote e o Nunchuck. A gente jogava com os dois, um em cada mão, e tinha o fio no meio. Até a gente entender que era só pra jogar com o Remote, achávamos tudo muito estranho.

Nintendo Blast: A partir de qual edição do jogo você já não se considerava mais tão ruim?

Diegho San: Foi a partir do Just Dance 4. Eu sempre comprava os jogos assim que saíam, mas foi com o 4 que comecei a praticar para alguns torneios aqui no Rio de Janeiro. Eu passei a levar a sério, já não era mais só pela diversão e fiquei praticando música por música. Quando eu cansava, eu ia pro YouTube e colocava os vídeos em velocidade reduzida. Treinava passo a passo, prestando atenção nos detalhes de movimento de pulsos, dedos, mãos e pés.

O primeiro torneio que eu venci foi na Brasil Game Show em 2011, ainda com o Just Dance 3. Cheguei a ganhar um Xbox 360 depois, em 2013. Comecei a ficar conhecido pela galera. Já teve até um torneio que os participantes quiseram me boicotar e pediram que devolvessem o dinheiro das inscrições quando souberam que eu participaria (risos). Eu ia com a confiança de que ia ganhar... eu sempre tinha medo, mas acabava vencendo.

Nintendo Blast: Você acha que é mais difícil jogar contra outros brasileiros ou competidores lá de fora?

Diegho San: Eu acho que jogar contra o pessoal daqui é pior. Os brasileiros são os que mais jogam Just Dance, a comunidade aqui é muito ativa e todos jogam muito bem. Então, os competidores mais fortes são do Brasil mesmo, e eu não acho que os competidores lá de fora são tão bons quanto os daqui. Eu considero que é muito mais difícil passar pelas etapas eliminatórias da Just Dance Tour daqui do Brasil, para depois participar do mundial.


Nintendo Blast: Mudou alguma coisa na sua vida ter ido participar de finais de um campeonato em outros país?

Diegho San: Na primeira vez que eu fui para Paris, eu não sabia falar nada de francês e só o básico de inglês. Eu fui sozinho, fui me virando para chegar no hotel e nos outros lugares. E, como eu fui o jogador que teve a maior pontuação nos campeonatos online no mundo, nas finais eu fui o primeiro a jogar. E eu estava tão nervoso que precisei tomar um calmante antes de subir no palco. Eu era uma pessoa muito tímida, até para apresentar trabalhos na escola. Eu não era aquele tipo de pessoa que sairia de casa e estaria aqui conversando com você, por exemplo. Então, quando cheguei lá, eu não falava com ninguém e estava sempre de cara fechada. Teve gente que ficou com medo de mim, falavam que eu tinha ido lá "para ganhar". Mas a partir do segundo dia, eu fui perdendo a timidez e conversando com as pessoas, usando tradutores pelo celular mesmo. Aí eles perceberam que eu não era aquele tipo de pessoa que aparentava, e começaram a sair comigo. Comecei a aproveitar, perdi a timidez e fiz bons amigos.

Nintendo Blast: E você não pretende tentar garantir o terceiro título?

Diegho San: Não sei… Eu não concordo muito com os jurados da competição. Quando a gente recebe a proposta para ir para a Copa, recebe também as especificações dos jurados e sobre como cada um vai dar seu voto para uma coisa. Um jurado vai dar pontos para a energia, outro para a técnica, outro para o estilo da pessoa... Cada um fica encarregado de uma função. Mas quando você chega lá, ele pode te dar o ponto pelo que bem entender. Eu não concordei em 2017 com os votos e as justificativas dadas a muitos participantes.



Eu já consegui ganhar duas vezes, não sei se eu tenho potencial suficiente para chegar em outra final ou não… Eu gostaria de voltar, mas não da forma que tem sido feito. Eu prefiro trabalhar e fazer o que eu gosto, que envolve o Just Dance. Hoje em dia, é difícil trabalhar com algo que a gente gosta, e eu tô super feliz com isso. Mas quanto a competir… Eu estou gostando muito do Just Dance 2019. As coreografias estão bem elaboradas e me chamam a atenção, diferente do 2018. Então, talvez quando vier um próximo torneio.

Nintendo Blast: Como é o seu trabalho com o Just Dance?

Diegho San: No início, eu trabalhava direto com a Ubisoft. Eu fiquei com eles por uns 3 anos, mas meu contrato acabou. Então, eu recebi a proposta de trabalhar com o Museu do Videogame. A Ubisoft ainda me chama para participar de alguns eventos por eles, mas sem ser fixo como antes. Quando teve o GameXP, por exemplo, eu estava com o Museu em Fortaleza. Eu consegui vir ao Rio fazer esse evento com a Ubisoft, e assim que terminou eu voltei para a outra cidade. Por enquanto, tem sido assim. Eu tento conciliar os dois.

Nintendo Blast: Como você considera o seu estilo de dança, comparado aos dos outros jogadores?

Diegho San: É difícil eu me avaliar, porque eu odeio me ver em vídeos, fotos… então eu não me vejo dançando, não fico me analisando. Acho que meu estilo é mais técnico, eu vou muito na precisão. Tento seguir o estilo de cada dançarino. Por exemplo, em Uptown Funk tem 4 dançarinos que vão mudando, e cada um tem seu estilo. Quando eu danço, eu tento seguir os estilos de cada coach. Eu vejo que muita gente tem seu próprio estilo e dança sempre daquela forma em músicas diferentes, mas eu tento ser mais flexível.

Nintendo Blast: Assistindo aos seus vídeos, parece que você sempre tenta passar um pouco da sua felicidade e estar sempre sorrindo.

Diegho San: Quando eu danço, acontece isso… Em uma das finais, eu estava chorando muito antes de subir no palco, e não podia aparecer assim. O pessoal até contava piada tentando me fazer rir de qualquer jeito. Quando eu fui jogar Born This Way, eu estava com a cara toda vermelha, tinha acabado de chorar e estava muito sério. Mas quando comecei a dançar essa música, esqueci de tudo aquilo e me entreguei totalmente. Uma jurada até comentou antes de votar, que no início eu estava nervoso por alguma razão e, quando dancei, tudo aquilo sumiu.


Quando eu danço, eu fico muito feliz. Parece que eu estou em outro mundo. Eu nunca danço só para pontuar, para ganhar. Eu sempre estou me divertindo, fazendo o que eu gosto - me sinto melhor ainda quando eu estou no Museu do Videogame. Se for competição, querendo ou não, sempre fico um pouco nervoso. Quando não tem nada disso, eu danço rindo, brincando com a galera na fila e tal.

Nintendo Blast: Você lembra o que passou pela cabeça quando você segurou o troféu pela primeira vez?

Diegho San: Eu nunca sei responder essa pergunta. Eu não acreditei na hora. No primeiro mundial, os jurados não deram pontos suficientes para mim, e eu só ganhei por causa da votação do público. Inclusive, naquele dia mais cedo, eu liguei para os meus amigos e minha mãe, falei com eles que tinha chegado na final mas eu achava que não ia ganhar. Eu tinha certeza disso, porque o público não me conhecia, e já tinha a impressão de que os jurados não votariam em mim. Mas ganhei pelo público, que até vaiava quando os jurados não me davam pontos. Eu não acreditava de verdade… fiquei feliz, levantei o troféu e tudo… mas a ficha demorou demais para cair. Só quando cheguei em casa, meus amigos fizeram uma festa... aí sim, a ficha caiu.


Nintendo Blast: E você tem orgulho de toda a sua trajetória?

Diegho San: Tenho muito orgulho. Eu não acho que eu sou o melhor do mundo. Acredito que tive sorte. Muita gente não tem um console e não tem condições de comprar um. Outras são boas no jogo, mas não tem tempo de treinar. Eu sou bicampeão mundial, mas não me acho o melhor do mundo. Eu sempre acho que eu estou péssimo quando faço um vídeo. Acho que isso é bom, minha mãe sempre me lembra disso porque eu sempre estou tentando melhorar. Por mais que eu tire um Perfect, eu sempre tento me ajustar. O Perfect não é sempre perfeito, ele vai de 81% a 100%, nem sempre eu tiro tudo 100%.

Nintendo Blast: Diegho, foi um enorme prazer fazer essa entrevista com você. Desejamos boa sorte e muito sucesso com o Just Dance mundo afora.

Diegho San: Agradeço por estar aqui no Nintendo Blast, e também pelo Just Dance existir. Eu gostaria de convidar a todos para visitar o Museu do Video
game Itinerante, que estará no Shopping Nova América em janeiro. O evento é totalmente gratuito e terá vários torneios — não só de Just Dance 2019, mas também de outros jogos, desde os anos 90 até os mais atuais.


Revisão: André Carvalho
Marcelo Vieira é formado em Análise de Sistemas na UCAM e trabalha com infraestrutura Linux. Sua educação gamer inclui clássicos como Sonic, Super Mario e Resident Evil e é apaixonado pela Nintendo, mas encontra ótimas experiências em outras plataformas. Pode ser encontrado no meio de alguma Turf War, no Facebook e no Instagram.

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