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Análise: Horizon Chase Turbo (Switch) vai muito além da nostalgia

Uma homenagem aos clássicos jogos de corrida da geração 16-bit como Out Run e Top Gear, mas que encanta também por seus próprios méritos.

Quem foi criança nos anos 90 sabe muito bem a alegria de chegar a sexta-feira. Era o “dia nacional de ir até a locadora do bairro e alugar alguns cartuchos” — ou fitas, dependendo da sua região ou preferência — de videogame. Se houvesse um feriado na segunda, então a felicidade estava completa, já que nesse caso a devolução era realizada apenas na terça-feira. Um dos jogos que eu mais gostava de pegar nessa época era o Top Gear (SNES), um jogo de corrida que eu sempre lembrei pelas incríveis músicas e pelo carro branco super econômico, e mesmo assim bastante veloz, que me acompanhava frequentemente em algumas tardes chuvosas.

Ao ficar sabendo de um game de corrida brasileiro que ficou conhecido como sucessor espiritual do Top Gear para dispositivos mobile, eu, que não sou muito fã de controles touch screen para jogos hardcore, fui correndo até a loja do meu smartphone para adquiri-lo. Infelizmente eu não tinha um bom aparelho, o que acabava me atrapalhando no início, mas depois eu consegui trocá-lo e assim finalizar o game completamente e até desbloquear alguns extras. Felizmente, a boa aceitação dessa versão permitiu que a Aquiris Game Studio pudesse trazer o jogo para o PC e consoles, chegando primeiramente no PS4.

Após aguardar tanto tempo, a versão de Switch do Horizon Chase Turbo finalmente está entre nós, trazendo mais conteúdo que as anteriormente lançadas — até o momento, pois futuramente as atualizações chegarão ao PC e PS4 — e cores de veículos exclusivas, fazendo alusão aos Joy-Con Neon Red e Neon Blue. O projeto cresceu muito em relação a versão mobile, trazendo um game mais completo. Muito conhecido por suas referências, ele é sim uma “injeção de gasolina em nossas veias nostálgicas”, mas apesar de essa ser sua proposta principal, tratá-lo apenas como uma bem feita homenagem a antigos jogos de corrida arcade seria no mínimo injusto.

Passaporte, por favor

Para começar, o modo principal do game é um pouco diferente do que encontrávamos antigamente. Talvez pela adaptação ter sido realizada a partir de um jogo portátil, a nova proposta é menos linear, e possivelmente atrairá facilmente quem possui pouco tempo disponível para jogar ou é simplesmente parte do grupo mais casual de jogadores. A Volta ao Mundo proporciona ao jogador uma viagem ao redor do planeta por 11 países (12 locais), iniciando na Califórnia (EUA) e terminando no Havaí — que é um estado americano.

Inicialmente, este é o único modo de jogo disponível e conta com apenas as três primeiras corridas desbloqueadas, mas, de acordo com a pontuação adquirida, iremos descobrir novos locais aos poucos. Após liberar as próximas pistas, será possível pular as corridas que não desejar competir no momento ou voltar nelas quando se sentir mais preparado, deixando a cargo de cada jogador a escolha de seu próprio caminho.


Para ser um bom piloto é necessário aprender a fazer cada curva, estar sempre alerta às oportunidades de ultrapassagem e contar com bons reflexos para não bater na traseira dos adversários. Saber usar o nitro na hora certa e tomar o cuidado de nunca ficar sem combustível também são importantes. Infelizmente, o game não possui a parada de abastecimento, presente em sua principal inspiração, que adicionaria uma camada estratégica às corridas.

Ao invés disso, o Horizon conta com símbolos de galões espalhados pela estrada, transformando a experiência geral em algo ainda mais arcade, já que é preciso decorar onde estão os itens para coletá-los na próxima volta. A proposta acaba deixando as corridas mais frenéticas, pois às vezes só conseguimos avistar o primeiro colocado no final da corrida. Nitros extras também podem ser encontrados, e na largada é possível sair com vantagem acelerando no tempo certo, mas será que a técnica é eficiente em todas as ocasiões? Cabe ao jogador decidir.


Aproveitando a ideia, algumas moedas também foram distribuídas por todas as pistas. Ao terminar as corridas, nossa colocação, número de moedas coletadas e combustível restante é contabilizado, e recebemos um troféu de acordo com o desempenho. Quanto melhor a pontuação, mais rapidamente iremos desbloquear veículos e outros segredos do jogo. Entretanto, na tentativa de desbloquear todo o conteúdo do game, essa pode ser uma tarefa repetida muitas vezes em pistas mais difíceis, e por isso seria interessante uma opção mais rápida para trocar de carro continuando na mesma pista. A opção Reiniciar recomeça a corrida com o mesmo veículo e para escolher outros é preciso retornar dois menus e escolher o percurso novamente.

Sendo assim, uma corrida em Horizon Chase Turbo possui muitos objetivos além de cruzar a linha de chegada em primeiro, e o jogo conta até mesmo com um ranking dos melhores tempos, que podem ser filtrados em global ou amigos, em cada pista, já que não foi possível adicionar multiplayer online — mesmo assim, é possível correr contra o fantasma de algum corredor escolhido para dar aquela sensação de ter um adversário à distância. O multiplayer local é garantido, com single Joy-Con e tela dividida para até quatro jogadores.


Nostalgia à flor da pele

Alguns traçados dos circuitos trazem boas lembranças, como o Platô, pista da Chapada Diamantina, que remete diretamente a pista brasileira do game Ayrton Senna's Super Monaco GP II (Mega Drive/Master System/Game Gear) — e que na verdade é o traçado oficial do autódromo de Interlagos, conhecido pelo famoso “S do Senna” e presente na Fórmula 1, mas o jogo citado é minha melhor referência para ela —, e outros bem criativos, como o Festival dos Balões, uma pista em Brasília que possui o formato de um avião. O traçado da Bélgica no game da Sega também possui uma versão bem parecida em Horizon Chase.

Outros retornos nostálgicos foram os variados tipos de terreno, que podem mudar em setores diferentes da pista, transições temporais entre dia e noite, e até mesmo balões de comentários dos carros, reagindo aos acontecimentos durante a corrida. Aliás essa é uma opção que foi bastante aprimorada em relação ao Top Gear. Além das diferenças de design e em capacidades de aceleração, velocidade máxima, controle, combustível e nitro, cada veículo em Horizon Chase parece ter uma personalidade própria, que é refletida em seus balões de diálogo.


O caso que chama mais atenção é o exclusivo Carro da Firma, um Fiat Uno com escada no teto, presente até o momento apenas nas versões de Switch e Xbox One, que cita frases que fazem referência a Hot Wheels e até aos comediantes do Choque de Cultura. Infelizmente esses balões podem atrapalhar no multiplayer local por aparecerem nas duas telas e, consequentemente, acabar tapando a visão quando o adversário está um pouco à nossa frente.

Ao contrário de jogos antigos, o game permite que todos os diversos veículos presentes como adversários também possam ser desbloqueados para serem utilizados pelo jogador. As opções incluem esportivos, muscles, clássicos e outras surpresas bastante engraçadas e conhecidas por nós, brasileiros. Existem corridas específicas que desbloqueiam melhorias, que são automaticamente aplicadas em todos os automóveis disponíveis. É interessante como o game leva um pouco de nossa cultura em forma de carros que são bem populares no Brasil, e também pelos memes (piadas), para o público internacional. Obviamente, nem tudo foi traduzido nas outras localizações ou se trata de referência nacional. Os fãs de cultura popular e os gringos também estão bem representados.


Música para os meus ouvidos

Enquanto viajamos pelo mundo, vamos encontrar diversos cenários belíssimos, inclusive alguns cartões postais dos países visitados. Que tal correr ao lado da Grande Muralha da China, na ilha de Madagascar, na África do Sul, ou próximo ao Taj Mahal, na Índia? Alterações climáticas também fazem parte dos obstáculos encontrados nas corridas. Além da chuva, podemos encontrar tempestades de neve na Islândia ou de areia no deserto do Atacama, no Chile.

A belíssima arte do game é feita em Low Poly, um tipo de técnica que usa propositalmente poucos polígonos, simplificando os modelos 3D. Porém, apesar de o cenário ser mais “quadradão”, eles possuem muitos detalhes, como placas diferentes que são utilizadas nos diversos países, além de outros obstáculos como rochas e até moais, os gigantes de pedra encontrados na Ilha de Páscoa. Os carros receberam um nível de detalhamento maior em sua modelagem, e as cores foram usadas de forma muito bem feita em tudo no jogo, deixando sua apresentação visual viva e vibrante.


Um dos grandes acertos do game, e que prova se tratar de um produto de fãs para fãs, foi o convite da equipe para que o lendário Barry Leitch fizesse parte do projeto, compondo ele mesmo as músicas. Para quem não o conhece, ele possui um extenso currículo fazendo músicas para jogos, sendo a mais marcante para os brasileiros a do próprio Top Gear. A trilha sonora de Horizon Chase chega na “mesma pegada” que a do jogo do Super Nintendo, mas em maior quantidade e com alguns belos remixes. Mesmo que algumas músicas atuais não se tornem tão icônicas quanto as antigas, o trabalho sonoro em Horizon Chase ainda é de cair o queixo. Vale a pena conferir!

Nem tudo são flores

A versão mobile do game era problemática pelo controle. Escorregar o dedo na tela e acabar tirando-o do acelerador ou passar direto em uma curva eram situações comuns. Agora com controles de botões a precisão é bem melhor. Inclusive, esse é um tipo de jogo que eu geralmente prefiro jogar no direcional digital, mas o controle pelo analógico está bastante confortável. Por conta disso, parece que os desenvolvedores puderam aumentar um pouco o nível de desafio, que mesmo assim continua justo e com uma curva de aprendizado e dificuldade muito acertada.

O HD Rumble foi utilizado de forma muito inteligente, capaz de fornecer um excelente feedback tátil sobre colisões contra carros, obstáculos nas margens da pista — aliás, bater o carro no game pode ser um show à parte, dependendo da velocidade atingida —, e até os itens presentes no percurso, como moedas e galões de combustível. No menu de opções é possível mapear os botões, mas infelizmente o jogo não está salvando essas alterações, e ao encerrá-lo, é preciso configurar tudo novamente na próxima jogada.

Outro ponto negativo, e grave, é que cada vez mais o game tem sido acometido por problemas técnicos, como congelamento de tela e encerramento abrupto. Isso tem ocorrido mais ainda após o lançamento do que quando a chave para análise foi recebida, e geralmente acontece ao escolher ou terminar uma corrida. A impressão que passa é que o problema possa talvez ter alguma relação com a leitura e envio de informações sobre o tempo dos jogadores, pois quanto mais registros estão sendo salvos, mais vezes o problema tem se repetido. Esperamos que isso possa ser corrigido em algum momento por atualização.


Para todos os gostos

Os outros modos de jogo desbloqueados aos poucos são: Torneio, Playground e Resistência. Se você gosta do estilo mais clássico, no qual vence quem fizer mais pontos em quatro corridas consecutivas, o modo Torneio deve lhe satisfazer. Dividido em três níveis de dificuldade, que também precisam ser desbloqueadas, ele trará algumas recompensas interessantes e funciona perfeitamente para jogatinas rápidas de multiplayer local, para ver quem se sai melhor na série de circuitos escolhida.


O modo Playground é, por enquanto, exclusivo da versões do Switch e Xbox One, e é focado na experiência competitiva. A cada duas semanas cinco circuitos diferentes estarão disponíveis, com regras, condições climáticas e até o número de voltas alterado. A dificuldade é gradual entre eles — ao menos na primeira semana —, permitindo que qualquer tipo de jogador consiga participar, desde os iniciantes até os hardcore. O ranking é destacado nesse modo, incentivando uma disputa pelo melhor tempo. Além disso, as diferentes condições para as corridas já conhecidas são um grande incentivo ao fator replay do game.


Já a Resistência convida os jogadores hardcore a provarem do que são capazes. Existem três níveis de dificuldade. A primeira delas já conta com 12 pistas que devem ser percorridas em uma única jogada. Elas são aleatórias, e, a cada vitória, é possível escolher uma melhoria para o veículo. Ao chegar fora das cinco primeiras colocações, o jogador é eliminado e precisa recomeçar o modo. A meta final é pontuar mais do que os adversários nessa longa sequência de pistas. O lado bom de ser dono de um Switch é poder colocá-lo em modo descanso, mantendo o jogo aberto para continuar depois, já que estima-se que o nível mais difícil do modo deva durar em torno de quatro horas.


Linha de chegada

Resumindo, Horizon Chase Turbo é um jogo que traz orgulho aos brasileiros, feito com carinho por quem entendeu não só as mecânicas, mas sim a alma, aquilo que realmente é importante em um bom jogo de corrida arcade. A nostalgia conta bastante, mas muito do conteúdo e do gameplay foi atualizado em uma experiência mais moderna. Para fãs do gênero, é um game imprescindível, que merece ser degustado, desbloqueando pouco a pouco seu vasto conteúdo, curtindo a maravilhosa trilha sonora composta por Barry Leitch, se divertindo com as engraçadas referências, disputando a cada curva, com os amigos no sofá, ou contra seus fantasmas online, viajando por esse belíssimo mundo minimalista e correndo atrás de cada vitória!


Prós:

  • Senso de progressão garantido, já que quase tudo é desbloqueado aos poucos;
  • Grande quantidade de veículos à disposição, cada um com qualidades únicas;
  • Gameplay fluido e modos de jogo interessantes;
  • Controles precisos, com uso inteligente do HD Rumble;
  • Belos gráficos e atenção na criação dos cenários;
  • Trilha sonora maravilhosa;
  • Alto fator replay;
  • Referências nacionais, internacionais e à cultura popular;
  • Multiplayer local para até quatro jogadores, aceitando um Joy-Con para cada um.

Contras:

  • Problemas técnicos como travamentos e encerramentos abruptos;
  • Remapeamento de botões não está salvando;
  • A parte de melhorias dos veículos poderia ter sido mais elaborada;
  • Não possui multiplayer online.
Horizon Chase Turbo — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Luigi Santana
Análise produzida com cópia digital cedida pela Aquiris
Lucian Helan é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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