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Análise: Monster Boy and the Cursed Kingdom (Switch) — uma grande aventura em um mundo vibrante

Visual excepcional e uma jornada diversificada são os grandes destaques do sucessor espiritual da série Wonder Boy.


Uma das séries clássicas da Sega comumente lembrada pelos jogadores é Wonder Boy. Nela, um cavaleiro sai em uma jornada para salvar uma princesa ou até mesmo o mundo. Os títulos da franquia são majoritariamente de plataforma, porém há também a presença de outras características, como shoot’em up e até mesmo metroidvania. Monster Boy and the Cursed Kingdom é uma continuação espiritual de Wonder Boy e tem como protagonista um herói capaz de se transformar em várias criaturas em uma aventura de plataforma. Tecnicamente impecável e muito variado, o jogo oferece uma experiência excepcional e divertida.

Monster Boy and the Cursed Kingdom nasceu como um jogo completamente diferente: produzido por um estúdio independente, ele se chamava Flying Hamster II e era fortemente inspirado em Wonder Boy III: The Dragon’s Trap. O conceito, que tinha um hamster guerreiro que se transformava em outros animais, chamou a atenção de uma publicadora maior e também de Ryuichi Nishizawa, criador da série Wonder Boy, que passou a colaborar no desenvolvimento do jogo. Sendo assim, o título foi completamente retrabalhado e agora é considerado uma sequência da série, por mais que não tenha sido possível utilizar o nome da franquia.

Um herói versátil

A história do aventureiro Jin começa quando seu tio fica descontrolado e transforma os habitantes do reino Monster World em animais. O rapaz tenta impedir seu tio, porém é transformado em um leitão e jogado em um esgoto. Depois de muito custo, Jin chega à capital do reino e descobre que para quebrar o feitiço será necessário encontrar orbes mágicos escondidos pelo mundo. Sem outra opção, o rapaz parte em uma jornada para tentar descobrir as motivações de seu tio e desfazer a bagunça feita por ele.


Monster Boy é um jogo de ação e plataforma 2D com características de metroidvania. Em sua busca pelos orbes mágicos, Jin precisa pular, derrotar monstros e chefes, e resolver puzzles para avançar. Para explorar o grande mundo interconectado, o herói conta com uma habilidade curiosa: ele pode assumir outras formas baseadas em animais, cada qual com características únicas.

O leitão consegue lançar feitiços e farejar objetos escondidos, porém não consegue utilizar nenhum dos equipamentos. Já a cobra pode grudar em paredes específicas e avançar por corredores estreitos. O sapo usa sua língua para se balançar em argolas e agarrar objetos, além de nadar livremente na água. O poderoso leão consegue quebrar blocos com sua investida de ombro e correr em cima de líquidos. Por fim, temos o dragão, que voa e cospe fogo. É possível trocar livremente entre as transformações já obtidas.


Para avançar, é necessário alternar constantemente entre as formas monstruosas, pois os obstáculos exigem habilidades específicas para serem superados. Há também inúmeros equipamentos que auxiliam na exploração, como uma bota pesada para andar debaixo d’água e escudos que refletem bolas de fogo. Como é de praxe do gênero metroidvania, o mapa é extenso e repleto de segredos, com vários pontos que só podem ser alcançados após se adquirir habilidades ou transformações específicas.

Um variado mundo para explorar

Monster Boy and the Cursed Kingdom parece mais um desses títulos de plataforma 2D que temos visto com frequência ao utilizar mecânicas consagradas e elementos de metroidvania. No entanto, bastam algumas horas para perceber que este jogo tem seus próprios méritos, trazendo uma experiência bem distinta. Mesmo com um mapa extenso, a progressão geral da aventura é bem linear e lembra um jogo tradicional de plataforma com ritmo acelerado.  Eventualmente, há trechos focados na exploração e também revisitação de áreas previamente completadas. A dosagem dos dois tipos de ritmo é balanceada e o jogo disponibiliza vários recursos para viajar rapidamente pelo mundo, tornando bem ágil a busca por segredos.


Como um bom título do gênero, a movimentação é muito precisa, fazendo com que seja prazeroso controlar Jin. Certas formas são um pouco difíceis de usar no combate por causa do alcance limitado dos ataques, porém com o passar do tempo o jogador consegue avaliar melhor as distâncias — no começo eu levei muito dano por causa disso, mas no final da aventura já tinha dominado completamente o combate. Por causa das diferenças nas habilidades, cada transformação monstruosa oferece uma experiência única de jogo.

A melhor parte de Monster Boy está no desenho dos níveis, pois boa parte das salas do jogo apresentam puzzles e desafios que incentivam o uso das habilidades das formas do herói. Alguns deles são de navegação, demandando superar perigos e inimigos de maneiras específicas, já outros são focados em trechos de plataforma e combate. O legal é que muitos dos puzzles não têm solução óbvia, sendo essencial experimentação e muita atenção para perceber as dicas sutis. Por fim, há segredos em todos os cantos, principalmente em locais inesperados — vasculhar detalhadamente cada cantinho é bem recompensador.


Meus momentos favoritos no jogo são aqueles em que é necessário utilizar várias formas diferentes em conjunto para superar os desafios. Em uma sala precisei usar a língua do sapo para me lançar no ar, rapidamente trocar para a cobra para poder grudar na parede, e, por fim, me transformar em leitão para explodir uma parede com uma bomba. Já em outra situação, usei o olfato aguçado do leitão para encontrar minas escondidas em blocos que só podiam ser destruídos pelo leão. Fiquei bastante surpreso com a criatividade e variedade dos desafios espalhados pelo mundo.

No geral, o andamento do jogo traz uma leve sensação de estar experimentando algo clássico. No entanto a agilidade dos controles e a presença de mecânicas modernas faz com que Monster Boy seja contemporâneo e acessível. O resultado é um título que oferece um misto de experiências, capaz de agradar tanto jogadores nostálgicos quanto aqueles que nunca ouviram falar de Wonder Boy.


Calabouços e outros perigos complicados

Em alguns pontos da aventura, Jin explora alguns calabouços. Esses locais apresentam as situações mais complicadas do jogo, com muitos puzzles elaborados e inimigos poderosos. O ritmo muda um pouco, pois ficamos confinados em um único local tentando avançar, e nem sempre é fácil de descobrir o próximo passo. Todos eles terminam com uma batalha contra um grande chefe e gostei bastante desses confrontos: os mestres são memoráveis e as estratégias para derrotá-los costumam ser criativas (mesmo que nem sempre claras de entender). Os calabouços trazem uma experiência diferenciada, no entanto, achei alguns deles longos demais a ponto de ficarem cansativos — é um pouco chato ficar uma hora ou mais vagando pelo mesmo lugar sem saber exatamente como prosseguir.

A dificuldade de Monster Boy é moderada, com alguns trechos que exigem muita habilidade. No decorrer da jornada, perdi a conta da quantidade de vezes que morri: espinhos, buracos, muitos inimigos, pulos mal calculados e mais foram os motivos da minha derrota. Na maior parte das vezes isso não é um problema, pois o herói normalmente reaparece em algum ponto próximo.


No entanto, a localização de alguns checkpoints me incomodaram bastante por estarem distantes entre si. Isso é problemático em trechos difíceis em que é fácil levar muito dano, pois o herói recupera somente uma pequena parte dos corações ao reviver. Sendo assim, você acaba morrendo de novo ao tentar passar pelo mesmo trecho por não ter vida suficiente. Para piorar, itens de recuperar a energia são raros de encontrar, acentuando esses momentos de dificuldade. Por sorte há poucos os trechos assim na aventura, mas não deixa de ser um pouco frustrante.

A beleza de Monster Land

Além de mecânicas bem trabalhadas, Monster Boy também é excepcional no audiovisual. O mundo de Monster Land é retratado com impressionantes ilustrações desenhadas à mão, e seu habitantes contam com animações detalhadas — os personagens transbordam carisma com suas ações, como os movimentos desajeitados da transformação de leitão.

As localidades do jogo apresentam várias camadas de elementos visuais, resultando em áreas deslumbrantes e memoráveis — até a mais simples das salas é construída com esmero. Cada região consegue transmitir uma atmosfera distinta: um templo maia no topo de uma montanha, cavernas de gelo com imensos cristais, uma vila flutuante no céu, e mais. A sensação é de estar jogando um desenho animado.


A música ficou a cargo de um grupo admirável de compositores, como Yuzo Koshiro (Streets of Rage, Etrian Odyssey), Michiru Yamane (Castlevania), Motoi Sakuraba (Tales of, Dark Souls) e Keiki Kobayashi (Ace Combat, Tekken). A trilha sonora de Monster Boy é repleta de composições belas e que evocam constantemente a sensação de estar em uma grande aventura. Um detalhe interessante é que cada compositor trouxe um pouco de si em suas faixas, mas sem fugir do tema geral da ambientação, o que resultou em boa variedade sonora. Há também alguns remixes bem legais de músicas de outros títulos da série Wonder Boy.

Um pouco de nostalgia complementa a ambientação. No decorrer da aventura, várias referências a outros Wonder Boy aparecem — coisas como diálogos, itens, elementos dos cenários, descrições, e mais. Esse recurso é inserido de maneira natural e aqueles que conhecem outros títulos da franquia vão se divertir com essas referências. Seguindo a tendência de títulos independentes, o jogo conta com texto completamente localizado para Português do Brasil.


Uma jornada fascinante

Monster Boy and the Cursed Kingdom conquista com uma aventura variada e de ritmo ágil. Controlar Jin e suas várias transformações por um mundo imenso é uma experiência divertida por causa dos controles precisos e o desenho de níveis interessante, com puzzles e situações que exploram as habilidades dos monstros de maneiras criativas. Além disso, o visual é impecável com gráficos desenhados à mão e a música é muito bem produzida (algo natural, afinal a equipe de compositores é notável). Há alguns tropeços, como pequenos problemas de ritmo, contudo eles atrapalham muito pouco a experiência geral. No fim, Monster Boy and the Cursed Kingdom resgata e moderniza muito bem conceitos clássicos, sendo o resultado uma experiência excepcional.

Prós

  • As várias transformações do herói diversificam a jogabilidade;
  • Ótimo level design com salas com puzzles e situações que utilizam as habilidades de formas criativas;
  • Mundo extenso e recheado de locais interessantes para ver e de segredos para descobrir;
  • Belíssimo visual com gráficos desenhados à mão e personagens animados com esmero;
  • Trilha sonora memorável produzida por um time de compositores de renome.

Contras

  • Pequenos problemas de ritmo em alguns calabouços longos demais;
  • Alguns checkpoints são mal localizados e podem trazer frustração.
Monster Boy in the Cursed Kingdom — Switch/PS4/XBO — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela FDG Entertainment
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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