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Análise: Cursed Castilla EX (Switch) é uma nostálgica e desafiante homenagem aos clássicos

Matar fantasmas e goblins na Espanha medieval é extremamente viciante neste pequeno jogo com cara e jeito de um arcade oitentista.


Os arcades do passado eram cruéis com os jogadores. Neles, os jogos tinham a proposta de divertir por cerca de 5 ou 6 minutos e depois começavam um processo terrível de tentar consumir as últimas vidas do resistente jogador. Mas o que muitas vezes era extremamente irritante, nos games realmente bons era quase um mérito. Se o gameplay era cativante, as fichas deslizavam para dentro da máquina com facilidade e a vontade de voltar a tentar aquela fase "impossível" era instantânea.


Cursed Castilla se encaixa perfeitamente nessa categoria de jogos dificílimos, mas extremamente viciantes. De cara dá para notar as influências de Rastan, Castlevania, Shinobi, etc., mas é simplesmente inegável que o grande homenageado — e influência mais gritante — é Ghosts'n Goblins, da Capcom. Mesmo sem inovar, o pequeno título do designer espanhol Juan Antonio Becerra, também conhecido por seu pseudônimo Locomalito, é um deleite para os fãs de jogos de arcade retrô.

Cavaleiros do Reino de Castela

Como em todo bom arcade de ação, a história é curta e grossa. Em uma brevíssima introdução antes da tela de título somos apresentados à fábula que é palco para a nossa aventura: uma jovem bruxa está em luto e é seduzida por um demônio que a convence a transformar suas lágrimas em uma chave mágica para liberar demônios por todo o Reino de Castela (a Castilla do título).

É aí que entra o nosso bravo herói, Don Ramiro, enviado pelo Rei Alfonso VI de León junto de outros leais cavaleiros para as amaldiçoadas terras de Tolomera, com a missão de derrotar as hordas de inimigos. E isso é tudo, e mais do que suficiente, para dar uma camada de contexto a essa aventura cheia de monstros, mortos-vivos e lugares horrendos para explorar.

Fantasmas e goblins espanhóis

Mesmo tendo como pano de fundo lugares reais da Espanha, mitos e fantasia tomam conta dos cenários. E onde falta aprofundamento histórico, sobra referências aos clássicos games de arcades do passado. Confesso, sou uma cria dos fliperamas, então fiquei absolutamente apaixonado pelo visual em pixel art de Cursed Castilla, com aquele toque de antigamente.

A homenagem é tão intensa que há até uma charmosíssima entrada que simula o início de uma ROM dos fliperamas! Tudo no game faz o jogador praticamente voltar no tempo para a era de ouro das máquinas comedoras de fichas, incluindo uma trilha sonora que conta com aquele estilo sonoro meio metalizado clássico dos jogos da época — legitimamente composto e gravado utilizando uma placa FM Sound Yamaha YM2203.


A tela é apresentada numa resolução em 4x3, com uma belíssima borda lembrando as artes das velhas máquinas de arcade. Para aumentar a nostalgia, é possível ativar o já famoso filtro de scanlines para deixar a imagem com aquele aspecto de monitor antigo. E é claro que isso tudo é alimentado com lindos sprites e animações condizentes com o resto das referências.

Morra, morra e tente outra vez

O gameplay é exatamente o que se espera de um jogo do estilo. Controlar Don Ramiro emula de forma quase perfeita aquele sentimento de achar que está no controle da situação, até ser pego totalmente de surpresa por um inimigo que surge do nada. É o típico game de arcade: fácil de pegar e jogar, mas extremamente difícil de dominar e bater "com uma ficha".


Mas não se assuste, a dificuldade é até justa, ficando muito mais para um Castlevania do que para a grande influência de Cursed Castilla, Ghosts n Goblins — que tinha um nível de exigência completamente desproporcional. O título é "raiz" até mesmo nos comandos, que exigem apenas um botão para pular e outro para atacar. Simples assim, sem especiais ou movimentos complexos.

A diversidade vem com a adição de diferentes armas e itens a serem coletados pela campanha. Os baús encontrados pelos cenários oferecem um aspecto de risco e recompensa, e podem entregar itens que dão pulo duplo, tempo extra, vários tipos de armas diferentes, multiplicador de pontos, etc. Além disso, há uma fada que voa pela tela de vez em quando, e quando acertada, proporciona um ataque extra extremamente útil.


Cada uma das seis armas possui diferentes atributos de dano, alcance e comportamentos, o que dá variedade ao combate e pode ser útil nas mais diferentes situações. Particularmente, me senti muito mais confiante usando as armamentos com movimento horizontal (espada e boleadeiras, por exemplo) e tive dificuldades em manejar as armas que fazem um arco (machado e água benta).

Como em todo exemplar desse estilo, alguns pulos que exigem precisão são puro desespero. Apesar de a jogabilidade ser certeira, a dificuldade é alta e o arco que o personagem faz ao saltar não pode ser alterado no ar como estamos acostumados nos jogos de plataforma atuais. Além disso, quando atingido, Don Ramiro é arremessado para trás, mais ou menos como acontecia nos velhos títulos das séries Castlevania e Ninja Gaiden para NES. Não estou reclamando, faz parte da experiência, mas é dureza principalmente nos direcionais dos Joy-Con. Esteja preparado!

Antigo, mas nem tanto

É claro que Cursed Castilla não vive só de nostalgia. Várias convenções modernas de game design deixam a experiência muito mais acessível. Por exemplo: o jogo salva seu progresso fase a fase, e cada estágio contém diversos cenários diferentes com checkpoints entre eles. Toda vez que você morre, volta para o último ponto de salvamento, mas se você desligar e reiniciar a partida, a volta é para o início da última fase.

Parece fácil, mas nos últimos capítulos a volta constante para os checkpoints são brutais e podem ser bem frustrantes. Sem dúvidas exige habilidade e muita paciência em alguns momentos. Outro detalhe importante: essa versão EX é bem generosa na dificuldade porque oferece "créditos infinitos". Ou seja, você sempre pode continuar de onde parou.


No entanto, há um motivo para os créditos infinitos estarem entre parênteses. Depois de usar quatro deles, um texto informa que o jogador só pode continuar se pagar o preço "com sua alma". Isso quer dizer que você não terá mais acesso ao "melhor final" da aventura. Ou seja, completar o game não é uma tarefa impossível, mas atingir o final verdadeiro exige muito treino e até pitadas de sorte.

Cursed Castilla entrega oito estágios bem desenhados, quebrados em diversas subseções. Além disso, a pequena aventura possui um número generoso de chefes enormes, criativos e desafiantes. É um jogo curto, mas levando-se em conta o nível de desafio e os quatro finais diferentes — que exigem a descoberta de alguns segredos —, o pacote é até bem razoável.

Essa edição também conta com extras interessantíssimos na forma de um códice com informações sobre os monstros, heróis, segredos, etc., além da trilha sonora completa. Tudo apresentado como um livro medieval, com artes únicas e um visual muito bacana.

Um jogo da "Era Medieval" dos games

Cursed Castilla não reinventa a roda. Muito pelo contrário, a sua proposta é entregar uma aventura fiel ao visual e controles dos grandes clássicos dos arcades de outrora. Isso pode ser um ponto positivo ou negativo, vai depender de sua expectativa. É um jogo perdido no tempo, e os controles um pouco duros podem ser um empecilho para quem não está habituado. Mas se você, como eu, pegar o controle sabendo que terá momentos de adrenalina e fúria, e que qualquer distração pode valer uma vida, dá para se divertir bastante com esta singela aventura espanhola.

Pros

  • O título transborda o charme visual e sonoro dos clássicos arcades dos anos 80;
  • Excelente design de fases e de chefes;
  • Desafio alto, mas justo;
  • Algumas escolhas mais modernas de design deixam o jogo ainda mais acessível e viciante.

Contras

  • É uma aventura bem curta;
  • Ver o final verdadeiro pode ser exigente demais para alguns jogadores.
Cursed Castilla EX — Switch/3DS/PS4/XBO/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Abylight Studios

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne

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