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Análise: Unruly Heroes (Switch) é uma bela aventura inspirada na mitologia chinesa

Quatro heróis se juntam em um título de plataforma que tem como destaque a grande variedade.


Unruly Heroes chama a atenção com seu belíssimo visual desenhado à mão e atmosfera fantástica. O jogo de ação e plataforma 2D, que foi produzido por veteranos da Ubisoft que trabalharam em Rayman Legends, se inspira no romance chinês “Jornada para o Oeste” para criar uma jornada exótica e colorida. Uma grande diversidade de desafios é o maior destaque do título.

Uma jornada para purificar o mundo

A harmonia do universo é mantida por um pergaminho sagrado. Um dia, ele é despedaçado e o caos aparece: bestas, monstros e outros perigos aparecem pela Terra. A esperança vem na forma de um grupo de heróis, que viajará para o Oeste a fim de recuperar as partes do pergaminho e restabelecer o equilíbrio do mundo.

Sendo assim, controlamos os heróis improváveis em uma aventura de plataforma e ação. O macaco Wukong é o mais ágil do grupo com ataques rápidos e pulo duplo. O monge Sanzang consegue planar pelo ar e utiliza orbes para enfrentar os inimigos e ativar dispositivos distantes. Kihong é um porco que flutua com a ajuda de suas próprias orelhas, além de ser capaz de inflar seu corpo como um balão. Por fim, o brutamontes Sandmonk é o único que consegue destruir certos obstáculos com seus punhos poderosos.


Além de velocidade e outras características distintas, cada herói conta com uma habilidade especial exclusiva que pode ser ativada em locais específicos dos cenários. Por causa disso, precisamos trocar constantemente entre os personagens para conseguir avançar e resolver pequenos puzzles — a mudança é instantânea e feita com um simples toque de botão. Unruly Heroes conta com multiplayer cooperativo para até quatro jogadores, o que elimina a necessidade de alternar entre os heróis. Há também um modo competitivo que pode ser aproveitado localmente ou online, mas mesmo sendo divertidas, essas batalhas rapidamente cansam por causa de sua simplicidade.

A beleza e a variedade de um universo místico

Unruly Heroes, inicialmente, parece mais um jogo de plataforma: na maior parte do tempo o foco é superar trechos complicados, com eventuais combates. Há também alguns puzzles, como ativar mecanismos nos momentos certos. Colecionáveis, como moedas e pergaminhos, estão espalhados pelos estágios em uma tentativa de incentivar a revisitação. No entanto, as recompensas são desinteressantes (artes conceituais e novas cores para os heróis).

O título surpreende com a diversidade de situações com mecânicas bem criativas. Em uma fase, por exemplo, controlamos um lobo que consegue chamar aliados ao uivar. Com a ajuda deles, resolvemos alguns puzzles, como um trecho em que os outros animais aparecem no fundo do cenário e precisamos coordenar os movimentos para conseguir avançar. Já em outro estágio, o objetivo é fugir de uma grande criatura aquática em cima de um barco em movimento, com vários obstáculos pelo caminho que precisavam ser destruídos para não obstruir o veículo. Outra situação exige ativar lâmpadas especiais para espantar criaturas invencíveis enquanto navegamos por trechos complicados de plataforma.


Um dos pontos altos de Unruly Heroes é um conjunto de fases em que controlamos versões mais jovens dos heróis. Por causa da transformação, os personagens perdem boa parte de suas habilidades e precisam usar suas almas, que flutuam acima deles na forma de uma esfera, para avançar. As mecânicas são tão diferentes e inventivas que parece até mesmo um jogo distinto.

Durante os estágios, aparecem alguns momentos de combate. Enfrentar inimigos comuns, na maior parte do tempo, é desinteressante — basta apertar os botões sem muita atenção para derrotá-los. Isso muda nas batalhas contra subchefes: essas criaturas apresentam padrões mais elaborados, exigindo atenção e destreza. Os grandes chefes também contam com confrontos interessantes em lutas divididas em etapas distintas, sempre explorando as habilidades dos heróis de maneiras únicas. Além disso, os mestres são visualmente memoráveis, como uma gueixa-mecânica gigante e mais.


Uma atmosfera fantástica, com estonteante gráficos desenhados à mão, complementam a diversidade da aventura. Pelo caminho, os heróis visitam imensas cachoeiras impressionantes, ruínas na neve acompanhadas pelo sol poente, cavernas repletas de criaturas estranhas, um exótico e colorido mundo dos mortos e mais. Fiquei impressionado com o esmero depreendido nos detalhes, principalmente no uso de várias camadas de cenários para trazer uma sensação de ambiente elaborado. Só achei uma pena que a câmera fique distante da ação na maior parte do tempo, pois por causa disso é um pouco difícil ver a movimentação e os detalhes dos personagens.

Contratempos na aventura

Unruly Heroes tem visual excepcional e bem trabalhado, mas infelizmente tem alguns problemas em suas mecânicas e controles que atrapalham a experiência.

Apreciei bastante a variedade de situações na aventura que, inclusive, não é muito fácil — em alguns estágios, perdi a conta das vezes que morri tentando passar de algum trecho. É nesses momentos que a natureza de tentativa e erro aparece. Em vários pontos, o jogo exige uma habilidade fora do comum, com partes em que um único erro é capaz de mandar o personagem para o início da sessão. Também é comum perigos que aparecem de surpresa sem tempo hábil para reagir, resultando em mortes injustas. Há muitos picos de dificuldade, principalmente no último mundo, o que pode deixar a experiência frustrante e cansativa.


Um dos motivos desse problema vem dos controles. Nem sempre os comandos respondem bem, como em partes em que precisamos pular pelas paredes ou então realizar um salto no ar — às vezes simplesmente o personagem não o faz, resultando em morte. No combate faltou um pouco de clareza em relação ao dano: os personagens não reagem a alguns ataques dos inimigos, então muitas vezes você é acertado por algo e acaba morrendo sem saber exatamente o motivo.

A dinâmica de vários protagonistas deixa um pouco a desejar. São quatro heróis diferentes, mas na prática eu senti que poderia ser um único personagem por causa da subutilização das possibilidades. As habilidades únicas têm uso bem óbvio e raramente precisam ser utilizadas em conjunto, tendo pouco impacto na aventura. É interessante que cada personagem tenha movimentação diferente, mas na prática isso faz com que alguns sejam ruins de jogar — no fim, usei o macaco na maior parte do tempo por ser o mais ágil e fácil de controlar, já o monge foi o que eu menos usei por ser muito lento e desajeitado.


Por fim, o modo cooperativo deixa o jogo mais difícil pelos motivos errados. Acontece que é muito mais complicado coordenar os pulos e movimentações com mais gente, ainda mais por causa das diferentes características de cada herói. Além disso, os controles não são tão precisos e há muitas armadilhas e complicações pelo caminho. O resultado é um multiplayer frustrante, principalmente se os jogadores tiverem níveis de habilidades diferentes. No fim, fiquei com a sensação de que Unruly Heroes é uma experiência mais divertida com um único jogador, pois parece que o jogo todo foi feito com foco no modo solo e só depois colocaram a opção cooperativa, sem adaptar os desafios.

Uma experiência variada e divertida

Unruly Heroes é uma aventura de plataforma competente e com algumas ideias legais. O seu maior trunfo está na grande criatividade da jornada: as mecânicas de ação e plataforma são exploradas de maneiras diversas, com alguns momentos bem memoráveis. Além disso, seu visual é notável com a presença de belíssimos cenários desenhados à mão. Infelizmente, alguns problemas atrapalham a experiência, como picos estranhos de dificuldade, controles imprecisos e algumas ideias mal executadas. No fim, vale a pena visitar e se divertir no universo de Unruly Heroes, mesmo com a presença de alguns deslizes.

Prós

  • Grande variedade de situações, com alguns estágios bem criativos;
  • Lutas contra subchefes e chefes apresentam bom misto de desafio e diversidade;
  • Atmosfera convidativa construída com a ajuda de belos visuais.

Contras

  • Há alguns problemas com os controles e as habilidades dos personagens são subutilizadas;
  • Dificuldade inconstante, com muitos momentos de tentativa e erro;
  • Modo cooperativo desbalanceado.
Unruly Heroes — PC/XBO/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: André Carvalho
Análise produzida com cópia digital cedida pela Magic Design Studios

é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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