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Análise: Contra Anniversary Colletion — correndo, atirando e se divertindo no Switch

Apesar da contagem malandra da Konami, essa coletânea tem diversão de sobra e celebra a era de ouro da série.


Ouvir a música tema de Contra, tanto nos menus dessa coleção como nos (quase) dez jogos presentes nela, é uma viagem a um passado saudoso para mim. Nunca tive a oportunidade de experimentar as versões de arcade da série, mas acho que as fichas que teria gasto nas velhas máquinas seriam equivalentes à quantidade de dinheiro que investi alugando o cartucho do Contra original para o NES. Para a minha geração, Contra era o melhor jogo para dividir os controles com um amigo. Um clássico indiscutível!

A Konami, apesar de se encontrar em uma fase na qual demonstra pouco interesse em reavivar suas velhas franquias de sucesso, está ciente do fator nostálgico que essas têm para gerações de gamers. Contra Anniversary Collection, portanto, junta-se ao Arcade Classics Anniversary Collection e ao Castlevania Anniversary Collection para celebrar o passado brilhante desta gigante empresa japonesa.  E se você também sente calafrios nostálgicos quando ouve o tema dessa série de ação e tiroteio, pode se divertir um bocado com essa seleção.

Dez Contra todos

Ajudar Bill, Lance e o resto da trupe de Contras a salvar a humanidade dos invasores alienígenas foi uma tarefa que começou em 1987, no título original dos arcades. Depois disso, ainda tivemos uma continuação para os fliperamas, mas onde a série realmente brilhou foi nos consoles domésticos. E são estas versões caseiras que acabam por brilhar também nesta antologia comemorativa de aniversário da Konami, embora a seleção não passe da era 16-bit.

Mas antes de mais nada precisamos falar sobre o elefante no meio da sala: o número de jogos verdadeiramente originais que compõem o pacote. A Konami jura que são dez, mas os fãs menos desavisados notam logo de cara que são apenas sete aventuras diferentes. Vejamos: a contagem abre com os dois exemplares dos arcades (Contra e Super Contra); depois temos os dois títulos de NES (Contra e Super C); um representante do Game Boy (Operation C); Contra III: The Alien Wars de Super Nintendo e Contra: Hard Corps de Mega Drive.

Até aqui, tudo bem, não é mesmo? Mas a partir desse ponto a Konami usou de uma certa malandragem para fechar a dezena prometida. Os três restantes são: o contra de Famicom (ou seja, a versão japonesa do Contra de NES), Probotector e Super Probotector: Alien Rebels, que nada mais são que as versões europeias dos títulos lançados para Genesis e Super Nintendo, respectivamente. Até existem algumas mudanças sutis nestas três versões — como os heróis robôs nos jogos 16-bit e um pouco mais de história no exemplar de Famicom —, mas de resto são exatamente as mesmas aventuras.

A metade boa

Logo que instalei a coleção no meu Switch, instintivamente já pulei para o Contra original de NES. Ele pode não ter os gráficos mais bonitos, a maior variedade de armas ou a ação mais frenética da franquia, mas é, provavelmente, o título mais icônico para grande parte dos fãs desta clássica série. Contra no "Nintendinho" parte direto para a ação, sem qualquer contexto ou perda de tempo — diferentemente de sua versão de Famicom, também presente aqui.

Não muito diferente de Contra é Super C, a continuação com nome bem estranho do original de NES e arcade. Sem muitas novidades, este segundo game é mais do mesmo. Ou seja, a mesma qualidade do antecessor, com muita diversão solo e co-op, em novas fases de progressão lateral. No lugar das fases com visão por trás dos protagonistas, Super C seguiu o exemplo do segundo arcade, com estágios com visão aérea que lembram clássicos como Ikari Warriors e Commando.

Já Operation C, lançado originalmente para Game Boy, é bem parecido com Super C de NES. Embora bastante limitado e menos diversificado do que os outros jogos da marca, conseguiu mostrar que o bom e velho portátil da Nintendo tinha bala na agulha. Pode não ser o melhor da compilação, mas merece seu espaço pelo fator histórico e para matar a curiosidade de quem não teve a oportunidade de jogar um Contra no Game Boy.

Contra III: Alien Wars, assim como diversos outros games da mesma época, usava e abusava das possibilidades do SNES. O jogo apresentou fases em visão superior que usavam e abusavam do chip Mode 7. Também conta com sprites super detalhados e trilha e efeitos sonoros bem mais complexos do que nos antecessores. Isso possibilitou estágios mais variados e bonitos, embora nem todos funcionam muito bem e alguns chefes sejam extremamente frustrantes.

No outro lado da guerra dos consoles, o Genesis recebeu Contra: Hard Corps. O título trouxe novidades para a franquia, como seleção de personagens, cenas cinematográficas, ação ainda mais frenética, muito mais enredo e possibilidades de decisões que levam a fases distintas. Foi uma estreia de altíssima qualidade em um console da SEGA e pode ser considerado um dos melhores da série. Naturalmente, é um dos melhores desta seleção também.

A metade duvidosa

Também marcam presença os dois primeiros jogos lançados nos arcades, em 1987 e 1988, respectivamente. O primeiro, Contra, foi o importante primeiro passo, mas é sem graça, lento, truncado e engasga a todo momento. O segundo, Super Contra, até melhora um pouco o ritmo, mas ainda assim apresenta uma ação genérica e desajeitada. São adições que valem muito mais pela importância da preservação histórica dos games do que por suas qualidades individuais.

Também somos agraciados com a versão de Famicom do Contra original que, diga-se de passagem, está muito longe de ser ruim. Aliás, pode até ser considerada superior à versão de NES, visto que apresenta um conteúdo mais rico ao mostrar um mapa geral por onde o jogador deve passar, além de contextualizar a história com cenas cinematográficas (para a época). Entretanto, o conteúdo de jogo é exatamente o mesmo da já citada versão americana. Teria sido muito mais interessante um esforço para localizar a versão, em vez de apenas duplicar os títulos sem um cuidado extra.

Por fim, temos os dois Probotector. Estes são, na verdade, as versões europeias — e censuradas — dos Contra de SNES e Mega Drive. Ou seja, diminuem ainda mais a contagem de dez games que a Konami fez para este conjunto. É bem verdade que são ótimos títulos, mas é mais repetição de conteúdo.


Ao menos há um fator interessante: como foram lançados no mercado europeu, ambos contam como configuração padrão 50Hz, o que deixa as partidas mais lentas e ligeiramente mais fáceis. Mas também está disponível a opção 60Hz, que acaba acelerando a jogatina para sua velocidade normal.

M2: sinônimo de qualidade

O trabalho de juntar as peças que formam Contra Anniversary Collection ficou a cargo do sempre competente estúdio japonês M2 — reconhecido por seus trabalhos impecáveis com emulação, como na série SEGA Ages. Portanto, como era de se esperar, aqui também os títulos rodam de forma perfeita. Ou seja, rodam exatamente como antigamente, com defeitos e tudo (lembra dos slowdowns do NES?). E apesar de mostrarem suas idades, os jogos ficam ainda mais reluzentes na telinha do Switch.

Por falar em Switch, a jogabilidade com dificuldade brutal e que exige muita precisão não cai bem nos direcionais dos Joy-Con. Mas é o preço a se pagar para ter estas pérolas em modo portátil. Para ajudar um pouco na dificuldade, pode-se apertar o botão R1 para acionar uma opção de tiro rápido. Desta forma, basta segurar o botão de tiro para mandar uma saraivada eterna de balas — o que é uma mão na roda, diga-se de passagem. Infelizmente o multiplayer também se resume ao co-op de sofá, sem jogatina online.

Como não poderia deixar de ser, a coletânea apresenta diversas alternativas de display: original, 4:3, pixel perfect e 16:9, além do já tradicional filtro de scanlines das TV's antigas. Para preencher o vazio das bordas, existem três opções de frames. Há apenas um espaço de salvamento por jogo, mas para compensar há um bacana sistema que salva o replay dos últimos segundos da sua jogatina. Infelizmente não há a função de rebobinar que marcou presença em outras coletâneas deste tipo.

Mas a cereja nesse bolo de projéteis é o livro digital que acompanha o pacote. A Konami abriu o baú e disponibilizou para os fãs uma rica coleção de imagens antigas, artes conceituais, documentos de design, entrevistas, etc. É um verdadeiro presente para os fãs da franquia! Além deste, outro bônus foi adicionado em formato de um update após o lançamento: as versões japonesas dos jogos agora também fazem parte do acervo.

Tem seus prós e seus Contras

Contra Anniversary Collection não é perfeito. Mas perfeição nunca foi uma característica dessa franquia, não é mesmo? O fato é que em jogos de ação arcade como os da série Contra, o fator determinante é a diversão. E isso definitivamente não falta aqui. Mesmo que alguns jogos repetidos tenham entrado na lista final apenas para preencher as dez vagas anunciadas, temos pelo menos cinco títulos de extrema qualidade na coleção. No final das contas, é uma celebração bacana de uma marca que ficou um pouco esquecida nos últimos anos, mas que sempre foi sinônimo de ação frenética, dificuldade brutal e diversão cooperativa.

Prós

  • Co-op descomplicado e extremamente divertido;
  • Opções de display e salvamento são sempre muito bem-vindas;
  • Livro digital com artes conceituais, entrevistas, curiosidades, etc;
  • Os jogos de NES e dos consoles 16-bit são excelentes;
  • Emulação competente pelas mãos do estúdio M2.

Contras

  • Lista com títulos repetidos;
  • A simplicidade dos títulos da série deixa a coleção um tanto repetitiva;
  • As versões de arcade são muito fracas.
Contra Anniversary Collection — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Konami

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne


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