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Análise: Resident Evil 0 (Switch) é uma viagem ao passado da Umbrella Corporation

O clássico horror a bordo do Ecliptic Express retorna com mecânicas únicas em um prólogo para o incidente da mansão, agora no Switch.



Em 2002, a Capcom lançou o remake do primeiro Resident Evil, oferecendo aos jogadores a versão que se tornaria cânone no lugar do clássico de 1996. Com uma diferença de apenas alguns meses, um segundo título também foi lançado exclusivamente para o GameCube como parte do contrato de exclusividade com a Nintendo. A produção tinha o objetivo de contar uma história antes do incidente da mansão e aprofundar certos pontos da história, além de ser o último jogo a adotar um estilo clássico, antes das drásticas mudanças de jogabilidade de Resident Evil 4. Trata-se de Resident Evil 0.


Seguindo o mesmo caminho das versões remasterizadas em alta definição dos outros dois jogos citados, Resident Evil 0 também chegou ao Switch. Apesar de trazer muitas semelhanças ao remake do primeiro título, também há muitas diferenças que mudam bastante a experiência entre eles. Mesmo tanto tempo após seu lançamento original, ter esse prólogo na biblioteca do híbrido da Nintendo ainda tem sua relevância.

A bordo do expresso dos horrores

Os eventos de Resident Evil 0 antecedem o que é mostrado em Resident Evil. A história revela o que aconteceu com o Bravo Team, que foi enviado algum tempo antes do grupo de Chris e Jill para investigar os homicídios canibais nos arredores de Raccoon City. Os problemas começam quando a equipe precisa fazer um pouso de emergência no meio de uma floresta e, logo depois, localizam uma viatura policial completamente destruída. Após descobrirem que o veículo transportava o antigo membro do exército e prisioneiro Billy Coen para execução, por ser acusado de assassinar 23 pessoas inocentes, a equipe se separa para procurá-lo.


É nesse momento que Rebecca Chambers, que atua como coadjuvante no primeiro Resident Evil, assume um papel importante como uma das protagonistas de Resident Evil 0. Durante a investigação, ela acaba se deparando o majestoso trem de luxo Ecliptic Express, misteriosamente imóvel e silencioso no meio da floresta. Não demora muito para que as coisas comecem a dar errado: rapidamente, Rebecca se vê lutando pela sobrevivência no interior do trem, cercada por zumbis e outros monstros assustadores. A aventura prossegue em outros ambientes, como o Umbrella Training Facility e um laboratório de pesquisas.


Em um determinado ponto da história, Rebecca se encontra com o foragido Billy, que também encontrou seu refúgio no trem. Embora a relação dos dois não seja amigável no primeiro contato, eles decidem que a cooperação seria a chave para sobreviver à situação na qual se encontravam. Conforme a história avança, a confiança vai aos poucos sendo construída entre os protagonistas até que, finalmente, descobrimos a verdade sobre o passado de Billy. Enquanto a participação do ex-tenente no jogo tem o seu desfecho, o destino de Rebecca segue em direção ao que já conhecíamos no primeiro Resident Evil.


Resident Evil 0 adiciona muitas informações complementares ao que já conhecíamos da franquia. É ideal para quem já jogou pelo menos até Resident Evil 2 (Multi), já que temos participações importantes de Albert Wesker e William Birkin no passado da Umbrella. O criador do T-Virus, James Marcus, é a figura antagonista principal deste jogo e descobrimos sua relação com o futuro desastre de Raccoon City. O enredo amarra algumas pontas soltas, embora os mais atentos possam perceber pequenas inconsistências - por exemplo, no remake de Resident Evil, Rebecca jamais menciona os acontecimentos do prólogo, como se nada tivesse sido vivenciado por ela anteriormente.



E por falar no remake, a beleza deste título também se aplica a Resident Evil 0. Na verdade, existem alguns pontos do jogo em que os detalhes dos cenários são incríveis. O interior do Ecliptic Express é muito bem detalhado, com as bagagens dos passageiros, itens pessoais e objetos destruídos contribuindo para um ambiente assustador e impactante. Isso permanece mesmo após a chegada no centro de treinamento da Umbrella, onde o jogo passa a ter um tom mais sombrio. As texturas, expressões faciais dos personagens, modelos dos zumbis… tudo está muito bem feito, com uma apresentação competente na versão em alta definição do Switch. Infelizmente, algumas cutscenes não receberam o mesmo tratamento e se apresentam um tanto borradas.


Clássico, porém diferente

Embora Resident Evil 0 seja um jogo cheio de elementos clássicos da franquia, a Capcom inovou em alguns aspectos e aplicou características que só existem nele. Se por um lado ainda temos os cenários pré-renderizados, as câmeras fixas e a jogabilidade estilo “tanque”, por outro, algumas mudanças radicais foram implementadas. Uma delas se refere justamente ao fato de termos dois protagonistas que são controlados ao mesmo tempo.


Diferente dos outros jogos, em que deveríamos jogar uma vez com cada personagem, aqui será necessário escolher os momentos em que o controle será de Billy ou de Rebecca. Cada um tem habilidades diferentes: enquanto o ex-tenente é mais forte e consegue mover objetos pesados, somente a médica da Bravo Team consegue combinar ervas. O jogador também pode decidir se os personagens andarão juntos ou não, deixando um deles em uma sala específica. Também é possível decidir se o personagem não controlado reagirá sozinho à aproximação de um zumbi com tiros. A mecânica de alternar entre os personagens é fundamental para o andamento do jogo, sendo parte da resolução de diversos puzzles.


Os conhecidos baús, usados para armazenar itens e que costumam ser interligados por todo o jogo, não existem aqui. Por isso, e como os espaços de inventário dos dois protagonistas é muito limitado, os itens que não serão necessários devem ser deixados no chão. Isso aumenta bastante a dificuldade do jogo, já que é preciso retornar exatamente para o mesmo ponto onde deixou um item para recuperá-lo e, para piorar a situação, cada sala tem um limite de itens que podem ser deixados nela. Por outro lado, o mapa do jogo mostra exatamente onde cada item foi deixado para trás.


O jogo traz uma nova opção de controles, que oferece uma jogabilidade um pouco mais próxima de jogos mais recentes. O estilo de controles clássico já está um pouco datado, mas os fãs mais antigos ainda podem optar por usá-lo. Nessa configuração alternativa, os analógicos movem o personagem para a direção no qual são apontados, sem a necessidade de apertar um botão para correr e pressionar sempre para cima para andar para frente. No geral, essa forma de controle funciona bem, mas as mudanças de perspectiva de câmera podem enrolar um pouco o jogador — principalmente nos momentos em que é preciso ter precisão para desviar do agarrão de um zumbi insistente.


Tudo o que se espera de um bom e clássico Resident Evil está lá. Os puzzles existem e são desafiadores na medida certa, sendo o único “agravante” a questão da falta de baús. As máquinas de escrever estão presentes, e para usá-las é necessário gastar os famosos ink ribbons, que existem em quantidade limitada. Além dos velhos conhecidos mortos-vivos, temos a presença de outros inimigos como os Cerberus (cachorros), corvos e Hunters. Entre os monstros inéditos, existem os Eliminators (primatas) e as sanguessugas, que são capazes de se agrupar e criar formas humanoides - esses monstros, inclusive, têm uma relação mais direta e importante com o enredo do jogo.


Experiência completa, e agora híbrida

No Switch, Resident Evil 0 chega com tudo o que tem para oferecer. A versão em HD não deixa em nada a desejar em relação aos demais consoles, e o desempenho é satisfatório tanto no modo portátil quando na dock. Porém, nem tudo é perfeito, e há pequenos detalhes a serem considerados.

Alguns momentos do jogo possuem um tempo de carregamento maior que o normal, nos quais a animação das portas se abrindo não é suficiente para escondê-los. Essa espera adicional pode levar cerca de três segundos além da animação. Embora possa parecer pouco, isso é o suficiente para irritar, já que há muita necessidade de backtracking. Além disso, o jogo não tira proveito de nenhum recurso do Switch, como os sensores de movimento.



Mesmo assim, é uma possibilidade muito agradável poder se aventurar pelos ambientes escuros e opressores de Resident Evil 0 em qualquer lugar, e jogar em modo portátil e com fones de ouvido torna tudo ainda mais imersivo. Todos os conteúdos extras da versão em HD, como o sistema de conquistas, as roupas extras, o modo Leech Hunter e o bizarro Wesker Mode também estão presentes no Switch. Para habilitá-los, é necessário terminar o jogo pelo menos uma vez.



Resident Evil 0 é uma experiência clássica da franquia. De fato, o título não é tão memorável e não tem o mesmo apelo do remake do primeiro título. Os efeitos do tempo podem ser mais sensíveis aqui, mas a obra ainda mantém uma aventura que vale a pena ser explorada - principalmente para os fãs. Suba a bordo, o Ecliptic Express aguarda sua partida.


Prós

  • Experiência completa e em alta definição;
  • Bom desempenho no Switch, inclusive no modo portátil;
  • Jogo com mecânicas exclusivas na série;
  • Ambientação excelente.

Contras

  • Loadings mais demorados que o normal;
  • Preço mais alto que as versões para outros consoles;
  • Nenhum suporte aos sensores de movimento.


Resident Evil 0 - Switch/ PS4/ XBO/ PS3/ X360/ PC - Nota 7.5
Versão utilizada para análise: Switch

Revisão: Vinícius Rutes
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


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