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Análise: Forager (Switch) — uma picareta e um mundo de possibilidades

O jogo perfeito para quem gosta de coletar coisas e transformá-las em outras coisas.

Forager é um jogo bem específico. Aparentemente muito simples, mas ainda assim com várias camadas. Repetitivo, com certeza, só que igualmente viciante. É difícil parar de jogar Forager, e isso é especialmente engraçado porque o jogo consiste basicamente só de "trabalho". Imagine um Stardew Valley sem a parte da história, romances, amizades, contexto… o que sobra? Minerar, cortar, colher, plantar, comprar, vender, derrotar, produzir, produzir e produzir cada vez mais.

A produção é tanta que, com o tempo, o título torna-se praticamente um idle game e deixa de sobrecarregar o jogador com tanta coisa para fazer. Você só precisa esperar enquanto o maquinário automatizado resolve (quase) tudo em seu lugar e se concentrar em completar todo tipo de missão e objetivo — e, acredite, você vai querer pegar 100% e coletar todas as "façanhas", acessórios, técnicas, selos, artefatos, roupas, armas e ferramentas disponíveis. Já irei entregar o ouro logo de cara: sim, vale bastante a pena jogar Forager.

"Vamos começar construindo uma fornalha"

Uma pequena ilha deserta. Árvores, rochas, minérios e alguns frutos à sua volta. Ao seu dispor estão apenas uma picareta, uma mochila e, claro, muito tempo livre. Uma indicação mágica vinda do além diz que é só apertar o botão B para acessar um menu cheio de opções. Logo, você percebe que é possível construir novos objetos utilizando nada mais nada menos do que os mesmos recursos que estão à sua frente: madeira, pedra, ferro, etc. Já é hora de encarar a solidão da ilha deserta e se mexer. Cheio de coragem, você proclama, falando consigo mesmo: "vamos começar construindo uma fornalha".
 


Para fazer uma fornalha, primeiro é preciso coletar dez pedras. Então, com a ajuda do seu novo aparato, é só fazer alguns tijolos e lingotes de ferro para construir a forja e a mesa de costura — outras construções essenciais para garantir o seu progresso. Enquanto isso, o trabalho de destruição e coleta constante de todos os minérios e recursos à sua volta continua. A prática rende pontos de experiência e, ao subir de nível, você pode escolher uma nova "técnica", recurso que funciona como um sistema de progresso durante o jogo. São 64 ao todo, mas no começo são só quatro. Cada vez que você escolhe uma, novas opções surgem e tudo é mais ou menos separado em blocos temáticos (como culinária, plantação, indústria, magia, comércio e aí vai.)

As técnicas são skills que ativam os mais diversos efeitos passivos e liberam novas construções e habilidades para o seu personagem e sua isolada ilhota. Só que a pequena ilha inicial não fica assim por muito tempo. Além de você poder subir de nível e pegar novas técnicas para desenrolar o progresso do jogo, existe um sistema de compra de novas ilhas para compor o seu mundinho — e, nesse caso, cada nova área acrescenta algo de considerável importância, como puzzles, NPCs e quests, algumas construções específicas e até mesmo dungeons



Para adquirir esses novos pedaços de terra, existem várias formas de se fazer dinheiro. Você pode literalmente criar o dinheiro a partir de barras de ouro, fazer um mercado e vender seus recursos e itens criados, ou simplesmente construir vários bancos para produzir dinheiro de forma indefinida e automática. Os pedaços de terra aumentam de preço exponencialmente e dividem-se em cinco áreas temáticas, cada uma com suas peculiaridades.

A área inicial é uma floresta genérica com uma graminha verde tranquila e no máximo alguns slimes como inimigos. Mas também há o deserto, a parte gelada, um cemitério com vários esqueletos e a parte "final" com uma temática de fogo e demônios. Cada ilha é pré-determinada, no entanto surge de forma quase aleatória — ou melhor, embora os puzzles e as peculiaridades sejam os mesmos para cada área, a ordem e a posição das ilhas varia de jogo para jogo.

Recursos, recursos e mais recursos

Várias coisas estão presentes para ajudar você a passar seu tempo nesse mundinho construído por meio de muito esforço (e infinitas picaretadas). Há um pouco de combate, alguns puzzles até bem específicos e mais complicados do que parecem, aquelas tradicionais quests de levar um item X até um NPC específico e até um prédio que reúne coleções de itens bem no estilo do community center de Stardew Valley ou o museu de Animal Crossing — o que é sempre uma mecânica ótima para quem gosta de completar tudo. No entanto, no final das contas, todas outras atividades parecem pequenas em meio a um mar de coleta e crafting.



Há diversas ferramentas disponíveis e todas possuem um bom número de upgrades, como a picareta inicial, a espada e arco e flecha. Adicionalmente, o mesmo processo de melhoria por meio da coleta de diferentes recursos acontece com equipáveis como botas e luvas (que aumentam a velocidade de movimento e de ataque, respectivamente) e com a mochila (aumentando exponencialmente a quantidade de slots para se guardar itens e recursos). Melhorar os diferentes equipamentos acontece de forma gradual, não é tão complicado e coloca mais um objetivo constante de coleta na mente do jogador. Em geral, tirando os upgrades finais que precisam de plástico e mecanismos mais complexos, adquirir a melhor forma de todas as ferramentas é divertido e fácil de se resolver.

Uma das maiores belezas de Forager é que o título pode ser jogado de várias formas diferentes, com ritmos de aquisição de recursos e construção específicos e estratégias que geralmente focam mais em um tipo de coleta ou trabalho — pelo menos mais no começo das mais ou menos 15h de entretenimento que o jogo proporciona. Graças a isso, uma boa dica para aproveitar mais a experiência é não enrolar muito para comprar novos pedaços de terra.


Durante o meu primeiro playthrough, eu fiquei tão obcecado pelos processos de coleta e mecanização de tudo que estava acontecendo a minha volta que todas as dungeons acabaram ficando mais para o late game. O que quer dizer que os puzzles continuaram sendo igualmente efetivos, mas as recompensas e os inimigos não resultaram em nada demais para o nível do meu personagem. Provavelmente, a melhor forma de se aproveitar Forager é se acalmar um pouco no fluxo do "trabalho" e comprar novos pedaços de terra sempre que possível.

Ainda assim, em geral as dungeons, quests e puzzles são melhor classificados como pequenas distrações. Não espere nada tão elaborado, super inovador ou muito desafiador — o foco permanece na missão de aumentar a ilha, coletar, destruir e construir cada vez mais coisas. Isso não é exatamente ruim, só que fica aquele gostinho de quero mais. Forager é basicamente um jogo muito bom que provavelmente poderia ser ainda melhor. A versão do Switch ainda está na 1.0, e o criador promete alguns updates com quantidade de conteúdo inédito significativo (muitos que inclusive já foram lançados na versão do PC). Sem falar que, pode acreditar, o jogo vicia bastante durante essas quinze horas médias de jogatina. Só não espere nada muito além do prometido.



Graças a sua natureza quase de mobile game, Forager é um jogo perfeito para se jogar em modo portátil e passar o tempo sem grandes pretensões. Como pode ser visto por meio do conteúdo destravável na parte de Extras do menu principal de Forager, o desenvolvimento do título não foi algo simples. O jogo é produto de uma Game Jam, desenvolvido por HopFrog após uma série de problemas e dificuldades na sua vida pessoal. Forager deu uma chance para o desenvolvedor realizar seu sonho de fazer jogos e isso não aconteceu por acaso. Seu charme específico, sua identidade própria e um gameplay sólido colocaram o jogo na linha de visão das pessoas e fez com que elas quisessem jogá-lo cada vez mais. E agora, no Switch, é possível levar Forager com você para qualquer lugar, e isso beneficia muito a experiência de jogo. 

Mais um indie de qualidade no Switch

Forager chega como uma ótima adição à biblioteca de indies do Switch. Seus gráficos e senso estético geral são super simples, efetivos e agradáveis. Quanto à parte sonora, a trilha às vezes parece não chamar tanto a atenção, mas acaba ficando na cabeça depois de um tempo (de forma positiva). Além do mais que todos os efeitos sonoros são ótimos (e constantes). Sons de máquinas produzindo e concluindo objetos e barulhos de destruição e coleta de recursos estão presentes quase a todo instante, no entanto o processo nunca fica chato — pelo contrário, o Switch até se aproveita disso adicionando uma tremida no Joy Con super satisfatória, que harmoniza perfeitamente com os sons do jogo.



Pontos negativos existem. Forager envolve basicamente dois tipos de gameplay que podem ser um pouco polêmicos para alguns jogadores: crafting e idle. O tempo que você não estiver coletando recursos e transformando-os em outras coisas, você estará esperando para que tudo se resolva por meio da automatização dos processos. Isso pode ser um pouco repetitivo e eventualmente cansar de vez o jogador, mas até lá costuma ser bem divertido. Além disso, tanta coisa acontece sozinha no late game que o Switch até sofre com umas "engasgadas" de FPS e performance, só que nada muito drástico ou que interfira tanto na experiência geral. Se você gosta desse tipo de jogo, como Terraria, Stardew Valley ou Animal Crossing, por exemplo, vá sem medo porque Forager já é um jogo excepcional e promete melhorar ainda mais no futuro.

Prós

  • Fórmula viciante;
  • Visual charmoso;
  • Parte sonora de primeira;
  • Ótimo para o modo portátil do Switch.

Contras

  • Gameplay tende a ser um tanto repetitivo e definitivamente não é para todo mundo;
  • Eventuais problemas de performance (que não chegam a atrapalhar muito);
  • Pouco a oferecer indo além da fórmula básica de coleta e produção constante.
Forager - Switch/PC/PS4 - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Jorge Neto 
Análise produzida com cópia digital cedida pela Humble Bundle

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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