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Análise: Mutant Year Zero: Road to Eden traz furtividade, estratégia e visual capenga ao Switch

A aventura pós-apocalíptica recheada de exploração stealth e combate tático chega ao Nintendo Switch em um port problemático.


Mutant Year Zero: Road to Eden é um jogo de estratégia por turnos bem diferente. Quem olha apenas algumas imagens isoladas provavelmente vai relacionar com XCOM, o clássico da Firaxis. Mas o título, produzido pelos suecos da The Bearded Ladies — num time que inclui talentos de séries como Hitman e Payday — esconde algumas mecânicas de furtividade, aventura e exploração muito interessantes, que deixam a jogatina consideravelmente mais diversificada. Por ser tão peculiar, é uma pena que tenha desembarcado no Switch em um port tão problemático.

Mutantes em um mundo destruído

Lançado originalmente em 2018 para PC, PS4 e Xbox One, Mutant Year Zero é baseado em um RPG de mesa bem mais antigo (data da década de 80) que conta uma misteriosa e instigante história pós-apocalíptica de ficção científica. Em um planeta devastado por guerras e desastres naturais, a humanidade sobrevive como pode, coletando mantimentos nas ruínas da antiga civilização e batalhando com gangues de fanáticos religiosos e aberrações da natureza — consequências desse passado bélico e descuidado. É nesta distopia que surgem os mutantes do título.


O pato Dux, o javali Bormir e a humana Selma (além de outros personagens encontrados durante a aventura) são patrulheiros, criaturas com mutações genéticas e habilidades especiais que são designadas a proteger a Arca, um assentamento de sobreviventes, e o Ancião, líder do grupo e um dos únicos sobreviventes dos tempos passados. Com o desaparecimento repentino de Hammon, um dos patrulheiros mais importantes do assentamento, o Ancião envia o inusitado grupo de heróis para investigar o que está acontecendo.

Durante a jornada, Mutant Year Zero consegue apresentar a história de maneira muito eficiente e discreta. Os poucos momentos com cutscenes são apresentados na forma de desenhos estilizados, como numa bela história em quadrinhos. De resto, o desenrolar da trama é contado organicamente, através das interações dos personagens e de mensagens encontradas pelos cenários.

Apesar do óbvio comentário social sobre a ganância e ignorância do ser humano perante a natureza, a narrativa é muito mais focada na jornada pessoal dos mutantes, e em suas buscas por explicações sobre suas origens. É uma história batida, com todos os clichês de obras pós-apocalípticas. Mas, no final das contas, a trama sarcástica, bem escrita e totalmente traduzida para o português cumpre seu papel e entretém. E tudo fica ainda mais legal quando a trilha sonora com clima oitentista rege a ação.

Explorando silenciosamente e preparando emboscadas

Por mais bacana que seja esse universo, não dá para negar que o grande destaque de Mutant Year Zero é, de fato, sua mistura inusitada de gameplays. Diferentemente de XCOM, com sua simulação e manutenção de base, Road to Eden é, na verdade, um jogo de aventura em terceira pessoa. Grande parte da jornada passamos caminhando lentamente pelos diversos cenários na busca por novos caminhos, artefatos e sucata — este último que é o dinheiro usado na Arca para comprar melhorias para as armas e outros itens.

A grande sacada é que a abordagem aos inimigos é uma prerrogativa do próprio jogador, o que injeta originalidade ao gênero. Eu explico: os adversários no jogo — que podem ser gangues de fanáticos religiosos, robôs, animais selvagens, etc. — estão todos fazendo rondas pelos cenários. Cada um possui um arco de luz que representa a sua zona de visão (algo como os cones de visão dos inimigos dos Metal Gear mais antigos). Fora desses arcos, os heróis estão a salvo e podem caminhar livremente.

Os personagens controláveis podem andar em velocidade normal, o que facilita a visibilidade, ou agachados, o que diminui o arco de visão dos adversários e facilita a ação stealth. Desta forma, cabe ao jogador esgueirar-se nas fronteiras dos inimigos e preparar emboscadas, escolhendo o melhor momento para fazer o ataque. Os vilões também possuem suas habilidades e níveis de dificuldade, portanto usar a furtividade para fugir dos conflitos mais difíceis também é uma opção — embora eliminar inimigos seja o único caminho para evoluir os heróis.

Essa liberdade de escolha na abordagem dos combates é uma ideia muito interessante e que adiciona um tempero especial num estilo que costuma ser baseado apenas em repetição. No entanto, essa novidade não vem sem alguns problemas: o ritmo da exploração é absurdamente lento, talvez numa tentativa de aumentar a escala de um jogo que tem um limitado número de cenários exploráveis.

Da exploração livre para o combate em turnos

Durante a exploração, o título funciona em tempo real. Mas quando finalmente entramos em modo combate (atacando ou invadindo a área de visão dos inimigos), aí sim temos o bom e velho sistema de turnos, com suas características mais marcantes: quadrantes de movimentos; porcentagens para os acertos dependentes de fatores como distância, altura, tipo de arma, etc.; coberturas para proteção; e tudo o mais que acompanha este já consagrado tipo de gameplay tático.

Passei grande parte da minha jogatina me infiltrando entre inimigos, tentando encontrar posições de vantagem e estratégias antes de engajar nos conflitos. O segredo do sucesso nas batalhas, no final das contas, também passa por essa furtividade. Isolar e eliminar os inimigos um a um, silenciosamente, pode ser a diferença entre uma vitória contundente ou o caos de ter de lidar com uma enxurrada de adversários tentando te matar a cada turno.

As batalhas são dinâmicos e os inimigos são bem diversificados e perigosos, cada um contando com especialidades próprias. Entretanto, é também no combate que as limitações de Mutant Year Zero também ficam mais evidentes – especialmente se compararmos com a complexidade de XCOM. Os destaques negativos ficam para o tiroteio bastante básico, a ausência quase total de chefes memoráveis e o limitado número de mutações disponíveis para os heróis.

Evoluindo armas e mutações

Tão importante quanto explorar esse mundo destruído, ou ser inteligente nas escolhas estratégicas das batalhas, é gerenciar com astúcia a distribuição dos escassos pontos de habilidade dos heróis. É imprescindível balancear os três personagens com armas, itens e mutações que favoreçam diferentes cenários de combate, como tiros à distância, emboscada, etc. Embora essas escolhas sejam, também, bem limitadas.

Mutant Year Zero é bastante desafiante, e inimigos, sucatas e artefatos são escassos durante a campanha. É sério, cada inimigo conta. Portanto, explorar as áreas opcionais se torna fundamental para angariar aqueles pontinhos de experiência extras (especialmente nos modos mais difíceis). Porém, e este é um grande porém, todos os heróis sobem simultaneamente de nível, demonstrando mais uma limitação do título se compararmos com as possibilidades de construção de personagens de XCOM, por exemplo.

Isso significa que não temos a chance de construir um personagem, mas sim um grupo (inclusive os reservas que não estão entre os três jogáveis). Essa evolução não-individual acabou se tornando algo meio mecânico na jogatina, e me fez perder um pouco o apego pelas divertidas personalidades dos heróis. Para piorar um pouquinho, as habilidades disponíveis são poucas e se repetem entre os protagonistas, diminuindo a profundidade dos builds possíveis.

Cada personagem possui três slots para mutações/habilidades simultâneas: uma ativa leve, uma ativa forte e uma passiva. As habilidades ativas, depois de usadas, precisam ser "recarregadas". Ou seja, é preciso matar inimigos para usá-las novamente. Estas limitações nos usos das mutações adicionam um pouco mais de estratégia aos combates, e planejar bem o uso delas é fundamental e gratificante.

Pacote completo no Switch, mas com um desempenho sofrível

Gráficos normalmente não estão no topo da minha lista de prioridades quando começo a experimentar um novo jogo — principalmente em um estilo como estratégia ou RPG, como é o caso aqui. Entretanto, se os aspectos visuais começam a entrar no caminho do gameplay, essa hierarquia logo muda.

Mutant Year Zero é um título razoavelmente atraente nas outras plataformas, e não fica terrível no Switch quando ele está no dock, ligado à TV.  Mas no modo portátil o baque é muito grande e beira o inacreditável. A resolução é baixa em todos os momentos, tudo parece meio borrado e fora de foco, e efeitos visuais como neblina e explosões perderam muita qualidade. Esses problemas acabam comprometendo a exploração dos cenários, e encontrar sucata e artefatos acaba se tornando uma tarefa muito mais cansativa do que deveria.

E não para por aí: além das longas telas de loading e quedas de frame rate, minha experiência com o jogo também foi comprometida por diversos crashes que fizeram meu Switch voltar para o menu principal do console (inclusive em meio a batalhas longas e difíceis). São problemas técnicos que merecem atenção especial e correções em futuras atualizações do título.

Mas nem tudo são más notícias para os donos do Switch. No console da Nintendo o título chega em sua versão Deluxe, contando com o pacote de expansão Seed of Evil, que dá continuidade à história principal, inclui um novo personagem (o alce Big Khan) e diversos mapas inéditos. Além disso, há a possibilidade de retornar aos mapas antigos para enfrentar novos inimigos e coletar novos loots.

Apesar dos problemas técnicos e de algumas limitações no gameplay, a soma de suas qualidades ainda se sobressaem, e Mutant Year Zero foi, na maior parte do tempo, um agradável jogo de aventura e combate tático, com ideias originais que deixam a jogatina bem divertida.

A mutação ruim de um bom jogo

Mutant Year Zero: Road to Eden entrega uma mistura inusitada de estilos que, apesar de imperfeita, funciona. É uma aventura de exploração e furtividade em ritmo lento, com uma limitada evolução de personagens e um básico combate tático em turnos. Entretanto, o seu brilho não está nas partes, mas sim no todo: a sensação de andar silenciosamente e preparar emboscadas mortais para os inimigos mais durões é extremamente satisfatória. O Switch recebe uma versão completa mas bastante problemática do título, o que acaba por manchar uma experiência que tinha tudo para ser excelente.

Prós

  • História bem escrita e cheia de sarcasmo, temperada com uma trilha sonora com clima oitentista;
  • Uma mistura interessante de aventura em terceira pessoa, RPG e estratégia;
  • Combate tático por turnos inspirado no consagrado XCOM mas com diferenças que o fazem se destacar;
  • Usar a furtividade para eliminar os inimigos silenciosamente é satisfatório e eficaz;
  • Versão para o Switch já conta com o pacote de expansão Seed of Evil.

Contras

  • Exploração exageradamente lenta e cansativa;
  • Evolução dos heróis é limitada, e suas habilidades especiais pouco inspiradas;
  • Faltaram chefes ou missões realmente memoráveis;
  • Visual e desempenho no Switch é sofrível.
Mutant Year Zero: Road to Eden — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch
 Análise produzida com cópia digital cedida pela Funcom

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne

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